sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Celebridades de Portugal em 2013


                                                                    Nadir Afonso


 Ficamos esta semana a saber quais os assuntos mais pesquisados em Portugal através do Google durante este ano que está a chegar ao fim. O grupo musical One Direction, a Casa dos Segredos, a vila da Ericeira, o S.L.e Benfica, o Google Maps e o bolo de chocolate são alguns dos termos que lideram as várias listas de pesquisa, num conjunto em que Cristina Ferreira, apresentadora de televisão, a surfista brasileira Maya Gabeira, que infelizmente não teve sucesso ao tentar surfar uma onda gigante na Nazaré como a que Carlos Bule surfou, o tema Harlem Shake e as eleições autárquicas assumem protagonismo.
 As mortes de Georges Moustaki, Ramos Rosa, Peter O'Toole, Bigas Luna, José Luis Sampedro, Bana, Urbano Tavares Rodrigues, Nadir Afonso, Lou Reed, ou esse homem extraordinário que foi Nelson Mandela, deixaram-me um pouco mais a pesquisá-los quase como uma homenagem ao relembrá-los. Deparar-me com este top de celebridades teve uma certa piada. No fundo, nada de inesperado por aí além, mas surpreendeu-me que Érica Fontes, actriz porno de 22 anos de idade, da qual nunca tinha ouvido falar, suplantasse Cristiano Ronaldo como figura mais procurada na internet, ou até Tony Carreira, cantor tão popular. Achei delirante a tentativa de justificação de Érica Fontes em relação à escolha da sua profissão e a sua benevolente intenção de "abrir a mentalidade dos portugueses". Apreciei os golos de C. Ronaldo, que quase parecem levar o narrador Nuno Matos à loucura, e quanto a Tony Carreira, nada a dizer já que não é um cantor que faça parte da minha lista de preferências. 
   
                                        TOP DAS CELEBRIDADES

                                        1. ÉRICA FONTES 
                                        2. CRISTIANO RONALDO
                                        3. TONY CARREIRA


Poderia ter escolhido Lou Reed e "A Perfect Day", mas num ano em que milhares de portugueses voltaram a ter de emigrar, optei por Georges Moustaki. Le Métèque, uma letra lindíssima.




UM FELIZ 2014 !
Obrigada a todos pelo carinho e atenção que me dedicaram ao longo deste ano.



sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Natal


"Deixem que se espalhem as redes 
da respiração, desde o caos materno ao sonho da criança
exacerbada,
                                     única"  (Herberto Hélder)


