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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Deserto


"O coração ingrato assemelha-se ao deserto que sorve com avidez a água do céu e não produz coisa alguma" (Musharrif Od-Dîn Sa'adi)


I

                           Em horizonte de camelos e miragens,
                           de beduínos trajados de incerteza,
                           o absoluto não será a ideia de Hegel,
                           mas um retalho de quente angústia
                           sem eco de transparência ou de beleza.
                           Um sentir que as ideias não passam disso.
                           Por vezes uma incrível alucinação
                           a que a mais leve brisa dá sumiço.
                           Ideia erguida ao sol e desfeita nas areias,
                           delirando secamente em desidratação,
                           em síncope cercada por centopeias.
                           A força que nos anima é um jacto de poesia,
                           um pouco do espírito da ideia hegeliana...
                           O desejo reencontrado a cada dia
                           no sentimento telúrico de uma totalidade
                           em intransponível paisagem serrana,
                           rodando sobre eixo fixo que emana
                           em ousadia, a tua e a minha liberdade,
                           reduto inviolável da consciência humana.
                           Em espaço inóspito dançaremos.
                           Para longe caminharemos.
                           Chegaremos ao mar?...

II

                           Parte ao raiar d'aurora, na frescura da manhã.
                           Parte mansamente e sem demora,
                           na levitação incandescente de um instante.
                           Agarra o sol, toma a lua como barco,
                           pinta de prata os teus leves dedos,
                           toma o rumo dourado do poente.
                           Na chegada ao teu destino
                           arranja um corpo bem quente,
                           deita-te nele suavemente
                           como um pequeno menino.
                           Se alguém te incomodar
                           manda-me logo chamar
                           no outono das horas que domino.


III

                           O Inverno voraz chegou tão cedo...
                           Trovejam agora sinais de desalento.
                           A noite depressa chegou.Sinto medo.
                           É de cinza a luz nos olhos da serpente
                           enroscada sem piedade no meu ventre.
                           Sinto em mim correr em pensamento
                           um escorpião veloz, primavera ausente,
                           desvario perdido em corpo sonolento.
                           Jovem ideia jaz no fim que se pressente.
                           Deserto... Não alcançaremos o mar.
                           A lua retomará decerto o seu lugar,
                           incorporar-se-á na eterna coerência
                           gelada do como as coisas sempre são.
                           Sem réstia de brilho ou efervescência
                           ao relento empurrada pelo vento Suão,
                           envergonhada pela própria inocência.
                           Distante ficou incerto oásis verdejante.
                           Apenas nuvens de pó, dunas sem água...
                           Mas só no encontro a sós contigo
                           qual rosa-do-deserto em trajecto errante
                           de areias movediças até ao umbigo,
                           me encontrei comigo a cada instante.



Escolhi para este poema,"El desierto" de Lhasa De Sela. Esta não é dela a minha canção favorita, mas é a que melhor se adequa ao meu poema. Uma cantora infelizmente desaparecida de forma prematura, que me foi apresentada por um amante da música. Obrigada, S.
                           

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Água



"Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita"
Carlos Drummond de Andrade



