"Criança é esse ser infeliz que os pais põem para dormir quando ainda está cheio de animação, e arrancam da cama quando ainda está estremunhado de sono" Millôr Fernandes
A minha mãe
desperta-me cedinho.
Prepara-me para a escola,
serve-me leite e carinho.
Aprendo letras e versos,
a escrever e a contar,
salto ao eixo, jogo à bola.
Se me empurram e se caio
eu finjo não me aleijar.
A minha mãe
diz que tenho que estudar,
e de tanto fingir que estudo
acabo por tanto aprender...
Diz-me que sou bonito
e nisso eu até acredito
porque sou lindo a valer!
A minha mãe
é serena, bela e doce
e trata-me como se eu fosse
o seu pequenino rei.
Ah como eu sei
como ela gosta de mim!
Mas quando me avista da janela
e me chama p'ra jantar
finjo que não dou por ela
e continuo a brincar.
Depois mais tarde ao serão,
minha mãe conta uma história
e embala uma canção,
derrama muita ternura
no berço do meu irmão.
E na hora de dormir
cobre-me de tantos beijos,
aconchega-me o lençol...
Eu finjo que me aborreço,
e só ao adormecer
eu desisto de fingir
e durmo até o sol nascer.
Canção de Embalar, Zeca Afonso
