Um homem enorme morreu hoje.
Tocam os sinos do velho campanário.
Um homem que nasceu, mas não viveu
neste vil mundo de autêntico cenário.
A cidade veste-se solenemente de luto
acompanhando quem não se despediu,
águas passam no antigo, alto aqueduto
nesta tarde escura e fria que adormece
em breve sono de cinzas, vazio absoluto;
toda enroscada já em desalento e prece.
Divagava sobre a beleza da Poesia,
sobre pequenas proezas masculinas,
em sintonia de realidade e alegoria.
Um vento repentino invade a serra,
vida incerta traveste-se pelas esquinas
acorda a solidão que decide aparecer
como soluço abafado saído da terra.
Um homem que abandonou o mundo
sem recado de intenção e sem aviso.
Esquecendo um suspiro moribundo;
aparentando ter partido de improviso.
Só dois amarelos cravos de defunto,
coisa barata, aroma rude e agreste,
lançados agora sobre o caixão, junto
da sombra acolhedora do cipreste.
Nem petúnias, nem vibrantes rosas
nem sagrada benção do azul celeste.
Nem finos versos, delicadas prosas.
Quem teria sido este homem...?
Seria um alegre velho, triste jovem?
Ou seria somente delirante poeta...
Altivo, belo príncipe, bravo guerreiro,
Vagabundo solitário, simples esteta.
De olhar brilhantemente aventureiro,
um peito profundo a rebentar de amor,
doce encantador de musas, baladeiro,
perfeito cavalheiro, imperfeito malfeitor?
Em mortalha, o seu corpo é já passado.
Um silêncio cúmplice abraça as árvores,
afaga de mansinho as almas deste lado
e ao longe sonora trovoada se anuncia.
O poeta dilui-se para sempre na paisagem.
O ar boceja na penumbra a morte do dia
enquanto uma luz se esconde na folhagem.
Ilustrar este poema com o Requiem de Mozart, Verdi, Fauré, Brahms, ou Domingos Bomtempo, seria um exagero, por serem composições longas. Por isso escolhi uma peça de um dos meus compositores preferidos; HeitorVilla-Lobos, O Canto do Cisne Negro.

"Quem teria sido este homem...?"
ResponderEliminarAlguém... capaz de inspirar uma poesia tristemente bela mas muito sentida.
Que descanse em paz, ele, e que se afadigue muito quem assim escreve.
:)
Bom fim de semana!
Descansará em paz, sem dúvida. Como toda a gente, já que na morte toda a gente é igual.
EliminarQuem me dera que a minha "fadiga" fosse escrever; seriam léguas e léguas de prazer...:-)
Bom fim de semana também para si, Rui.
A Srta é fenomenal! Uma história com rimas que causam um verdadeiro prazer! E que história linda, que me fez lembrar Jorge Amado, ou Guimarães Rosa! abração
ResponderEliminarLembrar Jorge Amado e Guimarães Rosa?!!! Esses vultos enormes ?... Que exagero, Ives, mas obrigada pelas suas palavras.
EliminarAbraço.
Olá, bom dia. Bom fim de semana, aqui no Brasil, com um feriado, o que lhe faz prolongado. Tempo de sol, ou ensolarado, e a alegria por ficar mais tempo em casa entre contentamentos e opiniões diversas.
ResponderEliminarA Contemplação do tudo, faz-se, por que o Criador permite. É natural, e você é convidado à esse gesto de bondade.
Um abraço, estou te esperando aqui www.josemariacosta.com
Bom feriado prolongado, então, Zé.
EliminarAbraço.
Oi Laura,você sempre nos brindando com poemas encantadores.
ResponderEliminarUm pouco triste,mas lindo de viver.
bjs
Carmen Lúcia-mamymilu
A vida é feita de alegria e de tristeza. Quem está sempre alegre é pateta ou inconsciente .
EliminarObrigada, Carmen Lúcia.
xx
Que bela, magnífica elegia! Ah, como adoro quando cantas longamente... A poesia está em ti.
ResponderEliminarUm beijo!
Gostou, André?...
EliminarProximamente postarei um poema muito curto. Os poemas não se medem nem pelo comprimento nem pela largura, como a tua poesia tão bem demonstra. Geralmente escrevo e falo demais...:-)
xx
Cada poema novo é sempre uma boa surpresa, porque os seus poemas são todos muito diferentes uns dos outros.
ResponderEliminarManuela Pires
Convém que sejam diferentes, caso contrário bastaria escrever apenas um...:-)
EliminarSe a surpresa é boa, sabe sempre bem.
