Foto de Pedro Loureiro
"A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra,
tu a colhes, mulher, a distribuis
tão generosa e à janela do mundo.
O sal do mar percorre a tua língua;
não são de mais em ti as coisas mais..."
in Agora, Estar
Pedro Mário Alles Tamen nasceu em Lisboa em 1934. Licenciou-se em Direito, foi director da Morais Editores, administrador da Fundação Calouste Gulbenkian durante vinte cinco anos, presidente do PEN Clube Português e presidente da Assembleia Geral da Associação Portuguesa de Escritores. Dirigiu as extintas revistas "Anteu" e "Flama", leccionou no ensino secundário e fez crítica literária durante algum tempo no jornal Expresso. Traduzido em diversas línguas, foi ele próprio tradutor de Breton, Sartre, Camilo José Cela, G. Bataille, Proust, Garcia Márquez, Tolstói e Kundera, entre muitos outros.
Escrita reveladora de uma busca da transcendência, numa obra extensa marcada pelo percurso profundo pelas palavras, testando os limites da possibilidade de representação de uma espécie de ficção interior, no sentir de um eu lançado no desejo da compreensão de um mundo repleto de luz, obscuridade e contradição, numa terra ao mesmo tempo espaço quente de liberdade e solidão, de múltiplas metáforas construída. Um estilo ora linearmente concreto, ora expressivamente lírico através do qual o sujeito se liberta no espaço e na linguagem como grande veículo para a tradução dos afectos.
Algumas obras: "Poema para Todos os Dias"(1956), "O Sangue, a Água e o Vinho"(1958), "Daniel na Cova dos Leões"(1970), "Escrito de Memória" e "Os Quarenta e Dois Sonetos"(1973), "Agora, Estar"(1975), "Horácio e Coreáceo"(1981), "Princípio do Sol"(1982),"Escrita Redita"(um disco-antologia de poemas ditos por Luís Lucas,1999), "Retábulo das Matérias"(Antologia com os poemas escritos desde 1956,2001), "Analogia e Dedos"(conjunto de poemas sobre figuras como Inês de Castro, Nefertiti, Cleópatra ou Carlos Paredes,2006) e "Rua de Nenhures"(2013).
Algumas distinções: Prémio D. Dinis, o Prémio de Poesia Luís Miguel Nava, o Prémio Literário Inês de Castro, Prémio da Crítica, Prémio Nicola, Grande Prémio Inapa de Poesia, Prémio Literário Casino da Póvoa, Grande Prémio de Tradução Literária e Prémio da Associação Portuguesa de Escritores.
Fotog. de Nuno Oliveira
Um poema sobre o questionamento da Amizade.
AMIGO, A QUE VIESTE?
Onde foste ao bater das quatro horas
e antes, quem eras tu, se eras?
Amigo ou inimigo, posso falar-te agora
sentado à minha frente e com os ombros
vergados ao peso da caneta?
Falo-te sobre a cabeça baixa
e vejo para além de ti, no horizonte,
teus riscos e passadas;
mas não sei onde foste, nem se eras.
Olho-te ao fundo, sob o sol e a chuva,
fazendo gestos largos ou só um leve aceno;
dizes palavras antigas,
de antes das quatro horas,
e nada sei de ti que tu me digas
dessa cabeça surda.
Não te pergunto pela verdade,
que pensas de amanhã ou se já leste Goethe;
sequer se amaste ou amas
misteriosamente
uma mulher, um peixe, uma papoila.
Não quero essa mudez de condolências
a mim, a ti, ou só à terra
que tu e eu pisamos - e comemos.
Pergunto simplesmente se tu eras,
quem eras, e onde foste
depois que se fizeram quatro horas.
Será que não tens olhos? Não tos vejo.
De longe em longe
agitas a cabeça, mas talvez seja engano.
Palavra, não te entendo.
Amigo, a que vieste?
in Horácio e Coreáceo
Sem possibilidade de outra escolha, porque apenas conheço musicado este poema de Pedro Tamen, cantado por Cristina Branco e Pedro Moutinho, optei pela interpretação de Carlos do Carmo.
"Um Fado: Palavras Minhas"( Tábua das Matérias). Pena que o vídeo apresente apenas a imagem do excelente saxofonista Carlos Martins.
)
DE NEVE NADA SEI, DE SOL TAMBÉM
De neve nada sei, de sol também,
de milhares de sossegos acordados,
da subida do teu rosto atrás dos ombros,
da mão ardente, da vista da sacada nada sei.
Ponho palavras como coisas feitas:
Só entre elas, enquanto jogam, leves,
seu rodado sem cor nem qualidades,
minha ciência existe, e já não é minha,
ou só tão minha como tua e delas,
ar entre os dedos, sumo de verdades.


