sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Alexandre O'Neill


"Há mar e mar, há ir e voltar" *

 Alexandre Manuel Vahía de Castro O'Neill de Bulhões nasceu em Lisboa em 1924 e faleceu na mesma cidade em 1986.
 Co-fundador, com M. Cesariny e Augusto França, entre outros, do Grupo Surrealista de Lisboa em finais dos anos 40, movimento que se insurgiu contra o Neo-Realismo e contra o regime do Estado Novo. Sem militância política antes ou depois do 25 de Abril, a não ser uma breve passagem pelo MUD juvenil, foi vigiado pela PIDE e chegou a estar preso em Caxias em 1953, por ter ido esperar Maria Lamas à chegada do Congresso Mundial da Paz, em Viena.
Rapidamente abandona esse grupo, embora as tendências surrealistas tivessem ficado para sempre, numa obra que vai passando de um certo entusiasmo poético a uma certa decepção, que acaba por reflectir-se numa diversidade de formas e conteúdos carregados ora de ironia e sarcasmo, ora de humor negro, numa conjugação entre vanguardismo feito de surreal e de concreto, e outras influências literárias. Recusando a imagem de um proletariado heróico típico do Neo-Realismo, a sua escrita denuncia a hipocrisia e dor do quotidiano, alternando uma visão absurda com uma visão humorística da realidade, como forma possível de libertação. Temas como o amor, o tempo, a morte, o medo, ou o sonho, são nele tratados sem grandes lirismos ou dramatismos.
 Não conseguindo viver da sua produção artística, que incluía para além de poesia e prosa, discos de poesia, traduções (Brecht, Maiakowski ou Dostoievski), antologias de outros autores, guiões para cinema, televisão e peças de teatro, dedicou-se à Publicidade.
 Obras: "A Ampola Miraculosa"(1948), "Tempo de Fantasmas"(1951), "No Reino da Dinamarca"(1958), "Abandono Vigiado"(1960), "Poemas com Endereço"(1962), "Feira Cabisbaixa"(1965), "De Ombro na Ombreira"(1969), "As Andorinhas não têm Restaurante"(1970), "Entre a Cortina e a Vidraça"(1972), "A Saca de Orelhas"(1979),"Uma Coisa em Forma de Assim","Poesias Completas,1951-1981"(1981), "Poesias Completas 1951-1983"(1983), e "O Princípio de Utopia, O Princípio de Realidade seguidos de Ana Brites, Balada tão ao Gosto Popular Português & Vários Outros Poemas"(1986).
 De salientar duas antologias editadas pela ed. Assírio & Alvim; "Poesias Completas"com inclusão de dispersos(2000) e "Anos 70, Poemas Dispersos"(2005).
  Estátua de A. O'Neill no Parque dos Poetas, Oeiras


HÁ PALAVRAS QUE NOS BEIJAM

                                             Há palavras que nos beijam
                                             Como se tivessem boca.
                                             Palavras de amor, de esperança,
                                             De imenso amor, de esperança louca.

                                             Palavras nuas que beijas
                                             Quando a noite perde o rosto;
                                             Palavras que se recusam
                                             Aos muros do teu desgosto.

                                             De repente coloridas
                                             Entre palavras sem cor,
                                             Esperadas inesperadas
                                             Como a poesia ou o amor.

                                              (O nome de quem se ama
                                               Letra a letra revelado
                                               No mármore distraído
                                               No papel abandonado)

                                              Palavras que nos transportam
                                              Aonde a noite é mais forte,
                                              Ao silêncio dos amantes
                                              Abraçados contra a morte.

                                                                                     in No Reino da Dinamarca(1958)


O poema que transcrevi em cima é cantado por Cristina Branco. Adriana Calcanhotto também canta a Formiga Bossa Nova, a partir do poema de O'Neill "Velha Fábula em Bossa Nova", mas é muito melhor o poema "Gaivota" feito por A. O'Neill especialmente para a voz de Amália.


