quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Crepúsculo



"Meu coração é um pórtico partido
   Dando excessivamente sobre o mar" Fernando Pessoa



 Entorna-me de canto a noite e de silêncio o canto dos dias, para que eu seja capaz de sentir o som das tuas mãos sobre o meu peito e a saída de todas as barcas para o mar. Quando te debruças sobre mim assim, nada mais existe que um sopro trazido da maré baixa que se eleva pelas areias e penetra as correntes ancoradas no meu corpo, numa enchente de exigências como se os sentidos fossem donos de razão. O vento afaga as dunas enquanto o rosmaninho se curva ao peso de um solitário camaleão em lento caleidoscópio de cores que faz nascer em mim um pranto luminoso, feito de coisas pequenas que tinha esquecido quando as supostas coisas grandes se sobrepunham no altar de todas as urgências. Sortilégio dos sortilégios ter já esquecido o que fez de mim antigo marasmo de gente pouca, enleada num misto de encontro e desencontro na fugacidade dos instantes que passam.
 Voltei hoje a beber a luz do sol e a percorrer os caminhos que pensei perdidos. Nada é o que foi dantes, mas a minha pele reconhece o brilho que já teve e o mar revolto mansamente se calou. A serenidade voltou porque voltei a lembrar-me dela. Porque a vida só pode ser alegria se deixarmos os deuses entregues à sua própria adoração; mistérios fúteis que não perduram no renascimento da voz que me pertence quando a alvorada traz sobre mim um véu de tranquilidade e um brado sereno em seu regaço.
 O importante não é saber dos ventos e marés ou dos cardumes longe da costa,  entender  o entrelaçar das algas que dão à praia ou se o canto das sereias é mais poderoso que a vontade, mas entender as vagas que invadem o meu corpo, todo ele breve enseada sem praia ou cais e pássaros perdidos nos canaviais. Recantos onde meço a pulso as coisas feitas, na hora em que tudo é passageiro e um corcel de prata surge de mão dada com a noite, no preciso momento em que a tarde se ajoelha perante o dia e o brilho de todos os ocasos não consegue já ofuscar o meu olhar. À hora em que todas as barcas se recolhem.



La Mer, Charles Trenet


Não postarei em Outubro porque estarei a derreter-me toda com a visita da minha querida mana!

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Reciclagem


Esta cadeira chegou-me assim.

Depois de lixada  foi só colar um assento e pintar!

Esta foi a primeira cadeira que arranjei. Como não me tinha passado pela cabeça fazer post não tirei foto ao Antes. Teve de ser lixada com lixa para ferro porque tinha sido envernizada. Foi uma trabalheira!

Este banco com muitos anos que estava a precisar de uma pintura e de uma nova estofagem. Um banco de ferro que fazia parte do mobiliário do meu e do quarto da minha irmã quando éramos adolescentes.

Uma das poucas coisas que restaram dessa altura. Tenho hoje muita pena de me ter desfeito de uma cadeira também em ferro do mesmo conjunto.
Aproveitei  este tecido que acho que ficou bem, porque está na sala do computador, onde tudo está decorado em tons de bege, castanho, branco e terracota, numa miscelânea de objectos com muitas recordações e muitas, muitas fotografias pelos móveis e pelas paredes. E alguns quadros pintados pela minha filha.
O cavalete está ali a olhar para mim, e acho que vou começar também a utilizá-lo!





A MINHA CADEIRA

A minha cadeira favorita
tem braços, pernas, costas
 um colo suave onde me sento
para ler e descansar.
Quando o norte está nublado
viro a cadeira para o lado sul
para o ar quente e ondulado
onde a paisagem se veste de azul.
Os pés da minha cadeira não oscilam
enquanto os meus estão no ar,
e de tanto nela recordar
a minha cadeira predilecta
faz-me viajar.
Ser quieta preguiçosa atleta
de almofada.
Que doce é não fazer nada!...
Espreguiço-me lentamente 
nesta cadeira confidente
perto de uma parede branca
 e de um candeeiro amarelo.
Com um livro aberto sobre a anca
e na cabeça um universo paralelo.