 Nunca gostei muito do Natal, talvez porque nunca o tivesse celebrado na infância e na adolescência. Uma época de consumismo e tantas vezes de uma alegria mais aparente que real. Uma quadra festiva de oratória, um tempo de intervalo, de preparação para a resiliência necessária para enfrentar o novo ano que já se anuncia. Um tempo de tréguas, de inspiração de confiança; como que uma desejada revitalização.
 Compram-se presentes porque se têm de comprar, medita-se pouco ou nada sobre mais um ano que estrebucha moribundo, as pessoas tornam-se boas por obra e graça do Espírito Santo, em recolhimento feito de reconciliação, paz e confraternização. De repente somos todos irmãos. Pensa-se ao de leve nos desvalidos da sorte, interrompem-se guerras para continuá-las com mais vigor no dia seguinte. Mal comparado, um pouco como o Dia Europeu sem carros.
 Música angelical na tv e na rádio, coros a jorrar doçura e elevação celestial. Passa-se a mão pela cabeça das crianças, perdoam-se alguns inimigos, incita-se à esperança, beijam-se amigos e conhecidos num corre-corre entre lojas de montras convidativas, ornamentadas de entusiasmantes vermelhos, dourados e prateados, de luzes que brilham exageradamente sobre coisas que não precisamos. Abrem-se antecipadamente quermesses onde se vendem lavores e jarras para ajudar os pobrezinhos.
 Compreendo o fascínio das crianças, mas não o dos adultos. Sei que existem pessoas generosas o ano inteiro, e entendo que qualquer pretexto seja válido para reunir a família para uns "comes e bebes", sobretudo com o frio que faz lá fora, mas faz-me um pouco de confusão a partilha e comunhão com dias e horas marcados. Mas é algo de muito pessoal; nada contra a alegria e a festa do convívio, os presépios já sem musgo, a fé no calor da lareira, o cheiro a resina e a lenha. O bacalhau, a canja, o borrego, o leitão, as azevias de feijão ou batata doce, a cabidela, os frutos secos, as rabanadas, os sonhos...
 A questão é que não percebo o que pode haver para celebrar nesta altura de tanta crise. Muitas cantinas escolares estarão abertas para alimentar alunos carenciados e em alguns casos a própria família, e muita gente terá consoada devido à caridade alheia.
 O relógio do tempo que me atravessa faz com que o meu Natal viva, por um lado de recordações dos que partiram cedo demais e dos que adoro e estão geograficamente longe,  por outro lado, do regozijo pelo verdadeiro natal que aconteceu em mim há anos. Como um vulcão que tivesse soluçado e aberto crateras de luz na terra, e com ele eclodissem apenas sorrisos e a invenção de gestos de ternura antes desconhecidos, que durarão para sempre, em todas as horas da minha noite e do meu dia. Numa adoração da duração dos afagos quotidianos. Por isso o meu Natal é  também lembrança viva de histórias infantis contadas ao lado de um berço. Sem preces, ou fictícia alegria. Não é viver de lembranças, mas sabê-las como parte integrante da vida. 
 As borboletas duram pouco, mas continuaremos a amar todos os que já amamos. E quando da janela se observa a rua a movimentar-se em excitação de cânticos e estrelas luminosas, sei que a única luz está ou não dentro de nós. Botas secas ou molhadas, pés quentes ou gelados continuarão o destino do seu próprio milagre; a vida. A chuva e o sol continuarão a cair sobre as vides geladas e as figueiras carcomidas, sobre as avenidas iluminadas e os becos escuros de bebedeira e solidão. Não existirão mudanças depois de um Natal de justiça roubada e solidariedade ocasional. Desisti há muito de tentar decifrar a ortografia do mundo. Quero apenas viver e tentar tornar as coisas simples. Por isso o Natal é para mim a celebração do nascimento da minha filha. Existe entre nós um cordão umbilical invisível que dura desde um 24 de Dezembro e durará para sempre. Que não aprisiona porque feito de respeito e liberdade.
 Aos quatro anos já sabia ler, e o seu interesse por livros e filmes faz com que seja uma cinéfila sempre em cima do acontecimento, e uma leitora compulsiva. Nunca se perdeu de amores pela escola, porque muitas vezes tinha de corrigir professores, cozinha e escreve muito bem, e tem um talento para a pintura que infelizmente deixou de explorar. Mas a sua grande paixão é a Fotografia e Viagens. Tem um sentido de autonomia e independência ímpares. É criativa. É o meu grande amor.










Para ti, Sara, Amy Winehouse com a canção I saw Mommy Kissing Santa Claus



sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Como se...



 O firmamento parava nos meus olhos para te olhar. Como se a Primavera tivesse trazido as cores de todas as flores imperecíveis e os desígnios insondáveis do mundo e arredores. Dizias frases supostamente com sentido, e tomavas no teu o meu corpo como se não existisse a hora seguinte, e o amanhã pudesse ser remoto e adiável.
 Inventei em ti a frescura das manhãs e o mistério do movimento de translação da terra, a ondulação das giestas, os gestos quentes e atlânticos feitos de azul e mar. A certeza ilusória de um trilho em direcção ao sol poente, como anjo de asas cortadas que se tivesse esquecido de descobrir a claridade dos dias, mas se aventurasse na penumbra da noite. 
 Reconheci o teu respirar no meu, sempre que a lua se sentava distraidamente no meu peito quando adormecias e me encostava a ti, e  existia uma leve brisa feita de ternura que despertava em deslumbramento todos os silêncios. Uma brisa feita de oceanos de palavras não ditas, amarrotadas nos bolsos, e da opulência de mãos acesas que davam luz aos corpos e incendiavam a matéria. Pendurei no teu corpo o infinito, como se um momento tivesse em si a semente robusta de um dia claro e abrangente. Como se tudo existisse em ti...
 Suaves gotas de chuva tépida molham o regresso dos dias. Descubro-te ainda em cada arco-íris, como se fosses o sol que me ilumina aonde quer que vá. Como se um brado sereno travasse os movimentos antes incontidos das marés, e todos os rios só encontrassem agora o caminho para o orvalho do meu olhar. Todo o sentimento de ausência pode ser um longuíssimo adágio ou uma sinfonia descontínua de sons e imagens difusas que estremecem no ruído dos dias. Ou tímidos vazios imperiais de desalento. Lá fora a manhã vagarosamente se anuncia. Restos de noite sobem de mão dada com a densa neblina enquanto o meu corpo, mera superfície lavrada, desperta a lembrança do Verão fazendo soprar um bafo quente de tempo irrepetível.
 Continuas a caminhar nos meus passos com a leveza das aves anónimas que há muito voaram para longe, aladas na ventania que deixa para trás árvores decapitadas. Galopo contudo a crista da manhã como se me esquecesse de ser triste, e a tranquilidade da noite tivesse emprestado ao dia uma doce e serena resignação.



