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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Gerrit Komrij



Gerrit Komrij (1944-2012), um dos grandes escritores holandeses de todos os tempos. Nascido em Winterswijk, faleceu no início deste mês em Amesterdão, tendo vivido em Portugal desde 1984, de inicio em Trás-os Montes, durante cinco anos, tendo estabelecido depois morada definitiva em Vila Pouca da Beira (Oliveira do Hospital). Nasceu na Holanda, foi morrer à Holanda, mas foi seu desejo ser sepultado em Portugal.
Dono de uma extensa obra literária destaco apenas "Atrás dos Montes", "Um Almoço de Negócios em Sintra" e "Vila Pouca". Ver mais em http://pt.wikipedia.org/wiki/Gerrit_Komrij Dele escolhi o seguinte poema.



TUDO CONTINUA

Aí se erguia uma parede em que toquei,
A parede foi demolida
O entulho serviu mais adiante de fundamento
Uma árvore plantei no meu jardim.

Que foi asfaltado. A cinco metros
De fundo, a raiz contém-se, amuada.
Meio milénio se preciso. Um dia
Chega a Marte a pneumónica porque tossi.

Houve um amigo a quem escrevia,
Uma rocha onde gravei o meu nome.
Somos parte de tudo enquanto vivemos
E tudo continua quando morremos
                                                                

                                        

                                    in Miragens ( Luchtspiegelingen),2001

Voar

VOAR

Quando vieres poderei desfolhar todas as rosas do jardim; 
até num gesto, sem que te rias de mim
destronar todas as princesas, pôr flores em todas as mesas.

Cobrirei no silêncio, o teu corpo de beijos

     e a minha cama de desejos.

     E quando o sol abrir de repente o teu sorriso

     dir-te-ei sem reservas com toda a força 

     que é preciso

     que os deuses morreram

     e só nos temos um ao outro.
     Depositarei no Olimpo todos os segredos contidos, 
     todas as mágoas nos tempos idos.
     Liberta de promessas, ilusões e receios
     fundirei nos céus todos os astros,
     ficarei na escuridão do quarto a escutar a tua voz.
     O vento soprará para nós e toda a cidade
     renascerá das cinzas; Fénix renascida 
     das noites do passado...
     Depois de te ter amado assim,
     porei dentro de ti, em mim teus olhos doces
     como se fosses
     a esperança e alegria da manhã.
     Sã miragem de sonho concretizado
     realizarei em próxima viagem, os teus cabelos
     a crescer sobre os meus dedos.
     Sem medos,
     como quem espera a madrugada,
     não pedirei mais nada.
     Decidirei em cada regresso 
     o renascer da bruma na orla da praia
     e pintarei para que não saia
     nunca mais das minhas margens o sonho das viagens
     e este rio que me percorre desde sempre.
     No presente ficarei a sós contigo.
     Em cada abrigo , perto das grutas
     nascerão de corpos cansados, todas as lutas.
     Estarei de braços abertos e fecharei em laços
     os teus braços, e ao ouvir os teus passos pelo chão
     estenderei sem limite a minha mão...
     Estarei à tua vinda, sempre, ainda,
     ave na primavera dos países.
     Voando....




DESCONCERTO

O amor é um barco distante no mar,
ou este ondular constante do meu coração
nas praias do teu olhar?
Ou é apenas o saltitar das minhas mãos, tão persistente
na estrada da imaginação descrita pelo sol poente?
Será este céu que se sente tão fundo na alma...
É lava de vulcão
ou apenas a estranha calma
duma louca e desconcertada oração?
Será flor de jardim,
ou apenas este pomar a brotar desajeitado
dentro e fora de mim?