 O meu poema preferido é, no entanto Um Adeus Português, poema de 1958, do qual mostro aqui apenas a última estrofe. Um dos poemas demonstrativos da sua repulsa pelo regime, numa combinação de desespero e desilusão amorosa. A. O'Neill e Nora Mitrani conheceram-se e apaixonaram-se durante uma conferência sobre Surrealismo que ela veio fazer a Portugal em 1949. Quando meses mais tarde O'Neill se quis a ela juntar em Paris, não pode fazê-lo porque o seu passaporte tinha sido confiscado pela PIDE. Forçado a ficar em Portugal, nunca mais se viram.
Quando a procurou anos mais tarde, soube que ela se tinha suicidado em 1961.

                                                 Nesta curva tão terna e lancinante
                                                 que vai ser que já é o teu desaparecimento
                                                 digo-te adeus
                                                 e como um adolescente
                                                 tropeço de ternura
                                                 por ti.


*Um dos slogans publicitários de A. O'Neill que se transformou em provérbio.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A Arte da Surpresa



 Não creio que o segredo do mundo seja desvendado pela arte, mas considero que a arte nos segreda algo acerca do mundo. Algo de que poderíamos ter consciência não expressa, ou algo que pode surgir como novidade, como surpresa que apazigua a inquietação da existência. Precisamos do exercício da criatividade, porque a vida não nos responde a tudo; de facto não responde a quase nada, já que não responde ao essencial. Feita de conhecimento e imaginação, pode reduzir à insignificância o mundano e óbvio, e encher de sentido as pequenas coisas.
 Como diria A. Tchekov, "as obras de arte dividem-se em duas categorias; as de que gosto, e as de que não gosto", porque cada um na sua individualidade apreende a beleza a partir da sua própria singularidade, com sensibilidade diferenciada, com um olhar único, porque a beleza reside sempre nos olhos de quem a vê.
 Certo tipo de arte regressa de forma consciente ou inconsciente, a uma ingenuidade primitiva, a uma pureza de forma despojada de complexidade que a torna atractiva ao olhar numa beleza feita de simplicidade.
 Há quem defenda que a racionalidade é que nos torna humanos, eu defendo que a arte completa a ideia do que é humano, já que todo o acto criativo emerge de um pensamento e sentimento (o canto da sensibilidade) que se materializa. O resultado dessa obra , deve geralmente ser bebido devagar, e poderá funcionar como abertura e motivação, ou poderá, o que não é pouco, deslumbrar-nos em segundos. A arte não deve ser massificada, tal como não deve ter carácter particular mas universal. Não existe pior erro que tentar adequar a arte ao gosto geral, contudo existem objectos artísticos entendíveis pela maioria devido a uma linguagem de fácil percepção, como se toda a desordem tivesse sucumbido à ordem e à harmonia.
 Arte consiste também em retirar do feio a beleza, possibilitando a existência de uma estética do belo ou do horror; uma estética do encantamento ou da dor, como denúncia ou tentativa de catarse, porque a verdadeira arte não copia a aparência das coisas, mas a sua essência; o inconfundível.
A arte pode ser séria e sorumbática, mas também pode ser alegre e divertida.




 Desejemos que a arte seja uma reconfortante negação da rotina e do aborrecimento dos dias.
 A minha cidade não é propriamente efervescente em termos culturais, poderia dizer que entra até num estado de semi-letargia durante o Inverno, mas de vez em quando lá vai acontecendo alguma coisa que nos mantém acordados.
 Para além de um Centro Cultural com exposições diversas e espetáculos de teatro ou música, existe um Grupo Cultural, Um Grupo de Jazz, uma Academia de Música, um Grupo de Teatro Experimental, um Cinema, uma Biblioteca bem equipada, com ciclos de cinema e encontros de poesia. Foi também criado há vários anos um Laboratório de Actividades Criativas no edifício da antiga Cadeia, que para além de artistas locais nas áreas de escultura, pintura, arquitectura, cinema, musica, museologia e cerâmica, e organizando oficinas de Dança, Pintura ou Escrita Criativa, recebe também artistas visitantes. Em 2011 foi lançada 1ª edição de ARTURb IN MY WALL com o intuito de valorizar espaços públicos abandonados e geralmente degradados, envolvendo a participação de artistas nacionais e estrangeiros de Arte de Rua.