Obrigada, Manuela.
xx
Boa tarde Laura
ResponderEliminarAmiga tu trazes-nos cada escrito, que ando o dia inteiro a estudar o que te hei-de dizer, LOOL....Mas adorei o poema realista ou ficção, não sei, é lindo..tristinho, claro... Gostei muito desta parte...
[Quem teria sido este homem...?
Seria um alegre velho, triste jovem?
Ou seria somente delirante poeta...
Altivo, belo príncipe, bravo guerreiro,
Vagabundo solitário, simples esteta.
De olhar brilhantemente aventureiro,
um peito profundo a rebentar de amor,
doce encantador de musas, baladeiro,
perfeito cavalheiro, imperfeito malfeitor?]
Pois, quem teria sido??
Muito complicado para mim responder aos teus postes, sabes porquê??
Porque são sempre ao mais alto nível!!!!
Adorei o video...Digo-te a mim, pessoalmente durante o tempo em que o estive a ver, fez-me reflectir em muita coisa...
Pronto, escrevi muito, mas não disse nada!! ehehehehhe
Uma beijoca para TU...
Bom Fim de semana.
Querida Cidália!
EliminarTu nem imaginas o tanto que disseste!! Sei que és das pessoas que lê com mais atenção o que escrevo, porque "vejo-te ir e vir"...:-)
O que vale é que só me aturas uma vez por semana, lol.
A verdade é que é que esta morte de um poeta é ficção. Embora tudo o que se escreva possa ter implicitamente influência de algumas experiências reais...já muita gente com certeza assistiu a um funeral quase ao fim da tarde, e recorda as sensações que teve... Depois é só criar uma personagem, neste caso seria um poeta.
Fico contente que tivesses gostado do vídeo; eu gosto muito de H. Villa-Lobos.
Um grande fim de semana, também para ti!
xx
Oi Laura!
ResponderEliminarNão sei quem teria sido este homem...
mas o poema embora triste,
é delicado igual a singeleza das flores.
Lendo sua composição belíssima,
fiquei a pensar na brevidade da vida...
Bjs.
Oi Clau!
EliminarPois, o importante não é saber quem era este homem, mas de facto o poema pode suscitar acerca dele uma certa curiosidade, já que as características que lhe são atribuídas são apenas suposições, meras hipóteses.
A intenção era mais abordar a efemeridade da vida e um certo ritual de despedida marcado pela indiferença perante a morte de pessoas que não têm estatuto social. Muita gente tem tendência a chorar a morte de famosos, mas não a de desconhecidos.
xx
Também os poetas morrem, mas a poesia perdura.
ResponderEliminarSe toda a vida fosse assim: eterna!
beijinhos
Se morrem! Só que como eu disse; diluem-se na paisagem.
EliminarSe a vida fosse eterna acabaríamos talvez por morrer de tédio...;-)
xx
O poema é lindo.
ResponderEliminarQuem seria este homem? se morreu, deixando um silêncio cúmplice que abraça as árvores, só podia ser um poeta, pois só eles conhecem a melodia dos silêncios, como esta que nos deixaste também.
Beijo
Seria afinal um homem como todos os outros, só que teria uma visão poética da vida. O que na hora da morte não significa nada para quem o leva ao cemitério.
EliminarCertos funerais tornaram-se rituais ocos aos quais certas pessoas vão para mostrar os últimos modelos de óculos de sol, mesmo que o dia esteja cinzento.
xx
Escrever com alma e deixar transparecer para este lado poucos o conseguem.
ResponderEliminarFico abismada e maravilhada cada vez que cá venho.
A vida tem-me mantido afastada da blogosfera.
Minha amiga eu estou grata pelas suas palavras no meu cantinho e por toda a energia positiva que chega desse lado..
Obrigada do fundo do coração por continuar a caminhar do nosso lado, mesmo sem eu ter tempo de retribuir, mas nunca me esqueço de vocês. Ai se o tempo me desse tempo...mas o tempo não para!
Desde o último post, nunca mais tive oportunidade de vir à net. Hoje não vim postar mas sim dar notícias aos amigos que nunca se esqueceram de nós.
A luta por aqui continua com fé e esperança. Segunda-feira o meu marido foi submetido a mais uma cirurgia e já tem outra marcada ainda para Novembro. A situação é delicada, mas continuamos firmes, sem baixar os braços à espera de um final feliz em nome do amor incondicional que nos une. Quarta-feira a filhota mais nova também foi submetida a uma cirurgia delicada..
Vou gerindo o meu tempo em hospitais diferentes, com localidades diferentes, tentando não negligenciar os outros três filhotes. Por enquanto precisava que o dia tivesse 48 horas, mas um dia a tempestade acalmará e estaremos todos unidos como antigamente, porque o amor que nos une é indissolúvel.