Uma animação de Louis Clichy  para a canção "À quoi ça sert l'amour?" com Theo Sarapo e Edith Piaf. 



sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A Estante


Livros são ternos e valiosos segredos. Deles não me livro.

  

                               Não existe espaço vazio naquela estante.
                               Grandes, pequenos, frágeis ou resistentes,
                               livros recentes ou de um tempo distante.
                               De folhas já soltas, coladas ou cosidas,
                               cheirando a novo ou há anos amarelecidas.
                               Epopeias e fábulas, antologias de poesia,
                               policiais, dicionários, abundantes tragédias,
                               longos ensaios, dementes farsas, filosofia.
                               Crime e mistério, contos e enciclopédias,
                               crónicas breves, sátiras, romances de amor,
                               psicologia, teatro, relatos de suspense, terror.
                               Alguns dificilmente tragados e digeridos,
                               outros que provaram ser de incrível sabor.
                               Apertados e  fechados, tão aborrecidos,
                               abertos, acariciados, calmamente felizes,
                               infelizes, amuados quando esquecidos;
                               se ignorados como velhas meretrizes...
                               Folhas, estradas, veredas que calcorreei
                               às quais desejo regressar constantemente
                               ou que de vez, para sempre abandonei...
                               Descobertos em recônditos alfarrabistas,
                               em grandes livrarias modernas e centrais,
                               anunciados em raras, atraentes revistas
                               ou dados a conhecer em grandes jornais.
                               Para consciências sonolentas ou despertas,
                               Leituras expectáveis ou tão imprevistas
                               com narrativas explícitas ou encobertas.

                               Como livro à minha cabeceira, tenho
                               um delirante bestiário por mim escrito,
                               e um caderno hilariante onde desenho
                               impressões amorais, pesadelo interdito.
                               Sobre o limiar do meu coração aberto
                               repousa suspenso um livro sem palavras
                               que quero ardentemente que tu abras.
                               Em idioma de loucos artistas e amantes;
                               breviário de orações profanas e terrenas
                               tímidas vogais, consoantes exuberantes
                               e um código rígido das minhas penas.

                                


De Loreena McKennitt, cantora e compositora canadiana, escolhi "Dante's Prayer" do álbum "The Book of Secrets" lançado em 1997.

  

                               

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Alexandre O'Neill


"Há mar e mar, há ir e voltar" *

 Alexandre Manuel Vahía de Castro O'Neill de Bulhões nasceu em Lisboa em 1924 e faleceu na mesma cidade em 1986.
 Co-fundador, com M. Cesariny e Augusto França, entre outros, do Grupo Surrealista de Lisboa em finais dos anos 40, movimento que se insurgiu contra o Neo-Realismo e contra o regime do Estado Novo. Sem militância política antes ou depois do 25 de Abril, a não ser uma breve passagem pelo MUD juvenil, foi vigiado pela PIDE e chegou a estar preso em Caxias em 1953, por ter ido esperar Maria Lamas à chegada do Congresso Mundial da Paz, em Viena.
Rapidamente abandona esse grupo, embora as tendências surrealistas tivessem ficado para sempre, numa obra que vai passando de um certo entusiasmo poético a uma certa decepção, que acaba por reflectir-se numa diversidade de formas e conteúdos carregados ora de ironia e sarcasmo, ora de humor negro, numa conjugação entre vanguardismo feito de surreal e de concreto, e outras influências literárias. Recusando a imagem de um proletariado heróico típico do Neo-Realismo, a sua escrita denuncia a hipocrisia e dor do quotidiano, alternando uma visão absurda com uma visão humorística da realidade, como forma possível de libertação. Temas como o amor, o tempo, a morte, o medo, ou o sonho, são nele tratados sem grandes lirismos ou dramatismos.
 Não conseguindo viver da sua produção artística, que incluía para além de poesia e prosa, discos de poesia, traduções (Brecht, Maiakowski ou Dostoievski), antologias de outros autores, guiões para cinema, televisão e peças de teatro, dedicou-se à Publicidade.
 Obras: "A Ampola Miraculosa"(1948), "Tempo de Fantasmas"(1951), "No Reino da Dinamarca"(1958), "Abandono Vigiado"(1960), "Poemas com Endereço"(1962), "Feira Cabisbaixa"(1965), "De Ombro na Ombreira"(1969), "As Andorinhas não têm Restaurante"(1970), "Entre a Cortina e a Vidraça"(1972), "A Saca de Orelhas"(1979),"Uma Coisa em Forma de Assim","Poesias Completas,1951-1981"(1981), "Poesias Completas 1951-1983"(1983), e "O Princípio de Utopia, O Princípio de Realidade seguidos de Ana Brites, Balada tão ao Gosto Popular Português & Vários Outros Poemas"(1986).
 De salientar duas antologias editadas pela ed. Assírio & Alvim; "Poesias Completas"com inclusão de dispersos(2000) e "Anos 70, Poemas Dispersos"(2005).
  Estátua de A. O'Neill no Parque dos Poetas, Oeiras