 Lagos é também uma cidade muito descontraída e receptiva a vários espetáculos de rua, ao que não é alheio o facto de ser uma cidade turística.
 Como escreveu um dia M. Quintana, "A gente deve sair à rua como quem foge de casa". E diria eu, que a arte foge do mundo para que a encontremos logo ali à nossa frente. Fui surpreendida esta semana, por esta singela galeria ao ar livre de rústicas figuras, junto às muralhas da cidade, muito perto da minha casa.
Causaram-me confortável sorriso de espanto e enriqueceram o meu dia. Fizeram parar o mundo por um momento. Surgiram como que do nada para me surpreender.







 Para rematar escolhi um vídeo com peças de João Cutileiro, escultor que informa a pedra bruta.  Um apaixonado pelo mármore e pelas formas femininas. Cutileiro viveu em Lagos entre 1970 e 1985. É dele a controversa estátua de D. Sebastião, no centro da cidade.




*ARTURb -arte urbana de artistas unidos em residência

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Réquiem a um poeta



                              

Um homem enorme morreu hoje.
Tocam os sinos do velho campanário.
Um homem que nasceu, mas não viveu
neste vil mundo de autêntico cenário.
A cidade veste-se solenemente de luto
acompanhando quem não se despediu,
 águas passam no antigo, alto aqueduto
nesta tarde escura e fria que adormece
em breve sono de cinzas, vazio absoluto;
toda enroscada já em desalento e prece.

Divagava sobre a beleza da Poesia,
sobre pequenas proezas masculinas,
em sintonia de realidade e alegoria.
Um vento repentino invade a serra,
 vida incerta traveste-se pelas esquinas
acorda a solidão que decide aparecer
 como soluço abafado saído da terra.
Um homem que abandonou o mundo
sem recado de intenção e sem aviso.
Esquecendo um suspiro moribundo;
aparentando ter partido de improviso.

Só dois amarelos cravos de defunto,
coisa barata, aroma rude e agreste,
lançados agora sobre o caixão, junto
da sombra acolhedora do cipreste.
Nem petúnias, nem vibrantes rosas
nem sagrada benção do azul celeste.
Nem finos versos, delicadas prosas.

Quem teria sido este homem...?
Seria um alegre velho, triste jovem?
Ou seria somente delirante poeta...
Altivo, belo príncipe, bravo guerreiro,
Vagabundo solitário, simples esteta.
De olhar brilhantemente aventureiro,
um peito profundo a rebentar de amor,
 doce encantador de musas, baladeiro,
  perfeito cavalheiro, imperfeito malfeitor?

Em mortalha, o seu corpo é já passado.
Um silêncio cúmplice abraça as árvores,
afaga de mansinho as almas deste lado
e ao longe sonora trovoada se anuncia.
O poeta dilui-se para sempre na paisagem.
O ar boceja na penumbra a morte do dia
enquanto uma luz se esconde na folhagem.



Ilustrar este poema com o Requiem de Mozart, Verdi, Fauré, Brahms, ou Domingos Bomtempo, seria um exagero, por serem composições longas. Por isso escolhi uma peça de um dos meus compositores preferidos; HeitorVilla-Lobos, O Canto do Cisne Negro.