 Da água diz-se que é doce. No entanto pode remeter-nos para experiências amargas. Mais do que elemento físico e químico essencial, é também metáfora, representação simbólica e imagem de circunstâncias e estados de alma.
 Dela dependemos para beber, lavar, preparar alimentos, até para respirar...Lava tudo, diz-se, embora nem a seco as más acções se consigam limpar, principalmente as de carácter mudo, já que torrente de água que não se anuncia pode ter efeitos devastadores, tal como águas estagnadas não serão também dignas de confiança. Engrossadas por lama poderão funcionar como autênticos atoleiros.
 Sabemos que "águas passadas não movem moinhos"* e que "mentir é deitar água em saco roto"*, lançando no esgoto algo de tão valioso como a verdade que deveria caminhar  à tona de água e não sofrer ondulações ao sabor das correntes. Pode ser bálsamo, ou nela eventualmente nos afogarmos, embora como estamos podres de saber mais gente se afogou em vinho do que em água, porque "dar de beber à dor" não tem a ver com falta de água.
 Podemos encontrá-la em rios e lagos, albufeiras, poços, cascatas, mas também em vapor que se ausenta em nuvem de sede que poderemos ter que procurar um dia, penosamente, num qualquer fim de mundo, em lençóis subterrâneos escondida, ou em recôndito oásis difícil de alcançar. Solidificada em glaciares, controlada por diques, canais, ou em caudal livre, serpenteando entre vales como seiva da natureza. Nuvens negras oferecerão gotas que encherão leitos e bacias, originando terrenos férteis ao seu redor, fazendo germinar sementes adormecidas. Tal  como de situações adversas nos pode surgir a luz essencial como água bruta, para plantar graciosamente jactos de festa.
 Pouco inundo de beleza à minha volta, talvez porque gota libertada por mim nesta imensidão de ideais e necessidades acabe por sentir-se impotente. Contudo um conjunto de gotas enlaçadas poderá ajudar a fazer flutuar e dar rumo a este oceano de veleiros desnorteados e jangadas à deriva; possibilidade de variadas rotas, esperança de travessias dum lado ao outro do mundo.
 Em água lisa e calma, espelho reflector do teu rosto e do meu, mergulho fundo e refresco-me. Em caso de turbulência fico a observar o movimento das ondas a bater no pontão junto ao cais; entrar ousadamente em mar revolto quando nem mestria se tem para estar em terra firme pode tomar contornos de balde de água fria...
 Se algo for por água abaixo, evocar toda a nossa paciência, e nunca tentar desviar a corrente do seu curso natural; vaga a espatifar-se nas rochas, catarata em potência ou mero sumiço a escoar-se rapidamente em qualquer ralo. Não sendo peixe nem sereia, as profundezas podem ser de tranquilidade ou de tumulto, quase sempre de escuridão e perigo. Pior que achar-se peixe fora de água, é sentir que a água era turva, que a enxurrada de surpresa não permitiu  a retirada atempada, e que as poças de lama fria que ficaram, nos continuam a suscitar um mar de lágrimas transparentes e geladas. Sentir que a paz nos foi roubada e que nenhuma bonança ou arco-íris resplandecente será jamais capaz de aquietar sedes de água salgada. Triste, no entanto, a indiferença, até satisfação, com que alguns observam os que se debatem na água, esperando sem qualquer tipo de embaraço, que o ar e o pé lhes falte.
 Mesmo que as linhas de água que tenhamos gerado não tenham surgido de grandes nascentes, correrão inevitavelmente entre penhascos de pedras, às vezes tão solitariamente que ninguém delas dará conta. Mas quem pressente a subida das marés e a humidade dos corpos, tem para si que 
a natureza nos presenteia com a água, mas que depende de nós a forma como dela enchemos a nossa vida, porque se "a ciência desenha a onda; a poesia enche-a de água"(T.de Pascoaes).
 Gotas de granizo caíram como pérolas dos beirais, pingando desamparadas na terra iluminada pela manhã que acaba de nascer. Imagino ao longe uma clepsidra, e o tempo que me resta, a esvair-se apressadamente na distância. Passos ligeiros e apressados fazem, bem perto de mim, o seu  percurso sequioso e incerto a caminho das fontes.



Escolhi para este texto "Little Water Song", composição de Nick Cave, aqui interpretada por Ute Lemper.Esta canção integra uma das cenas do filme de John Turturro "Romance & Cigarettes" que tem no elenco um actor que gosto: James Gandolfini.



*Provérbios


domingo, 30 de dezembro de 2012

Onda



ONDA

Deixa  que as gotas frescas cresçam
E perfumem o Sol.
Deixa todo o rio que em ti vive
Mergulhe no meu ventre e se esqueça do mar.
Deixa que o oceano azul, vivo e molhado
Se transforme e grite em mim onda na rebentação.
Deixa, em cada despertar, a água que me arrasta
Fazer-te brilhar.


 Estive indecisa entre "Ich hab dich lieb", "Halt mich", mas decidi-me por "Ich will mehr", por ser uma canção mais enérgica. É do que todos precisamos; uma injecção de energia para o próximo ano quase a bater à porta...E pelas ondas.
  
Herbert Grönemeyer, o meu cantor alemão favorito.


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Passado


PASSADO



                                                   Nos montes deixei a tua imagem
                                                   gravada na pedra do passado.
                                                   Parti em longa viagem, à espera  da janela
                                                   do significado.Cada significante surgia
                                                   no cume da palavra, em cada dia
                                                   na tua voz de linho. Tanta a saudade 
                                                   do que não fiz, tantas as pedras no caminho.
                                                    
                                                    Na coragem da ternura sopra o vento
                                                    que faz desabrochar um rio
                                                    no meu cabelo...Vem despentear-me,
                                                    vem dizer que sim.
                                                    Vem deitar-te enfim, como água
                                                    sobre mim.


