Delawer Omar
Dentro de mim, no mais fundo
dos fundos de mim, eu sei que não existes.
E que existem amores torcidos e retorcidos na dureza
do aço, e amores apagados e tristes
sem rosas nos dedos, com pesadelos no corpo
e corações frios, trapos gastos e desfeitos
como as minhas mãos toscas e baças.
Com elas construí pontes e praças
onde se destroem os lamentos, mas perdura
a mágoa anquilosante das palavras
ditas, e das palavras deixadas por dizer
na nefasta bebedeira aquém da dor e do prazer.
Tudo me afasta da radiosa aurora das coisas,
dos sagrados lugares onde a bruma desvenda
todos os sentidos, e as palavras crescem soltas na senda
de um mundo vivo, e trotam como cavalos súbitos
quando o sol se prepara para cumprir o dia.
E é doce a aragem que se desprende da tua respiração
suspensa, sobre montes, vales e desfiladeiros
aos quais nunca ninguém quis ou ousou chegar.
Onde se encontram na erva, os poemas derradeiros.
Mas as minhas palavras são vulgares e os versos estrangeiros
perante a altivez de rostos lívidos e fechados
que desconhecem a sede que nasce do fogo na garganta
e a crua beleza do vento a esculpir rosas no deserto.
Anoiteço sentada num jardim de gárgulas abraçadas
às heras, enquanto a terra dormente acolhe dos restos
da tarde, a sua serenidade e o seu torpor.
Ilumino o olhar na limpidez da água quieta no regador
e absorvo um oceano indestrutível numa gota.
Escuto o antigo ocaso da tua calada partida,
furtiva como estas borboletas mudas sobre as azaléias
robustas e as camélias que ainda não floriram.
Acordo do meu sonho translúcido, liso e prolongado
e entrego o sono às aves cristalinas que partiram.
Gone, Melody Gardot
Dentro de mim, no mais fundo
dos fundos de mim, eu sei que não existes.
E que existem amores torcidos e retorcidos na dureza
do aço, e amores apagados e tristes
sem rosas nos dedos, com pesadelos no corpo
e corações frios, trapos gastos e desfeitos
como as minhas mãos toscas e baças.
Com elas construí pontes e praças
onde se destroem os lamentos, mas perdura
a mágoa anquilosante das palavras
ditas, e das palavras deixadas por dizer
na nefasta bebedeira aquém da dor e do prazer.
Tudo me afasta da radiosa aurora das coisas,
dos sagrados lugares onde a bruma desvenda
todos os sentidos, e as palavras crescem soltas na senda
de um mundo vivo, e trotam como cavalos súbitos
quando o sol se prepara para cumprir o dia.
E é doce a aragem que se desprende da tua respiração
suspensa, sobre montes, vales e desfiladeiros
aos quais nunca ninguém quis ou ousou chegar.
Onde se encontram na erva, os poemas derradeiros.
Mas as minhas palavras são vulgares e os versos estrangeiros
perante a altivez de rostos lívidos e fechados
que desconhecem a sede que nasce do fogo na garganta
e a crua beleza do vento a esculpir rosas no deserto.
Anoiteço sentada num jardim de gárgulas abraçadas
às heras, enquanto a terra dormente acolhe dos restos
da tarde, a sua serenidade e o seu torpor.
Ilumino o olhar na limpidez da água quieta no regador
e absorvo um oceano indestrutível numa gota.
Escuto o antigo ocaso da tua calada partida,
furtiva como estas borboletas mudas sobre as azaléias
robustas e as camélias que ainda não floriram.
Acordo do meu sonho translúcido, liso e prolongado
e entrego o sono às aves cristalinas que partiram.
Gone, Melody Gardot