HÁ PALAVRAS QUE NOS BEIJAM

                                             Há palavras que nos beijam
                                             Como se tivessem boca.
                                             Palavras de amor, de esperança,
                                             De imenso amor, de esperança louca.

                                             Palavras nuas que beijas
                                             Quando a noite perde o rosto;
                                             Palavras que se recusam
                                             Aos muros do teu desgosto.

                                             De repente coloridas
                                             Entre palavras sem cor,
                                             Esperadas inesperadas
                                             Como a poesia ou o amor.

                                              (O nome de quem se ama
                                               Letra a letra revelado
                                               No mármore distraído
                                               No papel abandonado)

                                              Palavras que nos transportam
                                              Aonde a noite é mais forte,
                                              Ao silêncio dos amantes
                                              Abraçados contra a morte.

                                                                                     in No Reino da Dinamarca(1958)


O poema que transcrevi em cima é cantado por Cristina Branco. Adriana Calcanhotto também canta a Formiga Bossa Nova, a partir do poema de O'Neill "Velha Fábula em Bossa Nova", mas é muito melhor o poema "Gaivota" feito por A. O'Neill especialmente para a voz de Amália.


 O meu poema preferido é, no entanto Um Adeus Português, poema de 1958, do qual mostro aqui apenas a última estrofe. Um dos poemas demonstrativos da sua repulsa pelo regime, numa combinação de desespero e desilusão amorosa. A. O'Neill e Nora Mitrani conheceram-se e apaixonaram-se durante uma conferência sobre Surrealismo que ela veio fazer a Portugal em 1949. Quando meses mais tarde O'Neill se quis a ela juntar em Paris, não pode fazê-lo porque o seu passaporte tinha sido confiscado pela PIDE. Forçado a ficar em Portugal, nunca mais se viram.
Quando a procurou anos mais tarde, soube que ela se tinha suicidado em 1961.

                                                 Nesta curva tão terna e lancinante
                                                 que vai ser que já é o teu desaparecimento
                                                 digo-te adeus
                                                 e como um adolescente
                                                 tropeço de ternura
                                                 por ti.


*Um dos slogans publicitários de A. O'Neill que se transformou em provérbio.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A Arte da Surpresa



 Não creio que o segredo do mundo seja desvendado pela arte, mas considero que a arte nos segreda algo acerca do mundo. Algo de que poderíamos ter consciência não expressa, ou algo que pode surgir como novidade, como surpresa que apazigua a inquietação da existência. Precisamos do exercício da criatividade, porque a vida não nos responde a tudo; de facto não responde a quase nada, já que não responde ao essencial. Feita de conhecimento e imaginação, pode reduzir à insignificância o mundano e óbvio, e encher de sentido as pequenas coisas.
 Como diria A. Tchekov, "as obras de arte dividem-se em duas categorias; as de que gosto, e as de que não gosto", porque cada um na sua individualidade apreende a beleza a partir da sua própria singularidade, com sensibilidade diferenciada, com um olhar único, porque a beleza reside sempre nos olhos de quem a vê.
 Certo tipo de arte regressa de forma consciente ou inconsciente, a uma ingenuidade primitiva, a uma pureza de forma despojada de complexidade que a torna atractiva ao olhar numa beleza feita de simplicidade.
 Há quem defenda que a racionalidade é que nos torna humanos, eu defendo que a arte completa a ideia do que é humano, já que todo o acto criativo emerge de um pensamento e sentimento (o canto da sensibilidade) que se materializa. O resultado dessa obra , deve geralmente ser bebido devagar, e poderá funcionar como abertura e motivação, ou poderá, o que não é pouco, deslumbrar-nos em segundos. A arte não deve ser massificada, tal como não deve ter carácter particular mas universal. Não existe pior erro que tentar adequar a arte ao gosto geral, contudo existem objectos artísticos entendíveis pela maioria devido a uma linguagem de fácil percepção, como se toda a desordem tivesse sucumbido à ordem e à harmonia.
 Arte consiste também em retirar do feio a beleza, possibilitando a existência de uma estética do belo ou do horror; uma estética do encantamento ou da dor, como denúncia ou tentativa de catarse, porque a verdadeira arte não copia a aparência das coisas, mas a sua essência; o inconfundível.
A arte pode ser séria e sorumbática, mas também pode ser alegre e divertida.




