sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Teias de Aranha


             "Ninguém nasce mulher, torna-se mulher"(Simone de Beauvoir)               




 A sociedade assenta erradamente numa desigualdade de género. Ser homem ou ser mulher resulta de uma construção social que embora tendo sofrido alterações progressivas ao longo do tempo, com atenuação e quase erradicação das diferenças em certos países, continua com a perpétua discriminação em muitos outros.
 Estamos ainda, do ponto de vista global, entre a realização de uma utopia (Igualdade), e a frustração pela sua não realização em muitos cantos do mundo; uma questão de ruas tão estreitas e fundas, becos labirínticos de fácil entrada mas muito difícil saída.
 Não vou aqui falar da situação dos países nórdicos, geralmente apontados como respeitadores e incentivadores de igualdade, mas de muitos outros locais, onde a mulher é ainda considerada, não necessariamente pela Lei, mas pelos costumes e tradições, e pela religião, como um ser de categoria inferior. Fenómeno típico de sociedades pouco desenvolvidas e caóticas, e como sabemos todo o caos tem em si próprio uma ordem que convém ser mantida, nas quais a mulher é vista como um ser frágil que só existe em função de alguém.
 Quem não aceita a independência da mulher, não lhe reconhece verdadeiramente qualidades e potencialidades, concepção transmitida de geração em geração de que a fêmea poderá estar sempre a meio caminho entre a virtude e o pecado, como ente supostamente em risco que necessite da protecção de um ser superior que lhe evite qualquer erro ou deslize, em relação ao que deve ser o seu comportamento sócio-familiar. Raparigas deverão ruborizar quando deixam a sua mente vaguear entre os seus desejos mais íntimos, porque desde a longínqua história da maçã, a culpa desceu divinamente sobre elas, como se o encanto e sedução natural de uma mulher fosse algo de urgente anulação, numa desvalorização de toda a sua vontade, impedindo-a tantas vezes de ter uma vida laboral e social, sem direito a autonomia e auto realização. Ideia arreigada de que o homem, supremo chefe, o grande conquistador social e sexual tem de controlar a "sua" mulher, numa lógica absurda do "manda quem pode, obedece quem deve", princípio de autoridade enfeitado de ciúme, por vezes valorizado pela mulher como sinal de amor, quando na generalidade não passa de um intrínseco e disfarçado desejo de propriedade; herança de quando a mulher era equiparada a camelos, vacas e ovelhas. Querer uma pessoa não significa amá-la. Um mundo de homens que deixou em muitos países as mulheres nas margens como sub-categoria, numa relação paradoxal que não permite aos homens a sua verdadeira humanidade, porque uma relação de poder aniquila opressor e oprimido.
 As mulheres continuam a ser as grandes responsáveis pela educação dos filhos, e no entanto algumas transmitem-lhes, sem disso se darem conta, esteriótipos sobre o papel da filha e do filho, dentro de casa e fora dela, numa sociedade com múltiplas dificuldades a superar por ambos os sexos. Pais e mães tendem geralmente a considerar, de forma quase instintiva, que as meninas devem ser gentis, dóceis e arrumadas. Devem ter gosto pelas tarefas domésticas em geral, mesmo que essa vocação não exista. É por isso expectável que uma mulher trabalhando fora de casa seja uma dona de casa responsável pelo bem-estar de todo o agregado familiar.
 Certos pais teimam em pensar que é "natural" um rapaz não ter tendência para limpar ou arrumar, como se tudo o que fosse monótono e aborrecido dentro de casa, tivesse de ser executado por uma mulher supostamente predestinada desde o útero a manter os aposentos, a cama e a mesa em ordem para o seu senhor.
Todos estes erros de educação poderão fazer com que este rapaz guarde em si a falsa ideia de que as tarefas domésticas nada custam, que não são trabalho em si mesmas, que a casa aparecerá a brilhar num golpe de magia de uma qualquer fada do lar. 
Teias de aranha acumular-se-ão um dia dentro de casa e nas cabeças de alguém, porque já não existe ou nunca existiu ternura nem cumplicidade atrevida, e de um clima de solidão acompanhada onde a indiferença causou desgaste irremediável, desemboca-se por vezes em tensão conflituosa e hostilidade que pode conduzir à violência psíquica e física em terreno já minado por sentimentos de vergonha e auto estima inexistente. Fenómeno difícil de solucionar porque a violência é exercida no silêncio das casas, muitas vezes por homens afáveis no trato social.
 Não por acaso alguém disse que "as tragédias acabam em morte, as comédias em casamento", mas quantas vezes os casamentos, celebrados a partir dum suposto amor, se transformam em amargura e autênticas tragédias...
 Uma queixa às autoridades é a única possibilidade de acabar com uma situação de prepotência e crueldade, e partir para uma vida futura sem uma pessoa de carácter medíocre a poluir a atmosfera familiar, procurando um sentido livre do embuste de palavras e actos.
 Que todas as mulheres vítimas de abuso tenham a coragem de surgir nuas de preconceitos, e envoltas num manto de verdade que só pode começar dentro de cada uma delas. Para que possam maravilhar-se com a essência esquecida da qual são feitas e apreciar dentro e fora delas a dimensão de todas as coisas.



