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sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Circo


                                Trapezistas  de Hélder Bandarra



                              O circo desceu à vila prometendo alegria.
                              Tenda armada em projecto breve,
                               policromático convite à ilusão e fantasia.
                               Derrete-se na boca como flocos de neve,
                               o algodão doce que a criança lambia.
                               A banda engana-se, volta atrás...E
                               em cada nota perdida a magia fugaz,
                               todo o jogo de luz e sonho se desfaz.

                               Saltimbancos coloridos; fascínio de piruetas.
                               Contorcionistas despidas e maleáveis
                               exibem em pedestal tão esbeltas silhuetas.
                               Acrobatas da China de fatos vermelhos,
                               concentrados em equilíbrios instáveis.
                               Todos em sequência; longa fila de espelhos,
                               desaparecem já rumo aos bastidores
                               sob altos trapézios ondulando suspensos,
                               esperando leves dançarinos voadores.
                               Rufos de suspense, efémeros fumos densos...
                               Piadas de palhaços pobres e ricos,
                               gigantes bolas de sabão circulam no ar
                               envoltas em risos gastos e sem graça.
                               Num gesto de mão desfazem-se em fanicos
                               como a névoa que dentro de nós passa.

                               O circo não pegou fogo. Voltará logo
                               com olhos tristes de enjaulados leões,
                               fanfarra, luzes, muitas cores berrantes
                               e trombas de melancólicos elefantes 
                               atirando confetis em todas as direcções.
                               Cavalos a galope, porcos volantes
                               de cintilantes e leves plumas, alados
                               por patéticos homens amestrados.



 Le Cirque du Soleil, uma inovadora forma de fazer circo. Criações arrojadas nas quais as artes circenses se entrelaçam num enredo com cenários arrojados, guarda-roupa geralmente inspirado noutras épocas e música ao vivo. Companhia fundada no Canadá em 1984, depois de tempos iniciais de perigo de falência, que ultrapassou, consegue nos últimos anos alcançar projecção internacional. Sem animais nos seus espectáculos.



"O circo ensina as crianças a rir da dignidade perdida dos animais. Nesse caso, a 'humanização' dos bichos reflete claramente a falta de humanidade das pessoas projetada em um macaco de vestido, camuflada sob os risos" ( Olegario Schmitt)
                                                                                  
                             

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Soeiro Pereira Gomes



SOEIRO PEREIRA GOMES

 S. Pereira Gomes ( Baião 1909-Lisboa 1949) foi um dos iniciadores da ficção neo-realista em Portugal. Casado com a compositora Manuela Câncio Reis, escreveu crónicas n' "O Diabo", e publicou "Esteiros" em 1941. "Engrenagem", Refúgio Perdido" e "Contos Vermelhos" foram publicados postumamente.
 Empregado na Fábrica de Cimentos Tejo, em Alhandra, dinamizou socialmente a vila, organizando conferências sobre temas culturais e desportivos, dirigindo cursos de ginástica, colaborando na montagem de bibliotecas particulares, tendo contribuído para a construção duma piscina popular onde trabalhou como operário.
 Um excerto de "Esteiros", romance sobre os "filhos dos homens que nunca foram meninos", narrativa sobre meninos miseráveis dos esteiros do Tejo. Um história comovente.


"Morava no fim da vila, à beira dos esteiros. Da casa que o pai fizera, toda madeira e lata, viam-se os touros pastar na outra margem e as rotas dos barcos. Havia tufos de junco nos esteiros e lixo abandonado. Mas Gineto sonhava conquistar todas as ruas. Quando pequeno, ainda convertera os esteiros em florestas e rebuscara no lixo brinquedos preciosos. Cedo, porém, se aborreceu daquele recanto monótono, só água e planície. A floresta dava-lhe pela cinta - era junco - e o lixo era lixo, apenas. Começaram então as fugas para a rua. A mãe bem lhe dizia ao fechar a porta:
- Toma-me conta do pequeno! - Mas ele deixava o irmão a gatinhar na lama, e ia alvoroçar os garotos seus iguais. Ainda não era o Gineto ladrão. O nome veio-lhe depois com os assaltos aos pomares, florestas mais belas do que os esteiros. Mas já era mau e temido. Amigos tinha-os às vezes nos companheiros que precisavam da sua mão certeira para matar galinhas à solta ou colher frutos em pomares recatados. Fora disso, era mesmo um Gineto escorraçado.
Desta vez, porém, foi dominado pela Feira. Queria desforrar-se nos cinco dias festivos, sem os berros do mestre e as pancadas do pai. Iria ver os acrobatas do circo; daria tiros ao canhão e passeios nos cavalinhos. E até havia de estancar o ardor do sangue, dentro das barracas de reposteiros vistosos, onde mulheres pintadas vendiam refrescos e beijos. Seria senhor da Feira e do seu destino; livre, como um homem.
Mas era preciso dinheiro, e então ficara no telhal. E como um homem, vendeu os braços para que o dinheiro agora tilintasse no bolso das calças. Gineto sentia-se tão feliz que não se lembrou das lágrimas que a mãe havia de chorar por ele e pela féria da semana. Subiu o beco do Mirante a assobiar. As quintas estavam ali em frente a retalhar os vales e a seduzir olhares. O sol, ainda alto, tornava mais branco o branco dos muros e revivescia com reflexos doirados as folhas estioladas das videiras. Mas Gineto não receava a luz da tarde. Tinha a certeza que os caseiros não estariam de atalaia, entre os pomares, porque a melhor fruta já fora apanhada. O moço do telhal sabia de colheitas.
Todavia, chegado à estrada, hesitou. Pela primeira vez as suas quintas - suas, como ele dizia - não o atraíram. A Feira afagava-lhe o pensamento; o dinheiro tilintava no bolso... Era livre, sem a perseguição dos caseiros e cães de guarda... Não iria às uvas.
E seguiu estrada fora, antegozando a Feira. Festeiro de pés sem botas e calças com fundilhos, porque não tinha, como Malesso e outros, um fato de feira para estrear." (...)