Mil e um beijinhos e um abraço apertadinho
Querida Vivi
EliminarA vida prega-nos ao longo do tempo tantas partidas, umas com graça, outras sem graça nenhuma, mas como tudo tem um fim, essa fase má de doença e tanta preocupação terá de acabar.
Estás a manter-te forte, e o que dizer do teu marido, também?...Sem dúvida que a tua presença e carinho constantes, tal como a dos vossos filhos tem sido decerto a roda motriz para que a esperança continue bem viva.
Agora com tua filha também a ter de ser operada nesta altura, é dose para leoa!...:-( Espero que tudo tenha corrido muito bem com ela, tal como vai correr com o teu marido.
Boa sorte para mais essa operação, e obrigada por me teres trazido notícias.
Quando acabar este dilúvio que se abateu sobre a tua família cá estaremos novamente a cantar a saúde e a vida.
Continuo a pensar em vocês, sei que a energia positiva que tento enviar-te pode não ser grande coisa, mas é o que posso oferecer-te neste momento, para além de um beijo e um abraço do tamanho do mundo.
Vivi, tudo vai correr bem.
xx
Poema triste e bonito.
ResponderEliminarAdoro Villa Lobos!
Tudo o que é bonito não pode nunca ser triste; é quando muito a exorcização da tristeza.
EliminarVilla-Lobos foi de facto um grande compositor.
xx
O triste torna-se sublime.por vezes ...adorei!
ResponderEliminarabraços a ti
Obrigada, Lia. Bem vinda !
EliminarAbraços.
xx
Boa noite Laura.. nem preciso dizer que curti as rimas.. um jogo muito bom delas.. o mozart fez o dele.. obra fabulosa.. eu por mais que falei no tema um dia farei o meu do meu jeitinho.. bem saboroso com o tema que muito adoro rsrs. e tu tb por sinal.. sempre escolhe belos poemas.. fique sempre bem minha amiga beijos e até sempre
ResponderEliminarOlá Samuel!
EliminarPois é, O Requiem de Mozart é uma obra fabulosa, de facto.
Sim, o tema da morte é fascinante qualquer que seja o ponto de vista ou o tipo de abordagem; convém pensar, e não enfiar a cabeça na areia.
Mas eu não "escolho" os poemas, talvez eles me escolham a mim, muito de vez em quando....:-)
Obrigada, Samuel.Até sempre.
xx
Passou e não viveu a vida, assistiu simplesmente, bem acomodado em seus pudores, em seus temores, a vida equacionada, bem medida. Seguiu bem as formulas, as receitas, as etiquetas, o que lhe fora mandado. E agora, não restara nem a sombra, sua única companheira de verdade a vida inteira, enquanto soma, cópia, deitado ao seu lado, agora, morta também, no caixão sinistro.
ResponderEliminarhttp://www.youtube.com/watch?v=7y4gGu5mEWM
Interessante a forma como você leu o poema Fábio.
EliminarUm homem que passou, como muitos outros afinal, cujo não viver, cuja vida não parece ter sido especial, quanto a mim, aos olhos dos outros, porque pode ter sido especial para ele. Um indivíduo é sempre muito mais do que aquilo que aparenta ser, para o melhor e para o pior, a questão é que a maioria das pessoas não estão interessadas em conhecer a verdadeira interioridade do outro.
A indefinição sobre quem seria este homem permite ler como se quiser, e concordo também com a tua leitura que o mais significativo é que não resta nada, nem a sua sombra; a ideia de que a vida seja curta ou longa , não deixa nunca de ser efémera. A morte é o irremediável.
Não conhecia o vídeo, achei interessantíssimo, porque muito rápido, tal como a vida. Gostei muito.
Obrigada, Fábio!
xx
Um poema escrito por uma enorme poetiza. Li várias vezes, acabando por admitir não ter bagagem para responder da forma que, penso, o poema merece.
ResponderEliminarSim, é um poema triste, mas tão profundo, que acabamos por sentir alegria em lê-lo. Traz-nos à vida para além da morte. Da tristeza invisível à alegria do imaginário da própria poesia.
Lindo de morrer...como o poeta morreu.
Bom fim de semana
Fica feliz.
Enorme?!... Palmo e meio de gente...;-)
EliminarAh, Ricardo, não sejas modesto. Acho que fizeste uma excelente análise; sucinta e muito clarividente. Ou seja, leste o poema com a tua profunda sensibilidade.