sexta-feira, 8 de novembro de 2013

António Jacinto




 António Jacinto do Amaral Martins, filho de um casal  de colonos de Alfândega da Fé, nasceu em Luanda em 1924, e faleceu em Lisboa em 1991, aos 67 anos de idade. Reconhecido principalmente como poeta de protesto, foi também contista com o pseudónimo de Orlando Távora.
 Empregado de escritório e técnico de contabilidade, desde cedo exerceu actividade na vida política e cultural de Angola, colaborando também em alguns jornais e revistas. Devido à sua militância política contra o regime fascista e o colonialismo, foi condenado a catorze anos de prisão, dez dos quais cumpridos no campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde. Depois de breve passagem por Lisboa, fugiria para Argel e juntar-se-ia ao MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola). Com a independência, em 1975, seria nomeado Ministro da Educação e Cultura de Angola, cargo que ocupou até 1978.
 Co-fundador da União de Escritores Angolanos e membro do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola, recebeu o prémio Noma, o Prémio Lotus da Associação dos Escritores Afro-Asiáticos, e o Prémio Nacional de Literatura. O Instituto Nacional de Indústrias Culturais(INIC) criou um prémio literário com o seu nome.
 Obras: "Poemas"(1961), "Vovô Bartolomeu"(1979), "Poemas"(1982, ed. alargada), "Em Kilunje do Golungo"(1984), "Prometeu"(1987), "Fábulas de Sanji"(1988).
 Tenho por África e seus escritores e artistas um fascínio imenso. Um continente com inúmeras línguas e dialectos, com tanta diversidade cultural e ambiental. Um património histórico e natural que me encanta, com povos tão injustiçados ao longo da História. 


                                       
MONANGAMBÉ

                                    Naquela roça grande
                                     não tem chuva
                                     é o suor do meu rosto
                                     que rega as plantações;
                                    Naquela roça grande
                                     tem café maduro
                                     e aquele vermelho-cereja
                                     são gotas do meu sangue
                                     feitas seiva.
                               
                                   O café vai ser torrado
                                     pisado, torturado,
                                     vai ficar negro,
                                     negro da cor do contratado!

                                  Perguntem às aves que cantam,
                                    aos regatos de alegre serpentear
                                    e ao vento forte do sertão:

                                 Quem se levanta cedo?
                                   quem vai à tonga?
                                 Quem traz pela estrada longa
                                   a tipóia ou o cacho de dendém?
                                  Quem capina e em paga recebe desdém
                                   fuba podre, peixe podre,
                                   panos ruins, cinquenta angolares
                                  "porrada se refilares"?
                              
                                  Quem?
                                  Quem faz o milho crescer
                                    e os laranjais florescer?
                                   - Quem?
                                   Quem dá dinheiro para o patrão comprar
                                     máquinas, carros, senhoras
                                     e cabeças de pretos para os motores?

                                   Quem faz o branco prosperar,
                                      ter barriga grande
                                      - ter dinheiro?
                                      - Quem?

                                    E as aves que cantam,
                                     os regatos de alegre serpentear
                                     e o vento forte do sertão
                                     responderão:
                                   
                                    -"Monangambééé..."

                                    Ah! Deixem-me ao menos subir as palmeiras
                                    Deixem-me beber maruvo
                                     e esquecer diluído
                                     nas minhas bebedeiras.

                                     - "Monangambéé..."


                                                                                   in Poemas (1961)

Monangambé- nome dado aos angolanos negros contratados para trabalhar nas roças dos brancos, no período colonial. Por vezes, deslocados de províncias muito distantes, sendo por isso afastados da família.
dendém- fruto do dendenzeiro, palmeira da qual se extrai o óleo de palma.
tonga- terra a ser lavrada, lavoura.
angolar- moeda oficial de Angola, entre 1926 e 1958.
maruvo- bebida resultante da fermentação da seiva da palmeira, uma espécie de aguardente. 

                               

Poema  musicado e cantado por Rui Mingas






sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Passa um rio





Descanso o olhar nas flores amarelas
Que epicamente tiritam de frio.
Pássaros chilreiam, deslumbram-se ao vê-las.
Incontinente acelera veloz um rio.
Existirão barcos e viagens,
Veredas sem paragens
Que levam a lugar incerto.
Aqui me perco nestas margens.
Águas correm de longe para perto
Saltitando nas pedras em torrente.
Passam agora distraidamente por mim.
Que é feito de ti vontade ausente,
 Dos teus lugares e rios, da liberdade
Do tempo efémero e sem fim
   Ancorado a teus pés em eternidade?




"Ao Longo de Um Claro Rio de Água Doce", Fausto Bordalo Dias