 Desejemos que a arte seja uma reconfortante negação da rotina e do aborrecimento dos dias.
 A minha cidade não é propriamente efervescente em termos culturais, poderia dizer que entra até num estado de semi-letargia durante o Inverno, mas de vez em quando lá vai acontecendo alguma coisa que nos mantém acordados.
 Para além de um Centro Cultural com exposições diversas e espetáculos de teatro ou música, existe um Grupo Cultural, Um Grupo de Jazz, uma Academia de Música, um Grupo de Teatro Experimental, um Cinema, uma Biblioteca bem equipada, com ciclos de cinema e encontros de poesia. Foi também criado há vários anos um Laboratório de Actividades Criativas no edifício da antiga Cadeia, que para além de artistas locais nas áreas de escultura, pintura, arquitectura, cinema, musica, museologia e cerâmica, e organizando oficinas de Dança, Pintura ou Escrita Criativa, recebe também artistas visitantes. Em 2011 foi lançada 1ª edição de ARTURb IN MY WALL com o intuito de valorizar espaços públicos abandonados e geralmente degradados, envolvendo a participação de artistas nacionais e estrangeiros de Arte de Rua.



 Lagos é também uma cidade muito descontraída e receptiva a vários espetáculos de rua, ao que não é alheio o facto de ser uma cidade turística.
 Como escreveu um dia M. Quintana, "A gente deve sair à rua como quem foge de casa". E diria eu, que a arte foge do mundo para que a encontremos logo ali à nossa frente. Fui surpreendida esta semana, por esta singela galeria ao ar livre de rústicas figuras, junto às muralhas da cidade, muito perto da minha casa.
Causaram-me confortável sorriso de espanto e enriqueceram o meu dia. Fizeram parar o mundo por um momento. Surgiram como que do nada para me surpreender.







 Para rematar escolhi um vídeo com peças de João Cutileiro, escultor que informa a pedra bruta.  Um apaixonado pelo mármore e pelas formas femininas. Cutileiro viveu em Lagos entre 1970 e 1985. É dele a controversa estátua de D. Sebastião, no centro da cidade.




*ARTURb -arte urbana de artistas unidos em residência

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Réquiem a um poeta



                              

Um homem enorme morreu hoje.
Tocam os sinos do velho campanário.
Um homem que nasceu, mas não viveu
neste vil mundo de autêntico cenário.
A cidade veste-se solenemente de luto
acompanhando quem não se despediu,
 águas passam no antigo, alto aqueduto
nesta tarde escura e fria que adormece
em breve sono de cinzas, vazio absoluto;
toda enroscada já em desalento e prece.

Divagava sobre a beleza da Poesia,
sobre pequenas proezas masculinas,
em sintonia de realidade e alegoria.
Um vento repentino invade a serra,
 vida incerta traveste-se pelas esquinas
acorda a solidão que decide aparecer
 como soluço abafado saído da terra.
Um homem que abandonou o mundo
sem recado de intenção e sem aviso.
Esquecendo um suspiro moribundo;
aparentando ter partido de improviso.

Só dois amarelos cravos de defunto,
coisa barata, aroma rude e agreste,
lançados agora sobre o caixão, junto
da sombra acolhedora do cipreste.
Nem petúnias, nem vibrantes rosas
nem sagrada benção do azul celeste.
Nem finos versos, delicadas prosas.

Quem teria sido este homem...?
Seria um alegre velho, triste jovem?
Ou seria somente delirante poeta...
Altivo, belo príncipe, bravo guerreiro,
Vagabundo solitário, simples esteta.
De olhar brilhantemente aventureiro,
um peito profundo a rebentar de amor,
 doce encantador de musas, baladeiro,
  perfeito cavalheiro, imperfeito malfeitor?

Em mortalha, o seu corpo é já passado.
Um silêncio cúmplice abraça as árvores,
afaga de mansinho as almas deste lado
e ao longe sonora trovoada se anuncia.
O poeta dilui-se para sempre na paisagem.
O ar boceja na penumbra a morte do dia
enquanto uma luz se esconde na folhagem.