A morte do outro (o fim) deveria ser sempre uma forma-pretexto para pensarmos sobre a nossa vida (o durante), ou seja, deveríamos pensar a vida a partir da ideia de morte, porque todos temos o tempo contado.
Obrigada, Ricardo, e um bom fim de semana.
xx
Minha Querida Laura, que palavras lindas e tocantes,sem dúvida que servem de alimento e terapia para aplacar almas confusas e rebeldes com a dialéctica
ResponderEliminare fragilidade entre a vida e a morte...
Obrigada por este momento, fizeste-me reflectir e questionar.....e ao som desta musica....é obra!!!!
Simplesmente adorei...Um forte abraço ...beijinhos
Rosário Torrado Correia
Olá Rosário!!!
EliminarAs almas podem confundir-se e sentir-se à deriva perante a fragilidade e finitude da vida, mas crescer como pessoa pressupõe a aceitação da morte, porque só quem aceita a morte poderá verdadeiramente valorizar a vida.
Difícil para mim é aceitar a morte dos outros, não a minha.
Obrigada eu pela tua visita, querida Rosário.
Um abraço.
xx
Bem, Dra. Laura, TENHA DÓ DE MIM!
ResponderEliminarDesculpe, nem a cumprimentei, porque estou imbuidíssima naquilo que não sei dizer. Boa noite, como vai?
Já sei o que me vai dizer na sua resposta, mas, mesmo assim, apeteceu-me tanto apelidá-la, assim, que o fiz.
E eu, que tirei, também, um pouco mais que o 4º ano, não sei comentar o seu poema. QUE CONTRADIÇÃO, OU SERÁ QUE É IGNORÂNCIA, EM "AFLIÇÃO"?
Eu, às vezes, até junto umas vogais e umas consoantes, formo umas palavrinhas e lá escrevo umas coisinhas, mas com este "MONSTRO" de poema, eu não encontro nem o "a e i o u", minha querida "menina".
O tema da morte, ou a morte, eu nunca a entendi, nem a aceitei, e continuo a não aceitá-la, ao contrário, provavelmente da Laura, que a entende, sobretudo, a sua, e por isso escreveu um poema com esta desenvoltura e envergadura.
Eu sei que é uma mulher muito inteligente, que tem sempre réplica, (às vezes, entra em erupção, não é? É bom. Não se amofine) mas também sei que se sabe colocar no seu humilíssimo "pedestal", sobretudo se a pirâmide social, lhe "falar" no e do estrato de baixo, como no Egito, por exemplo. Então, aí, desce e coloca-se ao mesmo nível, e isso, eu acho um gesto grandioso, e podemos vê-lo, nesta sua publicação. Creio que, aqui, "percebi o seu poema".
Estou a "encher chouriços" (linguagem popular, entre eles), como fazem os repórteres na televisão, enquanto não aparece o "Desejado", o D. Sebastião deles, assim estou eu a fazer, ou fazendo, como dizemos na nossa província, porque não tenho palavras, AO NÍVEL DESTE SEU POEMA, SOBRETUDO.
Então morreu um homem (até aí, consegui perceber), mas não se sabe quem era, o que fazia, classe social, monarca ou plebeu, vagabundo ou "senhor", cavalheiro, como lhe chama, mas isso também não interessa nada, como diz a "outra" senhora, porque ele pode até ter morrido de improviso, como escreveu.
E se morreu de improviso, tudo "numa boa", (vamos lá aligeirar esta erudição) porque mais logo estará vivo, de novo e mais uma vez, tipo ator, "tá a ver"?
Nos seus poemas, não é propriamente o tema, em minha opinião, que se destaca, mas sim as cores e as ambiências, com que os veste e reveste.
Não sendo uma poetisa romântica e sensual, consegue movimentar-se muito bem "no meio", porque a experiência, o vivido, são bases para a vida inteira, e a Laura, conhece muito da vida, porque a sentiu na pele, tanto de forma positiva, quanto de forma menos positiva, ao contrário de mim, que fui e sou uma "betinha".
A LAURA TEM CONTEÚDO E NÃO É BALOFO. ENCONTREI O COMENTÁRIO PARA O SEU POEMA. CARAMBA! CUSTOU, MAS FOI, julgo eu.
Que bom! Os poetas (vou imaginar-me também poeta) não morrem, ou seja, passam a ser paisagem também, campos de searas, eiras, sei lá que mais, quando se diluem nela.
HUM! QUE CHEIRINHO A NATUREZA VIVA E PROFÍCUA!
Tenha um resto de bom sábado e excelente domingo, embora com este frio terrível.
Beijos, sempre beijos, para os/as poetas.
