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sexta-feira, 4 de abril de 2014

A Sacola



"Vivo sempre no presente. O futuro não o conheço. O passado já não o tenho." F. Pessoa





                                        Sinto coisas que aconteceram ontem 
                                        como se tivessem acontecido hoje.
                                        Mas o tempo intolerante foge.
                                        Passa por nós e pelas coisas
                                        como invisível cavaleiro andante.
                                        Acena-nos com o amanhã e o durante,
                                        esquiva-se a ser guardado numa sacola.
                                        Esconde-se enquanto passa insinuante
                                        presente passado. Pesada e lenta passarola.
                                        Na sacola guardamos o fumo do que foi,
                                        o que alegra ou entristece, e o que dói.
                                        A sacola é tudo o que dele resta,
                                        talvez a dor, a alegria, um dia de festa.
                                        O tempo. Petulante ladrão das horas,
                                        da pressa. Da ingenuidade juvenil.
                                        De momentos perdidos nas demoras
                                        guardando na sacola o teu perfil.





Avec le Temps, canção emblemática de Léo Ferré



sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Esvoaçar


                                                      foto de João Palmela


                        Uma rola rola, rebola no restolho.
                        Árvores estáticas sobrevoadas por pardais
                        e pombos. No calor tórrido, ouço uma cotovia
                        cruzar-se com negro melro nos azinhais.
                        Nem sombra de vivalma de noite ou de dia,
                         apenas uma agreste e estranha calma
                         que ora se mascara de paz, ora de agonia
                         de antigos sobreiros que no calor sangram
                         inconscientemente sua forte e leve cortiça.
                        Vinda de longe surge no ar uma carriça,
                         um tordo, uma felosa surgem no caminho
                         de terra dormente, não de sono ou de preguiça.
                         O picanço, o pintassilgo e o estorninho
                          aconchegam com enlevo as crias no ninho.
                         Maçãs vermelhas caem de maduras no pomar,
                          e cigarras soltam do ventre, ardente canto,
                          convite estridente para a fêmea. Surge a voar
                          um rouxinol, recorta no espaço, sem espanto
                          bailado breve, divina melodia. Rasa o chão
                          enquanto nos ares se anuncia um gavião.
                         Há no silêncio das casas corpos que se abraçam
                          em crepitante colchão de secas folhas de milho,
                          raros fios de água no regato seco se entrelaçam
                          e logo se evaporam ao sol, como rastilho.
                         Sob o olival milenar descanso. Sou feliz.
                         Rasgam os campos uma águia e um açor,
                          atemorizam a galinha-de-água e a perdiz.
                         Mais nada existe que o sossego deste calor
                         de guarda-rios, abetardas e cegonhas.
                         Uma calhandra, um milhafre e um chapim
                          invadem o meu sonho, trazem com eles
                          bufos e garças, sentam-se perto de mim.
                          Nesta aparência de sufocantes horas mortas,
                           sapos coaxarão ao anoitecer perto das hortas
                           e o tempo que finge passar tão devagar
                           escreverá a direito por linhas tortas.
                          Liberto os olhos na distância, vejo lavrar
                           no horizonte, o voo daquela pega-azul...
                          As papoilas morreram...Evito dizer adeus.
                          Levo comigo a graciosidade das aves do sul
                           e a beleza eterna da cor de todos os céus.



 Como não encontrei bons vídeos com aves do Alentejo, decidi mostrar um vídeo promocional da região, com o sugestivo título : "Alentejo, Tempo para ser Feliz". Divirtam-se!






segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Stefan Zweig


"A vida não dá coisa alguma sem retribuição e sobre cada coisa concedida pelo destino, há secretamente um preço, que cedo ou tarde deverá ser pago"


 Stefan Zweig, escritor austríaco de espírito universalista (Viena 1881-Petrópolis 1942). Exilado em Inglaterra devido à sua irredutível oposição ao nacional socialismo, viria a fixar-se no Brasil, onde, amargurado por ver a Europa espezinhada pela barbárie nazi, viria a suicidar-se juntamente com a mulher. 
 Cultor de poesia, ensaio, teatro, romance e biografia (de destacar a sua biografia de Fernão de Magalhães, Balzac ou Dostoievski, entre outras...) foi também tradutor de literatura inglesa e francesa. Profundo conhecedor da civilização europeia, escreveu obras carregadas de limpidez, sem grandes arrebatamentos, e impregnadas de tolerância e calor humano.
 Muito escreveu S. Zweig, mas destacarei apenas "Amok. Três histórias de Paixão." (1922), "Ansiedade" (1925), "A Confusão de Emoções. Três novelas": ( "Vinte e Quatro Horas da Vida de uma Mulher", "O Naufrágio de um Coração" e "Sentimentos de Confusão") 1927. Ler mais...
 Escolhi para homenagear este autor, um excerto de "Vinte e Quatro Horas na Vida de uma Mulher", livro que li de um fôlego na minha adolescência. Com acção na Riviera Francesa, o que me fascinou na altura foi a simplicidade de escrita, a abordagem ao vício do jogo, e a demonstração de como em poucas horas, a vida de alguém pode mudar de forma tão inesperada.
 Vinte e quatro horas podem significar uma sequência monótona de rotinas, uma série de acontecimentos imprevistos e sem significado, mas podem também conter em si uma avalanche de acasos susceptíveis de modificar para sempre a forma como se encara a própria vida.
 Assim, um dia pode ser tudo e nada. Pode ser um tempo oco, um mar de águas paradas, ou um tempo  pleno de intensidade psicológica; a tempestade num íntimo adormecido.


