Setembro que acolhe as lembranças do Verão
nos dias mais curtos de um Outono
ainda adormecido nas fraldas do fim do mês
em velho berço numa cidade soluçando com sono.
Setembro do concubinato da erva seca
com as rubras folhas cadentes
dormentes num chão de tardes quentes
que não desejam partir
encenando um hesitante e maduro adeus
feito de brancas nuvens mescladas de cinza.
Setembro de um prelúdio de Chopin nos rios
antecipando o falso improviso
da debandada de coreográficas aves
à ameaça dos inesperados frios
quando o meu corpo se arrepia
com a chegada distraída da noite
e as imagens translucidamente luminosas
se resignam timidamente à rejeição do sol
alheio a um caminho de sombras indefinidas.
Setembro das cálidas chuvas,
dos versos soturnos, das previsíveis rimas,
das robustas e mais doces uvas,
dos braços cansados nas vindimas.
Do andar devagar, do introspectivo divagar...
Das amoras secas que ficaram por colher
como lábios de uma qualquer mulher antiga e plebeia
na derradeira festa de província
quando a jovem humidade tece a sua teia
e o astro rei atravessou o equador
em direcção ao hemisfério sul.
Setembro de Jean Renoir e de Bacall,
da rendição do Japão aos Aliados,
dos poentes redondos onde deuses renegados
fecham os portões terrestres na fronteira
invisível entre a tristeza e a alegria,
e o culto das estações trespassa
todos os possíveis na fuga à melancolia.
Setembro dos espinhos e das últimas rosas,
de cores ocultas e afectuosas
que não ferem já o meu olhar
em tudo o que relembro.
Composta por Kurt Weill em 1938 e cantada por Billie Holiday, F. Sinatra, Sarah Vaughan e Lou Reed, entre outros, September Song foi a canção que escolhi, na interpretação de Ella Fitzgerald.