PS: agradeço o seu brilhante e assertivo comentário, mas vai ver quantos homens lá vão aparecer, e a maneira como comentam, porque eles dão sempre UMA, DUAS, TRÊS polegadas seguidas, por exemplo, ao percorrer. As mentalidades levam séculos a modificarem-se, e pelo que me é dado ver, não será ainda neste, que se soltam, deixando para trás as trevas da Idade Média, conseguindo, assim, enxergar REALIDADES CONTEMPORÂNEAS.
Olá Emília!
EliminarNão a trato por dra. que é, porque não gosto que me tratem assim...:-)
Não sabendo o que dizer, contudo disse tanto; o que diria então
se soubesse dizer alguma coisa!!!... E agora, o que posso eu
responder a isto?...
Direi apenas que realmente esteve e continua muito frio,
embora com um sol radioso, e que as suas palavras me
aquecem. Agradeço -as, mas acho que de tanto elogio não sou
merecedora.
Achei piada nessa de "betinha", e realmente eu nunca fui
"betinha", fui sempre mais assim do tipo aciganado; cabelos
sempre soltos ao vento, saias compridas, estudo e trabalhinho
nas férias, nunca obrigada, sempre por vontade própria. Por ter sido sempre, desde que me conheço, mais centrada no que se
passava à minha volta do que no meu próprio umbigo.
Quanto ao seu post, veremos... é fim de semana, acho que as reacções aparecerão. Os homens falarão decerto, se não o fizerem, acabará também por ser significativo; a prova de que os homens continuarão ainda a não gostar de falar sobre certos assuntos que tanto lhes dizem respeito.
Os homens calam mais que as mulheres, têm medo de parecer frágeis.
Estou curiosa. Irei lá mais tarde, ver como param as modas...:-)
xx
Olá Laura querida
ResponderEliminarLindo poema...
Triste e tocante.
Beijos
Ani
Obrigada, Ani.
Eliminarxx
Laura, tua postagem de hoje me fez recordar de dois momentos tristes na minha vida, não apenas pelo poema como também pelo vídeo.
ResponderEliminarA primeira, remontando a memória para uma época ainda criança, numa cidadezinha do interior durante o enterro do meu avô paterno, maestro de uma banda (tipo a cantada na famosa composição do Chico Buarque) e que também era uma orquestra composta pelos membros da nossa família (pai, tios, primos e sobrinhos), famosa na pequenina cidade. A lembrança triste veio nas asas da imaginação de uma menina aos sete anos de idade, num cortejo de parentes e amigos acompanhando até a última morada um dos seus ilustres representantes, chorando a perda de uma pessoa que sempre fora, abarcando a imensidão da palavra, um excelente/terno/compreensivo avô. A música era tão triste, a batida dos instrumentos tão dolente que chorei copiosamente tentando entender o que representava na minha (ainda) frágil existência a perda de um ente tão querido. Parafraseando o teu poema, naquele dia um “homem enorme” morreu, e enquanto o sino do velho campanário tocava, a cidade vestia-se de luto para acompanhar quem havia se despedido mansamente de amigos e parentes, funcionários e todos que tiveram a alegria de ele conviver, e que nos deixava depois de 98 anos de uma vida de dignidade, trabalho e dedicação. Kardecista que era, devia sorrir enquanto o resto do mundo (concentrado na pequena cidade) chorava. Um verdadeiro Poeta, pois os sons que compunham sua música eram versos nascidos nas notas que saltavam das suas mãos. As flores lançadas sobre o caixão foram colhidas nos jardins das casas dos moradores que ali compareceram querendo prestar uma última homenagem a uma pessoa tão querida. Meu avô foi, na realidade, um grande homem para a família, para os amigos e para a comunidade que abraçou com verdade e amor.
A segunda vez, numa época bem recente, acompanhando o cortejo de uma pessoa amiga da família, homem simples que na profissão de pedreiro ajudara na construção de muitas mansões e que só conseguira construir a sua própria casinha com a ajuda do ‘mutirão’ de amigos e parentes, comprando o material a duras penas. Morrera cedo, como diziam muitos, ainda com muita coisa para realizar. E a ironia do destino é que o seu sepultamento não se deu no cemitério onde ele havia levantado tantas lápides (cemitério de rico), mas sim num desses em que somente uma cruz sobre um montinho de terra mostrava que ali estava enterrada uma pessoa. Não foi um réquiem que o acompanhou à última morada, mas uma canção de cunho triste e que falava de saudade, cantada por um dos filhos e por aqueles que também a conheciam. Soube depois se tratar de uma música composta por um dos irmãos. Este ‘amigo da família’ sim, cabe justamente na composição do teu poema. Quem poderá dizer que não eram versos os tijolos que ele, pacientemente, erguia em cada construção? Que não eram rimas cada colherada de cimento trabalhada no rejunte e nas emendas? Eram sim, versos que sua alma dedicada, simples, humilde, tecia muitas vezes com o estômago vazio, o olhar procurando divisar um futuro melhor para os filhos. Talvez versos de dor, cunhado em lágrimas, mas mesmo assim, versos, poeta da vida, poeta da dor, poeta do amor, do amor à vida!