                                 VINTE E QUATRO HORAS NA VIDA DE UMA MULHER 

 "(....) Devo frisar bem que, quando segui precipitadamente na rua esse jogador desesperado, não estava de forma alguma, enamorada dele; não pensava nele como uma mulher pode pensar num homem; pois a verdade é que eu, então mulher de mais de quarenta anos, nunca mais olhara para nenhum homem depois da morte do meu marido (....)Também é verdade que por outro lado, vai ser-me difícil qualificar com precisão o sentimento que naquele instante, me arrastou assim, irresistivelmente...(....)No meio de tal incerteza, era a primeira a sentir a loucura, o ridículo da situação.
 Separada durante vinte anos, como eu tinha estado, de todos os gozos diabólicos da existência, jamais poderia compreender a maneira grandiosa e fantástica, como às vezes, a natureza concentra nalguns rápidos bafejos, tudo o que existe nela de calor e de gelo, de vida e de morte, de deslumbramento e de desespero. E esta noite foi de tal forma  cheia de lutas e de palavras, de paixão , de cólera e de raiva, de lágrimas e de súplicas, que me pareceu durar mil anos, e que nós - dois  seres humanos que oscilavam enlaçados no fundo dum abismo: um trazendo em si a fúria da morte, outro sem nenhum pressentimento oculto - saímos dela completamente transformados, diferentes, inteiramente mudados, com outro espírito e outra sensibilidade. (....)
 Notei apenas que o jogo o tinha enervado, que o insensato tudo esquecera: o seu juramento, o seu encontro, o universo e a minha existência.(....)
 Haviam decorrido precisamente vinte e quatro horas depois daquele maldito encontro: vinte e quatro horas absolutamente cheias  pela tempestade ululante dos sentimentos mais estranhos que tinham ferido a minha alma para sempre......partir! partir! partir!....
 Partir para longe daquela terra maldita, para longe de mim própria, voltar à minha vida antiga, à minha verdadeira vida. (....) Evitei todas as perguntas e pedi apenas um banho...(....). Em seguida fui para o meu quarto e dormi  durante doze a catorze horas um sono de animal ou de pedra, como nunca dormi antes nem depois....A minha família inquietou-se por mim como por uma doente. Mas a sua ternura só conseguia fazer-me mal; tinha vergonha, sentia-me acanhada diante do respeito e dos cuidados que me dispensavam......que os havia traído a todos, que os tinha esquecido, quase abandonado, sob o império de uma paixão louca e insensata.(....)
 Apesar de tudo , o tempo tem um grande poder,(....). Pouco a pouco, refiz-me do choque... (...) 
 Já não existia para mim outra testemunha além da minha própria recordação. Depois fiquei mais tranquila. Envelhecer não é , no fundo, senão perder o medo do passado. (...)
 Quando o vi defender Madame Henriette... fiquei-lhe reconhecida porque , pela primeira vez, me via , por assim dizer justificada...e que amanhã, me seria possível entrar de novo na sala onde encontrei o meu destino, sem sentir ódio por ele nem por mim. (....)

 Olhei sem querer, para o seu rosto e achei singularmente enternecedor o aspecto daquela mulher idosa, que se encontrava diante de mim, amável e ao mesmo tempo acanhada.
 Seria o reflexo duma extinta paixão? Seria confusão, o que de repente lhe coloriu dum vermelho inquieto as faces até à raiz dos seus cabelos brancos? O certo é que estava ali como uma menina, pudicamente perturbada pela recordação, mas a quem a confissão dera a felicidade. Acanhado, sem saber porquê, experimentava um vivo desejo de lhe testemunhar por uma palavra a minha consideração, mas sentia a garganta apertada e nada mais pude fazer do que inclinar-me profundamente e beijar, com respeito, a sua mão enrugada, que tremia ligeiramente como a folhagem de Outono." 



 Espero que apreciem esta "Insensatez" com o sax do talentoso Stan Getz, e imagens do filme "La Notte" de  Michelangelo Antonioni, com Jeanne Moreau, Marcello Mastroiani e Monica Vitti. Adoro cinema italiano!     


                 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Tempo




                                                                           TEMPO                 

                                                           O Tempo é a pior trapaça;
                                                           Corre, corre, corre
                                                           Mas nunca passa.
                                                           Se passasse, eu juro que faria
                                                           Um castelo alto
                                                           que jamais acabaria.
                                                           Depois, depois 
                                                           de muitos sóis,
                                                           deitava ao mar
                                                           um navio para Java.
                                                           Dormia, dormia
                                                           e não mais acordava.