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quarta-feira, 1 de maio de 2013

Sombra



SOMBRA

Nos portais dos velhos becos
Já não paira o sol de outrora.
A sombra desliza entre janelas,
Desnuda nas paredes imagens
De barcos, rectas e curvas de poemas. 
 Paisagens adormecidas, romances
Estreitos de arrebatadores dilemas,
Recordações de viagens num só chão
Sem halo de beleza, pecado,
 ou nítida imperfeição.
Foi aí que te conheci. Sentada
Num banco do tempo 
À tua espera.





Não é, nem de perto nem de longe, um dos meus temas preferidos de Ana Moura, 
 mas como tem a ver com o poema, aqui está " O que foi que aconteceu" 





segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

As Cores



                                    Tela de Nancy Wilde


                     

Sei como colorir-me.As cores da liberdade apontam-me o caminho.



AS CORES

 Todos sabemos que cores não são mais que sensações trazidas aos nossos olhos, pela luz reflectida pelos corpos que nos rodeiam. Que o branco representa as cores do espectro, e que o preto é a inexistência de cor, ou a ausência de luz.
 Não pode pintar-se sem cor, tal como não se pode escrever sem palavras na Língua que nos pertence, ou que abracemos. E toda a Língua tem cor própria. Reverenciemos por isso todas as cores que podem traduzir audácia, revolta, tranquilidade ou tormenta, com ou sem respingos de ternura ou agressividade, ao contemplar os vários matizes de auroras e ocasos, as borboletas, as aves garridas, árvores e rios, céu e terra, o fogo... Desvendemos todas as paisagens agrestes, agitadas ou calmas, todas as cascatas, ou qualquer deserto em todas as suas tonalidades. De contornos leves ou pesados, de formas concretas ou abstractas, difusas ou nítidas, na harmonia ou na desordem, em contrastes de luz e de sombra, nos quais todos os tons se tornam possíveis. Em transparência ou opacidade, em atmosfera de calor ou de frio, ou num caleidoscópio de simbologias que nos devolvem serenidade, ou nos pincelam os mais primitivos sentimentos de nostalgia ou inquietude.
 A minha preferência por paredes brancas não existe por acaso; exijo que o sol me invada a casa de luz, que me evite a penumbra. Aprecio a escuridão apenas se me envolvo nos braços de Morfeu, ou se o meu cansaço é tão profundo que me impeça manter os olhos abertos.
 Para vestir gosto de branco, azul, preto, púrpura, e fujo do amarelo, do verde-alface, ou de qualquer outra cor gritante ou com brilhos, como o diabo foge da cruz. Mas sei que podemos, através da sua junção ou afastamento, encontrar beleza em todas as cores; numa paisagem de neve, num campo apenas verdejante, ou pintado de alfazemas, ou papoilas, num pomar de cerejas, até nas pedras... A escolha de uma cor reside, ocasionalmente, não apenas em questões de preferência estética, mas também em questões de  funcionalidade ou simbolismo, dependendo nesse caso do nosso estado de espírito, ou de certos acontecimentos. Embora a tradição tenha tendência a alterar-se, o branco continua ainda a ser o preferido das noivas, como signo de pureza e paz, assim como o preto é geralmente associado ao luto. Tal como o vermelho, conotado desde sempre com paixão, desejo, sangue...
 Sejamos inteiros em todas as nossas cores e tons, em cada momento que passa.Em todas as nossas atitudes. Aceitemos os céus enevoados, as luminosidades etéreas, as tonalidades rodeadas de negro.
 Apreciemos também qualquer pessoa, independentemente da sua cor e forma; uma mera expressão da nossa claridade enquanto gente.












Como música, a " Aquarela" de Toquinho. A mestria da simplicidade.








quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Fernando Pessoa

                                                              

Um dos maiores poetas de sempre ( Lisboa 1988- ibid.1935). Funda em 1914, com outros intelectuais, a revista "Orfeu", e, em 1924 inicia e dirige a revista " Atena" de curta duração. Viveu uma existência apagada, num círculo restrito e fechado ao amor, deixando inédita quase a totalidade da sua obra literária. Concebeu ao todo 17 heterónimos, dos quais se destacam Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis.
Um excerto de " Chuva Oblíqua", um poema simplesmente grandioso.


CHUVA OBLÍQUA
I

Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas
Uma a uma dentro...

Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar é porto transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme
Que lá estivesse desdobrada, 
Esta paisagem toda, renque de árvores,
estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...