E foi por isso, amiga querida, que tua postagem de hoje deixou-me triste. Talvez até o tempo decorrido no escrever de tão extenso comentário (pelo qual já peço mil desculpas) já tenha diluído a tristeza. Apenas não vou arriscar-me a voltar e ler ‘com outros olhos’ o belo poema que tua sensibilidade criou nem o vídeo, para mim, deveras triste, como são todos os réquiens. E tão belo/doce/sentido poema, acompanhado pelo réquiem do nosso querido e tão apreciado compositor Villa-Lobos, só podia mesmo ter nascido de uma alma tão iluminada de Poesia quanto a tua.
Fui buscar no brilho das estrelas que já iluminam o pedacinho de céu que vejo da minha janela, os sorrisos mais lindos para espalhar no teu domingo, desejando que a semana te traga horas de muita alegria, paz e muito amor.
Com carinho,
Helena
Helena
EliminarO teu comentário- desabafo é tocante. Triste é certo, mas ao mesmo tempo, lembrar pessoas que nos marcaram a vida é sinal de que realmente foram muito importantes para nós.
O teu avô maestro teve uma vida decerto plena, e aos 98 anos de idade, só poderia despedir-se mansamente, naturalmente,; algo que uma criança não está ainda preparada para entender. Um homem enorme, reconhecido como tal pelos seus concidadãos na hora do cortejo fúnebre, pelas suas qualidades como homem de família e empenhado socialmente.
Grandes homens são assim, deixam o seu rasto por onde passam e continuam vivendo no coração dos que ficam.
O teu pedreiro poderia ser o poeta do qual falei. E existem tantos homens assim, Tudo entregam à vida, guiados pelo sonho de uma vida melhor, donos de uma bondade e vontade intrínsecas que lhes foram dadas pelas dificuldades , atraiçoados precocemente a meio do caminho, deixando uma vida por realizar. Pessoas que ajudam a construir a vida dos outros e que em troca recebem indiferença.
Dois homens, dois destinos. Ambos poetas, cada um à sua maneira. Porque erguer uma casa pode ser tão poético como escrever uma partitura.
Obrigada por esses sorrisos, Helena.
Bom resto de domingo e uma semana com tudo o que me desejas.
xx
Caríssima amiga e escritora brilhante,Laura.Por mais que eu esteja afastado do blog, sempre terei um tempo para você e suas ternas postagens, guardado no fundo do meu coração de leitor.Ler-te, é sempre gratificante e elucidativo para este velho amigo que te segue de perto, com os olhos colados nas suas postagens, me despeço com verdadeiros beijos..:-BYJOTAN.
ResponderEliminarEstranhei a sua ausência no blog, caro Byjotan, mas é bom saber que está tudo bem e que o afastamento é voluntário...
EliminarObrigada pelas suas palavras, mas tira o "brilhante" disso!...:-)
xx
Qualquer problema se emocionaria com tão bela homenagem.
ResponderEliminar"Qualquer problema"??!!!! Estavas a pensar em quê?....:-)
Eliminarxx
Lindo de morrer, Laura.
ResponderEliminarNunca vi nininguém falara assim da morte,sem lamechices mas de forma tão poética.
Sofia
Obrigada, Sofia, mas acho que existem muitos textos sobre a morte que não são lamechas...:-)
Eliminarxx
Laura,
ResponderEliminarUm magnífico requiem. Mas o respirar da vida é contínuo, outros poetas se insinuam...
Beijo :)
Outros se insinuam, é certo. Tenho um na minha frente...;-)
Eliminarxx
Olá Laura,
ResponderEliminarSeu 'Requiem' é uma obra prima. Ficou espetacular.
Creio que os poetas partem, mas sempre deixam legados. Qualquer criação de um poeta, conhecido ou não, acaba se eternizando, pois marca sua passagem pela vida. Talvez, por isso, muito bem posta a colocação: "O poeta dilui-se para sempre na paisagem".
E o poeta pode travestir-se de todos estes personagens que você menciona em seus versos:
"Quem teria sido este homem...?
Seria um alegre velho, triste jovem?
Ou seria somente delirante poeta...