Ilustrar este poema com o Requiem de Mozart, Verdi, Fauré, Brahms, ou Domingos Bomtempo, seria um exagero, por serem composições longas. Por isso escolhi uma peça de um dos meus compositores preferidos; HeitorVilla-Lobos, O Canto do Cisne Negro.




sexta-feira, 8 de novembro de 2013

António Jacinto




 António Jacinto do Amaral Martins, filho de um casal  de colonos de Alfândega da Fé, nasceu em Luanda em 1924, e faleceu em Lisboa em 1991, aos 67 anos de idade. Reconhecido principalmente como poeta de protesto, foi também contista com o pseudónimo de Orlando Távora.
 Empregado de escritório e técnico de contabilidade, desde cedo exerceu actividade na vida política e cultural de Angola, colaborando também em alguns jornais e revistas. Devido à sua militância política contra o regime fascista e o colonialismo, foi condenado a catorze anos de prisão, dez dos quais cumpridos no campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde. Depois de breve passagem por Lisboa, fugiria para Argel e juntar-se-ia ao MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola). Com a independência, em 1975, seria nomeado Ministro da Educação e Cultura de Angola, cargo que ocupou até 1978.
 Co-fundador da União de Escritores Angolanos e membro do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola, recebeu o prémio Noma, o Prémio Lotus da Associação dos Escritores Afro-Asiáticos, e o Prémio Nacional de Literatura. O Instituto Nacional de Indústrias Culturais(INIC) criou um prémio literário com o seu nome.
 Obras: "Poemas"(1961), "Vovô Bartolomeu"(1979), "Poemas"(1982, ed. alargada), "Em Kilunje do Golungo"(1984), "Prometeu"(1987), "Fábulas de Sanji"(1988).
 Tenho por África e seus escritores e artistas um fascínio imenso. Um continente com inúmeras línguas e dialectos, com tanta diversidade cultural e ambiental. Um património histórico e natural que me encanta, com povos tão injustiçados ao longo da História. 


                                       
MONANGAMBÉ

                                    Naquela roça grande
                                     não tem chuva
                                     é o suor do meu rosto
                                     que rega as plantações;
                                    Naquela roça grande
                                     tem café maduro
                                     e aquele vermelho-cereja
                                     são gotas do meu sangue
                                     feitas seiva.
                               
                                   O café vai ser torrado
                                     pisado, torturado,
                                     vai ficar negro,
                                     negro da cor do contratado!

                                  Perguntem às aves que cantam,
                                    aos regatos de alegre serpentear
                                    e ao vento forte do sertão:

                                 Quem se levanta cedo?
                                   quem vai à tonga?
                                 Quem traz pela estrada longa
                                   a tipóia ou o cacho de dendém?
                                  Quem capina e em paga recebe desdém
                                   fuba podre, peixe podre,
                                   panos ruins, cinquenta angolares
                                  "porrada se refilares"?
                              
                                  Quem?
                                  Quem faz o milho crescer
                                    e os laranjais florescer?
                                   - Quem?
                                   Quem dá dinheiro para o patrão comprar
                                     máquinas, carros, senhoras
                                     e cabeças de pretos para os motores?

                                   Quem faz o branco prosperar,
                                      ter barriga grande
                                      - ter dinheiro?
                                      - Quem?

                                    E as aves que cantam,
                                     os regatos de alegre serpentear
                                     e o vento forte do sertão
                                     responderão:
                                   
                                    -"Monangambééé..."

                                    Ah! Deixem-me ao menos subir as palmeiras
                                    Deixem-me beber maruvo
                                     e esquecer diluído
                                     nas minhas bebedeiras.

                                     - "Monangambéé..."


                                                                                   in Poemas (1961)

Monangambé- nome dado aos angolanos negros contratados para trabalhar nas roças dos brancos, no período colonial. Por vezes, deslocados de províncias muito distantes, sendo por isso afastados da família.
dendém- fruto do dendenzeiro, palmeira da qual se extrai o óleo de palma.
tonga- terra a ser lavrada, lavoura.
angolar- moeda oficial de Angola, entre 1926 e 1958.
maruvo- bebida resultante da fermentação da seiva da palmeira, uma espécie de aguardente. 

                               

Poema  musicado e cantado por Rui Mingas






sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Passa um rio





Descanso o olhar nas flores amarelas
Que epicamente tiritam de frio.
Pássaros chilreiam, deslumbram-se ao vê-las.
Incontinente acelera veloz um rio.
Existirão barcos e viagens,
Veredas sem paragens
Que levam a lugar incerto.
Aqui me perco nestas margens.
Águas correm de longe para perto
Saltitando nas pedras em torrente.
Passam agora distraidamente por mim.
Que é feito de ti vontade ausente,
 Dos teus lugares e rios, da liberdade
Do tempo efémero e sem fim
   Ancorado a teus pés em eternidade?