" Woman is the Nigger of the World", John Lennon




sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Ramos Rosa


"Vivi tanto que já não tenho outra noção de eternidade 
que não seja a duração da minha vida"
                                                               in "Em torno do Imponderável", 2012)


 António Vítor Ramos Rosa foi poeta e tradutor, ensaísta e talentoso desenhador. Nascido em Faro em 1924, faleceu em Setembro deste ano em Lisboa, aos 88 anos. Impossibilitado de terminar os estudos secundários por motivos de saúde, acabaria no entanto por dedicar-se tão exaustivamente à leitura e ao estudo que viria a ser recompensado pela sua auto-formação, ao conceber uma obra poética das mais extensas e ricas da poesia portuguesa contemporânea.
Durante alguns anos empregado de escritório, pertencem a essa fase os célebres poemas "Poema de um Funcionário Cansado" e "Boi de Paciência", sobre a monotonia do quotidiano.
Ensinou Português, Inglês e Francês, e traduziu autores estrangeiros para várias editoras. Homem "tímido e discreto" segundo Júlio Pomar, ambos opositores ao Salazarismo e presos pela PIDE, não  impediu contudo Ramos Rosa de fundar algumas revistas literárias e colaborar em muitas outras, ao longo dos anos.
 Escreve o primeiro livro em 1958, aos 34 anos, e a partir daí a sua produção literária crescerá a um ritmo impressionante. Uma poesia pouco rebuscada, de certa forma elementar, de vocabulário rarefeito e rigor construtivo com laivos de contaminação filosófica, procurando em singularidade a reconciliação com o mundo ao recriá-lo poeticamente, num tipo de elaboração que salienta erótica e sensualmente as formas da mulher ou da natureza.
 Um poeta que tentou superar a usual dicotomia facilitista entre a poesia 'social' e a poesia 'pura', defendendo que o trabalho incisivo sobre a linguagem, seria independente do empenhamento em questões sociais. Amante da liberdade e não alheado do confronto com o que a realidade tem de opressivo, a sua visão do mundo e das coisas adquirirá ao longo do tempo um lirismo projectado numa linearidade feita de suavidade e de luz.
Autor de cerca de cem obras, destacarei apenas "O Grito Claro"(1958), "Poesia, Liberdade Livre"(ensaio,1962), "O Ciclo do Cavalo"(1975), "A Poesia Moderna e a Interrogação do Real"(ensaio, 1979), "Volante Verde"(1986), "Nomes de Ninguém"(1997), "Deambulações Oblíquas"(2001), "Em Torno do Imponderável"(2012).
 Casado com a escritora Agripina Costa Marques, recebeu tantos prémios literários que aqui apenas destacarei o Prémio Pessoa em 1988.




NÃO POSSO ADIAR O AMOR

                                     Não posso adiar o amor para outro século
                                     não posso
                                     ainda que o grito sufoque na garganta
                                     ainda que o ódio estale e crepite e arda
                                     sob montanhas cinzentas
                                     e montanhas cinzentas

                                     Não posso adiar este abraço
                                     que é uma arma de dois gumes
                                     amor e ódio

                                     Não posso adiar
                                     ainda que a noite pese séculos sobre as costas
                                     e a aurora indecisa demore
                                     não posso adiar para outro século a minha vida
                                     nem o meu amor
                                     nem o meu grito de libertação

                                     Não posso adiar o coração

                                                                                in "O Grito Claro", (1958)




Uma animação de Bradley Bell baseada no poema " The  Laughing Heart" de Charles Bukowski, na voz de Tom Waits




                                         PARA UM AMIGO TENHO SEMPRE

                                   Para um amigo tenho sempre um relógio
                                   esquecido em qualquer fundo de algibeira.
                                   Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
                                   São restos de tabaco e de ternura rápida.
                                   É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
                                   É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

                                                               in "Viagem Através duma Nebulosa", 1960





sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Pirilampo


                                                         Ingrid Tusell



                                   Minha alma vagueia lá tão alto,
                                   suspensa e atrevidamente curiosa
                                   como se enleante perfume de jasmim
                                   só pudesse ser encontrado fora de mim.
                                   Meus braços alcançam já o infinito
                                   e não existe breve tristeza nesta hora,
                                   apenas etérea paz de silêncio e grito
                                   onde tudo o que não tarda se demora.
                                   Som de harpas descem do firmamento
                                   ao vale fundo que adormece de mansinho,
                                   todo o céu transborda encantamento
                                   de sal, mosto, frutos, água, doce vinho
                                   ao escutar a tua voz por um momento.
                                   Um sonho galopa ao longe no horizonte
                                   na margem de um regato fugidio
                                   e toda a luz se solta sem surpresa,
                                   de forma harmoniosa e sem aviso...
                                   Um pássaro atravessa espaços de beleza
                                   desvendando neles a cor do teu sorriso.
                                   Não sinto sede, sono, frio ou fome
                                   porque uma presença em mim habita
                                   feita de claridade e do teu nome,
                                   e me alimenta se a tua ausência me visita.
                                   Pelas escarpas se debruça quente a tarde
                                   e sombras contornam o caminho estreito...
                                   Um vibrante sol intenso ainda arde
                                   quando na noite um pirilampo 
                                   se incendeia no meu peito.