Altivo, belo príncipe, bravo guerreiro,
Vagabundo solitário, simples esteta.
De olhar brilhantemente aventureiro,
um peito profundo a rebentar de amor,
doce encantador de musas, baladeiro,
perfeito cavalheiro, imperfeito malfeitor?"
O poema (requiem) foi lindamente construído.
De qualquer forma, grandes e pequenos voltam ao pó. A diferença é que alguns deles deixam marcas de sua passagem pela vida.
Perfeita a escolha da música para ilustrar o poema, embora seu tom fúnebre chegue a doer na alma.
Parabéns, Laura! Você tem um talento incrível com as palavras.
Beijo.
Ah, obrigada Vera Lúcia. Muita simpatia sua.
EliminarEu penso que todo o poeta marcará sempre alguém, não falando apenas dos conhecidos e reconhecidos, mas também daquelas pessoas que têm uma visão poética do mundo, que muitas vezes passam despercebidas, ou são até consideradas pessoas estranhas ou ingénuas.
E claro que pode ser uma pessoa com as características que apontei, ou muitas outras características.
Todos acabamos da mesma forma; grandes ou pequenos, mas quanto a mim todos importantes, especiais.
xx
Belo poema...Espectacular....
ResponderEliminarCumprimentos
Obrigada, Chana.
Eliminarxx
Um poema belíssimo e tocante...
ResponderEliminarUm poeta genuíno
com um olhar profundo,desapegado e encantado de vida,
só assim, parte de improviso...
No repouso recolhe o dia,
mas a sua luz reflete a
paisagem viva, tocada e sentida
pelo portal-poesia...
Este teu poema percorreu a minha alma num eco profundo,
pois acho que a beleza essencial, tocante e surpreendente
brilha no anonimato...
O vídeo emocionante, a música genial de Villa-Lobos!
Este teu espaço é muito especial,proporciona sempre
ao leitor, um caminho na bela viagem da
arte essencial (um olhar descortinado) ...
Sempre grata por esta viagem, querida Laura!
Bjs.
Um poeta que aceitou a vida na sua imprevisibilidade, alguém que não se sabe realmente quem foi, que finge partir de improviso apenas porque a morte tantas vezes não avisa, mas cuja morte causa indiferença precisamente pelo anonimato deste homem, seria um poeta apenas para si própria.
EliminarApenas a tarde sente frio e a natureza o aceita no seu seio.
Obrigada Suzete, pelo teu lindo comentário.
xx
Laura que poema lindo e encantador o vídeo bem escolhido Laura passando pra desejar uma ótima semana fique com Deus beijos.
ResponderEliminarhttp://www.lucimarestreladamanha.blogspot.com.br
Ainda bem que gostaste, Lucimar.
EliminarUm grande semana , também.
xx
Tenho uma saudável "relação" com a morte e sempre apreciei Requiem, seja em palavras ou musicas...a tristeza, faz parte da vida. Belíssima, a sua poesia, Laura. Lamentei não ter conseguido ouvir Villa-Lobos( o vídeo, não abriu). Mas, como grande apreciadora dele, brasileira que sou, conheço bem a sua obra, ouvirei oportunamente...Hei de voltar!
ResponderEliminarUm abraço!
Olá Lúcia, seja bem vinda!
EliminarPara se ter essa "saudável relação" com a morte é também necessário conviver com ela. Antigamente quando as pessoas morriam em casa , não havia esse afastamento da morte que há hoje com as pessoas a morrerem nos hospitais. Há que aproximar novamente as pessoas dos seus mortos.
Estranho vídeo não abrir, mas quem no Brasil não conhece Villa Lobos?...:-)
Obrigada, Lúcia, pelas suas palavras.
Um abraço de volta.
xx
Creio que a MORTE esteja tão presente em cada um de nós quanto a VIDA... A cada dia vivido vamos morrendo um pouco.
ResponderEliminarTodos os seres merecem um réquiem. Amo os Réquiens de Mozart, Verdi, Fauré, Brahms e de Domingos Bomtempo, porém a escolha de Villa-Lobos é perfeita.
Um grande abraço e meu carinho, Laura!!!
Concordo que a cada dia nos vamos um pouco, e que todos merecem ser louvados na hora da morte, que mais não seja em pensamento.
EliminarAbraço, Malu!
xx
Eu não gosto da morte, mas até gostei dessa música.
ResponderEliminarJoão Nicolau
Acho que ninguém gosta da morte, a não ser que, decididamente não goste da vida....?