"Ao Longo de Um Claro Rio de Água Doce", Fausto Bordalo Dias




sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Teias de Aranha


             "Ninguém nasce mulher, torna-se mulher"(Simone de Beauvoir)               




 A sociedade assenta erradamente numa desigualdade de género. Ser homem ou ser mulher resulta de uma construção social que embora tendo sofrido alterações progressivas ao longo do tempo, com atenuação e quase erradicação das diferenças em certos países, continua com a perpétua discriminação em muitos outros.
 Estamos ainda, do ponto de vista global, entre a realização de uma utopia (Igualdade), e a frustração pela sua não realização em muitos cantos do mundo; uma questão de ruas tão estreitas e fundas, becos labirínticos de fácil entrada mas muito difícil saída.
 Não vou aqui falar da situação dos países nórdicos, geralmente apontados como respeitadores e incentivadores de igualdade, mas de muitos outros locais, onde a mulher é ainda considerada, não necessariamente pela Lei, mas pelos costumes e tradições, e pela religião, como um ser de categoria inferior. Fenómeno típico de sociedades pouco desenvolvidas e caóticas, e como sabemos todo o caos tem em si próprio uma ordem que convém ser mantida, nas quais a mulher é vista como um ser frágil que só existe em função de alguém.
 Quem não aceita a independência da mulher, não lhe reconhece verdadeiramente qualidades e potencialidades, concepção transmitida de geração em geração de que a fêmea poderá estar sempre a meio caminho entre a virtude e o pecado, como ente supostamente em risco que necessite da protecção de um ser superior que lhe evite qualquer erro ou deslize, em relação ao que deve ser o seu comportamento sócio-familiar. Raparigas deverão ruborizar quando deixam a sua mente vaguear entre os seus desejos mais íntimos, porque desde a longínqua história da maçã, a culpa desceu divinamente sobre elas, como se o encanto e sedução natural de uma mulher fosse algo de urgente anulação, numa desvalorização de toda a sua vontade, impedindo-a tantas vezes de ter uma vida laboral e social, sem direito a autonomia e auto realização. Ideia arreigada de que o homem, supremo chefe, o grande conquistador social e sexual tem de controlar a "sua" mulher, numa lógica absurda do "manda quem pode, obedece quem deve", princípio de autoridade enfeitado de ciúme, por vezes valorizado pela mulher como sinal de amor, quando na generalidade não passa de um intrínseco e disfarçado desejo de propriedade; herança de quando a mulher era equiparada a camelos, vacas e ovelhas. Querer uma pessoa não significa amá-la. Um mundo de homens que deixou em muitos países as mulheres nas margens como sub-categoria, numa relação paradoxal que não permite aos homens a sua verdadeira humanidade, porque uma relação de poder aniquila opressor e oprimido.
 As mulheres continuam a ser as grandes responsáveis pela educação dos filhos, e no entanto algumas transmitem-lhes, sem disso se darem conta, esteriótipos sobre o papel da filha e do filho, dentro de casa e fora dela, numa sociedade com múltiplas dificuldades a superar por ambos os sexos. Pais e mães tendem geralmente a considerar, de forma quase instintiva, que as meninas devem ser gentis, dóceis e arrumadas. Devem ter gosto pelas tarefas domésticas em geral, mesmo que essa vocação não exista. É por isso expectável que uma mulher trabalhando fora de casa seja uma dona de casa responsável pelo bem-estar de todo o agregado familiar.
 Certos pais teimam em pensar que é "natural" um rapaz não ter tendência para limpar ou arrumar, como se tudo o que fosse monótono e aborrecido dentro de casa, tivesse de ser executado por uma mulher supostamente predestinada desde o útero a manter os aposentos, a cama e a mesa em ordem para o seu senhor.
Todos estes erros de educação poderão fazer com que este rapaz guarde em si a falsa ideia de que as tarefas domésticas nada custam, que não são trabalho em si mesmas, que a casa aparecerá a brilhar num golpe de magia de uma qualquer fada do lar. 
Teias de aranha acumular-se-ão um dia dentro de casa e nas cabeças de alguém, porque já não existe ou nunca existiu ternura nem cumplicidade atrevida, e de um clima de solidão acompanhada onde a indiferença causou desgaste irremediável, desemboca-se por vezes em tensão conflituosa e hostilidade que pode conduzir à violência psíquica e física em terreno já minado por sentimentos de vergonha e auto estima inexistente. Fenómeno difícil de solucionar porque a violência é exercida no silêncio das casas, muitas vezes por homens afáveis no trato social.
 Não por acaso alguém disse que "as tragédias acabam em morte, as comédias em casamento", mas quantas vezes os casamentos, celebrados a partir dum suposto amor, se transformam em amargura e autênticas tragédias...
 Uma queixa às autoridades é a única possibilidade de acabar com uma situação de prepotência e crueldade, e partir para uma vida futura sem uma pessoa de carácter medíocre a poluir a atmosfera familiar, procurando um sentido livre do embuste de palavras e actos.
 Que todas as mulheres vítimas de abuso tenham a coragem de surgir nuas de preconceitos, e envoltas num manto de verdade que só pode começar dentro de cada uma delas. Para que possam maravilhar-se com a essência esquecida da qual são feitas e apreciar dentro e fora delas a dimensão de todas as coisas.