        


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Fernando Pessoa

                                                              

Um dos maiores poetas de sempre ( Lisboa 1988- ibid.1935). Funda em 1914, com outros intelectuais, a revista "Orfeu", e, em 1924 inicia e dirige a revista " Atena" de curta duração. Viveu uma existência apagada, num círculo restrito e fechado ao amor, deixando inédita quase a totalidade da sua obra literária. Concebeu ao todo 17 heterónimos, dos quais se destacam Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis.
Um excerto de " Chuva Oblíqua", um poema simplesmente grandioso.


CHUVA OBLÍQUA
I

Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas
Uma a uma dentro...

Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar é porto transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme
Que lá estivesse desdobrada, 
Esta paisagem toda, renque de árvores,
estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...





Soeiro Pereira Gomes



SOEIRO PEREIRA GOMES

 S. Pereira Gomes ( Baião 1909-Lisboa 1949) foi um dos iniciadores da ficção neo-realista em Portugal. Casado com a compositora Manuela Câncio Reis, escreveu crónicas n' "O Diabo", e publicou "Esteiros" em 1941. "Engrenagem", Refúgio Perdido" e "Contos Vermelhos" foram publicados postumamente.
 Empregado na Fábrica de Cimentos Tejo, em Alhandra, dinamizou socialmente a vila, organizando conferências sobre temas culturais e desportivos, dirigindo cursos de ginástica, colaborando na montagem de bibliotecas particulares, tendo contribuído para a construção duma piscina popular onde trabalhou como operário.
 Um excerto de "Esteiros", romance sobre os "filhos dos homens que nunca foram meninos", narrativa sobre meninos miseráveis dos esteiros do Tejo. Um história comovente.


"Morava no fim da vila, à beira dos esteiros. Da casa que o pai fizera, toda madeira e lata, viam-se os touros pastar na outra margem e as rotas dos barcos. Havia tufos de junco nos esteiros e lixo abandonado. Mas Gineto sonhava conquistar todas as ruas. Quando pequeno, ainda convertera os esteiros em florestas e rebuscara no lixo brinquedos preciosos. Cedo, porém, se aborreceu daquele recanto monótono, só água e planície. A floresta dava-lhe pela cinta - era junco - e o lixo era lixo, apenas. Começaram então as fugas para a rua. A mãe bem lhe dizia ao fechar a porta:
- Toma-me conta do pequeno! - Mas ele deixava o irmão a gatinhar na lama, e ia alvoroçar os garotos seus iguais. Ainda não era o Gineto ladrão. O nome veio-lhe depois com os assaltos aos pomares, florestas mais belas do que os esteiros. Mas já era mau e temido. Amigos tinha-os às vezes nos companheiros que precisavam da sua mão certeira para matar galinhas à solta ou colher frutos em pomares recatados. Fora disso, era mesmo um Gineto escorraçado.
Desta vez, porém, foi dominado pela Feira. Queria desforrar-se nos cinco dias festivos, sem os berros do mestre e as pancadas do pai. Iria ver os acrobatas do circo; daria tiros ao canhão e passeios nos cavalinhos. E até havia de estancar o ardor do sangue, dentro das barracas de reposteiros vistosos, onde mulheres pintadas vendiam refrescos e beijos. Seria senhor da Feira e do seu destino; livre, como um homem.
Mas era preciso dinheiro, e então ficara no telhal. E como um homem, vendeu os braços para que o dinheiro agora tilintasse no bolso das calças. Gineto sentia-se tão feliz que não se lembrou das lágrimas que a mãe havia de chorar por ele e pela féria da semana. Subiu o beco do Mirante a assobiar. As quintas estavam ali em frente a retalhar os vales e a seduzir olhares. O sol, ainda alto, tornava mais branco o branco dos muros e revivescia com reflexos doirados as folhas estioladas das videiras. Mas Gineto não receava a luz da tarde. Tinha a certeza que os caseiros não estariam de atalaia, entre os pomares, porque a melhor fruta já fora apanhada. O moço do telhal sabia de colheitas.
Todavia, chegado à estrada, hesitou. Pela primeira vez as suas quintas - suas, como ele dizia - não o atraíram. A Feira afagava-lhe o pensamento; o dinheiro tilintava no bolso... Era livre, sem a perseguição dos caseiros e cães de guarda... Não iria às uvas.
E seguiu estrada fora, antegozando a Feira. Festeiro de pés sem botas e calças com fundilhos, porque não tinha, como Malesso e outros, um fato de feira para estrear." (...)