EliminarLaura
ResponderEliminarQualquer homem poderia ser o objeto das tuas palavras. Poeta ou não poeta. Mas o teu poema fala da morte de um poeta que, para além de divagar sobre a beleza da Poesia, não se deu a conhecer ... e jaz agora no teu belo Poema num silêncio cúmplice que abraça as árvores.
A linha que nos separa da(s) morte(s) da nossa vida torna-se às vezes tão vaga e incompreensível... terá este poeta partido da vida terrena ou simplesmente morrido em ti ?
Beijo
maria jorge
Exactamente, Maria. Qualquer homem, qualquer pessoa pode ser o sujeito do meu poema. Por isso não tem características definidas.
EliminarQuanto à tua excelente leitura, dir-te-ei que conheces-me muito bem!!...Pouca gente já morreu em mim, mas nunca nenhum poeta. Poeta acho que não conheço nenhum. Ser poeta é muito mais do que escrever versos.
xx
Querida amiga e poetisa Laura...!!!
ResponderEliminarSenti-me honrado com mais uma sua presença
Em meu blogue, com o seu carinho de sempre.
Passando para retribuir e deixar o meu abraço.
O Poema não fala da pessoa, tão somente um
personagem qualquer que se encaixe ali. Quanto
à morte é conseqüencia da vida, muito embora,
muitos morram em vida. Seu Poema vive a cumplicidade
desse gesto, vivendo e narrando ela..
Um meio de semana maravilhoso é o que desejo
Para você. Com muita paz, amor e, felicidade em
Seu coração. Que haja muita luz em seu caminho.
Beijos de luz !!!
POETA CIGANO – 20/11/2013
http://carlosrimolo.blogspot.com
“Poesias do Poeta Cigano”
É exactamente assim, Carlos; um réquiem para qualquer pessoa que tivesse morrido e pela qual nunca ninguém tivesse sentido interesse, nem na vida nem na morte. Alguns também morrem em vida , por vezes porque ninguém os amou, ou lhes deu a mão.
Eliminarxx
Não deixemos morrer os nossos mortos
ResponderEliminarOs meus mortos nunca morrerão dentro de mim.
EliminarEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarOlá Laura!
ResponderEliminarLi e reli o poema que achei admirável. Também fui lendo alguns comentários...
Senti e fiquei emocionada ao ler o teu Réquiem...pois a morte já me levou vários entes queridos (que não eram poetas...embora alguns tivessem sensibilidade poética) e ao ouvir Villa Lobos. Um grande abraço.
M. Emília
Olá Emília!
EliminarQuem tem sensibilidade poética embora possa não escrever poesia, é poeta. Ser poeta é indignar-se com injustiças, é maravilhar-se com a beleza das pequenas coisas, é ver com os olhos da alma.
Obrigada, Emília; aposto que esses teus entes queridos eram poetas.
Abraço!
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Magnífico. Gracias por compartirlo.
ResponderEliminarMuchas gracias Jose- Maria.
EliminarLaura boa tarde, concordo com você em relação ao comentário que vc deixou lá na postagem, Laura passando pra desejar uma ótima quinta-feira beijos.
ResponderEliminarhttp://www.lucimarestreladamanha.blogspot.com.br
Olá Lucimar!
EliminarEu sabia que concordarias. As pessoas criam necessidades fúteis à toa.
Obrigada, Lucimar.
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Um poeta pode vestir toda a espécie de homem, é a sua capacidade de criar e a sua sensibilidade de descrever o que lhe vai no momento que determina o tipo. E depois de morto até o poeta se torna poesia porque são unos.
ResponderEliminarBonito poema sobre a morte, essa que por ironia também é capaz de se converter em beleza.
Abç
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Existem pessoas que tentam fazer da sua vida um acto poético, e a morte faz parte desse acto poético, devido à forma como a encaram. Que se dane a indiferença dos outros na sua vida e morte!
EliminarObrigada, Mz.
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Li o poema e fui acompanhando com tamanha realidade, as tantas belas palavras escritas, e senti a história do desconhecido homem. Quem será ele? É um dilema com respostas suplicantes, que esvoaçam nos corações dos que entendem de verdade a poesia. Morrem-se vários homens diariamente. Alguns continuam respirando e de olhos abertos, mas já estão mortos.
ResponderEliminarEsta composição do Cisne Negro é um outra bela obra de arte. É muito instigante percorrer seu blog. Um grande abraço.
http://gauchaopina.blogspot.com
O segredo do poema é esse; quem terá sido este homem que todos olharam e olham com indiferença?... É o que acontece a muita gente; ninguém se interessa por eles, nem na vida, quanto mais na morte. No entanto sabe-se que era poeta, e ser poeta é ser grande.
EliminarObrigada, Carlos, um abraço!
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