" Woman is the Nigger of the World", John Lennon




sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Ramos Rosa


"Vivi tanto que já não tenho outra noção de eternidade 
que não seja a duração da minha vida"
                                                               in "Em torno do Imponderável", 2012)


 António Vítor Ramos Rosa foi poeta e tradutor, ensaísta e talentoso desenhador. Nascido em Faro em 1924, faleceu em Setembro deste ano em Lisboa, aos 88 anos. Impossibilitado de terminar os estudos secundários por motivos de saúde, acabaria no entanto por dedicar-se tão exaustivamente à leitura e ao estudo que viria a ser recompensado pela sua auto-formação, ao conceber uma obra poética das mais extensas e ricas da poesia portuguesa contemporânea.
Durante alguns anos empregado de escritório, pertencem a essa fase os célebres poemas "Poema de um Funcionário Cansado" e "Boi de Paciência", sobre a monotonia do quotidiano.
Ensinou Português, Inglês e Francês, e traduziu autores estrangeiros para várias editoras. Homem "tímido e discreto" segundo Júlio Pomar, ambos opositores ao Salazarismo e presos pela PIDE, não  impediu contudo Ramos Rosa de fundar algumas revistas literárias e colaborar em muitas outras, ao longo dos anos.
 Escreve o primeiro livro em 1958, aos 34 anos, e a partir daí a sua produção literária crescerá a um ritmo impressionante. Uma poesia pouco rebuscada, de certa forma elementar, de vocabulário rarefeito e rigor construtivo com laivos de contaminação filosófica, procurando em singularidade a reconciliação com o mundo ao recriá-lo poeticamente, num tipo de elaboração que salienta erótica e sensualmente as formas da mulher ou da natureza.
 Um poeta que tentou superar a usual dicotomia facilitista entre a poesia 'social' e a poesia 'pura', defendendo que o trabalho incisivo sobre a linguagem, seria independente do empenhamento em questões sociais. Amante da liberdade e não alheado do confronto com o que a realidade tem de opressivo, a sua visão do mundo e das coisas adquirirá ao longo do tempo um lirismo projectado numa linearidade feita de suavidade e de luz.
Autor de cerca de cem obras, destacarei apenas "O Grito Claro"(1958), "Poesia, Liberdade Livre"(ensaio,1962), "O Ciclo do Cavalo"(1975), "A Poesia Moderna e a Interrogação do Real"(ensaio, 1979), "Volante Verde"(1986), "Nomes de Ninguém"(1997), "Deambulações Oblíquas"(2001), "Em Torno do Imponderável"(2012).
 Casado com a escritora Agripina Costa Marques, recebeu tantos prémios literários que aqui apenas destacarei o Prémio Pessoa em 1988.




NÃO POSSO ADIAR O AMOR

                                     Não posso adiar o amor para outro século
                                     não posso
                                     ainda que o grito sufoque na garganta
                                     ainda que o ódio estale e crepite e arda
                                     sob montanhas cinzentas
                                     e montanhas cinzentas

                                     Não posso adiar este abraço
                                     que é uma arma de dois gumes
                                     amor e ódio

                                     Não posso adiar
                                     ainda que a noite pese séculos sobre as costas
                                     e a aurora indecisa demore
                                     não posso adiar para outro século a minha vida
                                     nem o meu amor
                                     nem o meu grito de libertação

                                     Não posso adiar o coração

                                                                                in "O Grito Claro", (1958)




Uma animação de Bradley Bell baseada no poema " The  Laughing Heart" de Charles Bukowski, na voz de Tom Waits




                                         PARA UM AMIGO TENHO SEMPRE

                                   Para um amigo tenho sempre um relógio
                                   esquecido em qualquer fundo de algibeira.
                                   Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
                                   São restos de tabaco e de ternura rápida.
                                   É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
                                   É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

                                                               in "Viagem Através duma Nebulosa", 1960