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Fernanda de Castro


"Urgente é construir serenamente
         seja o que for, choupana ou catedral,
  é trabalhar a pedra, o barro, a cal
 é regressar às fontes, à nascente"
                                                                                                          in Urgente



 Maria Fernanda Teles de Castro e Quadros Ferro, poetisa, romancista e dramaturga portuguesa, nasceu em Lisboa a 8 de Dezembro de 1900, e faleceu na mesma cidade a 19 de Dezembro de 1994. Filha de um oficial da Marinha, estudou em Portimão, Figueira da Foz e Lisboa.
 Do casamento com António J. Tavares Ferro, Secretário da Propaganda Nacional, nasceu o filósofo e ensaísta António Gabriel de Quadros Ferro, e Fernando Manuel Teles de Castro e Quadros Tavares Ferro. A sua neta, Rita Ferro é também escritora.
 Fundou com o marido e outros autores a Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses, actual Sociedade Portuguesa de Autores. Foi também a fundadora da Associação Nacional  Parques Infantis, à qual presidiu. Traduziu peças de teatro, escreveu Poesia, Romance, Teatro e Literatura Infantil.
Foi autora do argumento do bailado Lenda das Amendoeiras , levado à cena pela Verde Gaio em 1940, companhia fundada como uma afirmação da portugalidade, e do argumento do filme Rapsódia Portuguesa, primeiro filme português em cinemascope.
Recebeu o Prémio Teatro Nacional D. Maria II, pela peça "Náufragos", o Prémio Ricardo Malheiros, e o Prémio Nacional de Poesia em 1969.
 Algumas obras :  "Antemanhã"(1919), "Náufragos"(1920), "O Veneno do Sol e Sorte" e "Jardim"(1928), "Nova Escola de Maridos"(1930), "A Pedra no Lago"(1943), "Maria da Lua"(1945), "Exílio"(1952), "Asa no Espaço"(1955), "África Raiz"(1966), "Poesia I e II"(1969), "Fontebela"(1973), "Ao fim da Memória" (Memórias entre 1906 e 1939, 1986), "Urgente"(1989), "Os Cães não Mordem"(obra editada postumamente). Traduziu também autores como Rainer M.Rilke, Katherine Mansfield, Pirandello e Ionesco.
 Alguns exemplos da sua escrita:
  

                       Bruno (rindo) - Quantos anos tens?
                       Teresa - Cem. (Rectificando) Dezoito.
                       Bruno - Estudas?
                       Teresa - Mais ou menos. Filosofia.
                       Bruno - Não digas mais nada, só suporto as pessoas enquanto posso imaginá-las como quero: vagas, fluídas, susceptíveis de desaparecer dum momento para o outro, como fantasmas ou miragens.

                                                                               in Os Cães não Mordem




                                                         MAIS UM DIA PERDIDO

                                Há dias em que tudo é sem remédio,
                                em que tudo começa e acaba torto.
                                Uma folha caiu :
                                era um pássaro morto.

                                Neblina. Fim de tarde. Fim de Outono.
                                Nada nos fala, nos atrai, nos chama.
                                Choveu, parou a chuva,
                                 ficou porém, a lama.

                                Um banco no jardim. Árvores nuas,
                                 um cisne velho, um tanque, água limosa,
                                 nem a relva ficou,
                                 quanto mais uma rosa.
  
                                 Há barcos, há gaivotas sobre o rio,
                                 e nas ruas há gente, há muitas casas.
                                 Mais um dia perdido:
                                 arrancaram-lhe as asas.

                                                                                 in "Urgente"




"Um Grande Amor", poema de Fernanda de Castro com música de Miguel Ramos, na voz de Tereza Silva Carvalho
"Um grande amor não cabe em nenhum verso"