 Billie Holiday, também conhecida como Lady Day. "The Very Thought of You"


                                

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

O homem enlouqueceu!


                                                                                 Ganância de Dr Voyour



 O dinheiro e o desejo incontrolável de obtê-lo, sobe de tal forma à cabeça de certas pessoas que tudo o resto à volta fica turvo e ausente de sentido se não estiver envolto em notas, não das musicais , susceptíveis de harmonizar os dias e as noites, mas das outras, das que não raras vezes criam desarmonia a todos as horas.
 Há um certo tempo tomei conhecimento de uma história que não esqueci. E nada mais interessante que um relato verdadeiro para nos fazer reflectir sobre os desvarios irremediáveis de certa gente.
 Jorge Mário de Carvalho, empresário já reformado de uma empresa pertencente a um grupo criado pelo seu pai, comendador Manuel Carvalho, decide no ano 2000 oferecer, a título particular, 160 jips da marca Honda no valor de dois milhões e quinhentos mil euros aos seus funcionários da empresa "Alcatifas da Lousã", da qual era um dos sócios. Decisão talvez influenciada pelo exemplo do pai que tinha oferecido bicicletas aos seus empregados muitas décadas antes.
 Foi entregue em Janeiro desse ano um cheque no valor de quatrocentos e cinquenta mil euros para sinalizar o contracto de compra das viaturas. Solteiro e sem filhos, acabaria também por deixar grande parte dos seus bens à mulher com quem vivia; o que deve ter sido desde logo uma afronta a irmãos e um dos sobrinhos, contudo a oferta de um jip a cada um dos trabalhadores da fábrica, gente que nem deve ter onde cair morta, deve ter sido algo de absolutamente inadmissível para sanguessugas convictas de que o que aos seus familiares pertence, só a eles pertencerá um dia, não tendo qualquer valor a vontade expressa do dono do dinheiro.
 Enquanto ao longo da vida o empresário foi apoiando diversas instituições humanitárias, desportivas e culturais da terra, ainda vá que não vá, mas ter esta insana ideia peregrina quando já os herdeiros esperavam que a maior parte do bolo lhes caísse nas mãos, foi talvez ofensa demasiadamente profunda para poder ser tolerada. O homem só poderia ter perdido o juízo!...
 Dois irmãos e um sobrinho do benemérito instauraram à velocidade da luz, uma acção de inabilitação como forma de oposição ao negócio, invocando o pressuposto de que J. Carvalho teria de ser "defendido dele próprio" para evitar "actos ruinosos" que delapidariam o seu património, que padeceria de doença psíquica há mais de vinte e cinco anos, o que retiraria legitimidade às suas decisões por ser incapaz de gerir os seus bens. Sofreria de doença bipolar, como se tal doença fosse sinónimo de demência.
 Altruísmo parece ser enfermidade para insaciáveis abutres. Um homem apontado como incapaz apenas porque decide reconhecer que toda a sua riqueza tem na sua origem a dedicação permanente dos seus operários, que dessa riqueza não se tornou escravo, e que por isso os quer recompensar.... Mostrar nobreza de carácter é inaceitável para homens com espírito de chacal. Como se alguém não pudesse fazer do seu dinheiro o que lhe apetecer.
 O processo só chegaria a julgamento em 2010, cinco anos após a morte do empresário aos 70 anos, impossibilitado de cumprir a promessa, tendo sido adiado para 2011, num caso bem demonstrativo da lentidão da nossa Justiça. O tribunal declararia que J. Carvalho era pessoa com capacidade para decidir sobre o seu património, e que suas deliberações deveriam ser cumpridas.
 Para alguns dos seus familiares talvez tivesse sido de louvar que a fábrica tivesse sido levada à falência arrastando para a miséria os que lá trabalhavam e daí lavar as mãos como Pilatos...
 De salientar em todo este processo a oposição de um dos sobrinhos, António Carvalho Pinheiro, testemunha abonatória do tio, afirmando sempre que este "sabia o que fazia".
Jorge Carvalho dá nome a uma das ruas de um bairro social ocupado maioritariamente por funcionários seus, curiosamente intitulado "Os Carvalhos".
 Um senhor talvez crente de que a riqueza só se justifica quando partilhada por quem a criou sem exigi-la, e por isso merece dela uma fatia.
 Fonte: Jornal de Notícias e SIC Notícias



Como fico sempre atónita com situações destas, escolhi hoje não uma curta, mas uma curtíssima, de cariz surreal intitulada "Buraco Negro", dirigida por Phil Sansom e Olly Williams.