sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Rosa Ramalho


"Têm-me roubado a louça mas não me roubam as mãos"



 Nascida Rosa Barbosa Lopes no ano de 1888 em São Martinho de Galegos, Barcelos, viria a ser conhecida como Rosa Ramalho, porque a sua avó costumava dizer àquele que viria a ser o seu pai; " Não saias daqui, põe-te à sombra dos ramalhos".
 De pai sapateiro e mãe tecedeira, embora tivesse começado a trabalhar o barro muito cedo, interromperia a actividade com o casamento aos dezoito anos, passando a dedicar-se aos sete filhos que teria e trabalhando como moleira ao lado do marido. Analfabeta, corajosa e com sentido prático da vida, "mulher do campo, igual a tantas outras, com uns olhos que não enganavam ninguém, e que eram absolutamente excepcionais de finura, de inteligência e de esperteza"*, a fama aconteceria já perto dos setenta anos de idade, depois da morte do marido, altura em que sairia do anonimato pela mão do pintor António Quadros. Uma relação que começaria com uma encomenda de uma fornada de peças, e se manteria ao longo dos anos permitindo a divulgação do seu nome e da sua arte como barrista.
 Seguidora da tradição da olaria figurativa de Barcelos no que diz respeito à temática (cenas da vida rural, animais, religiosidade), distinguir-se-ia pela originalidade possibilitada por uma imaginação prodigiosa, criando figuras de maior dimensão e misturando elementos, conferindo-lhes um cunho de cariz surrealista. Um mundo de cavaleiros, mulheres com corpo de animal, cristos, reis e rainhas, soldados, diabos, anjos,e animais monstruosos trazidos da infância para uma representação entre o dramático e o fantástico.
 Mais interessada na estrutura geral do que com o pormenor, só fazia cristos com cruz devido às encomendas e "dizia que estava sempre a trabalhar o barro porque lhe fazia bem à pele".*
 Receberia em 1968 a Medalha d'"As Artes ao Serviço da Nação" e ser-lhe-ia atribuído postumamente o título de Dama da Ordem de Sant'Iago de Espada. Muitas das suas obras encontram-se no Museu de Olaria de Barcelos, e em colecções particulares em Portugal e no estrangeiro.
 Com vida modesta até à sua morte em 1977, tem numa das suas netas, Júlia Ramalho, também uma conceituada barrista, a continuação da arte na família.
 "Rosa", escrito em 1988 é o último romance de uma Trilogia sobre a Mão, escrito por Mário Cláudio a partir de pessoas reais. Sobre a figura de Rosa disse Mário Cláudio: "No fundo, a Rosa Ramalho é a figura do norte português, é a fêmea do Norte de Portugal que vem desde a Idade Média, que se prolonga pelos nossos dias..."

*Alves Costa; um dos seus coleccionadores



Mulher-Sereia

Diabo

Cavaleiro

Animal fantástico

Homem a tocar viola

Rainha Santa Isabel

Última Ceia




 Uma curta entrevista que faz parte do Arquivo Sonoro da Rádio Difusão Portuguesa. Rosa Ramalho diz a Maria Leonor :"Fui descoberta, e foi assim, dali nunca tive mais sossego". Uma delícia!


Existe também um Documentário cujo link me foi gentilmente enviado por Fabiano, sobrinho-neto de Rosa Ramalho, no qual ela fala sobre a sua vida e sobre a sua actividade como ceramista. Vale a pena ver.




sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O Vulcão


"Por aqui não se passa sem que se sofra o calor do fogo" Dante Alighieri




                                        Da letargia nas entranhas da terra
                                        o deus do fogo despertou zangado.
                                        Liberto em fúria, rugindo rabugento
                                        de cinza, fumo, vapor. Turva o olhar
                                        torna abafada a respiração do vento.
                                        Ameaçando a vida rasgando colinas
                                        em explosão de lava, torrente ardente
                                        enquanto cavalos sacodem as crinas.
                                        Da boca da montanha surge sombra
                                         que empresta cor de noite à aragem,
                                         toma como refém o esplendor do sol
                                         lançando poeira na pele da paisagem.
                                         Do ventre da serra eleva até ao cume
                                         sangue bombeado que a terra pariu,
                                         desenha rubra estrada feita de lume,
                                         e desce a indefesa encosta como rio.
                                         A manhã vagarosamente escureceu
                                         e o brilho dos meus olhos se perdeu.
                                         Um flamingo jaz petrificado no sapal,
                                          futuro terreno fértil, lava arrefecida.
                                         O meu olhar que ardeu sente o sinal,
                                          é breve a combustão da minha vida.




  Beltane* Fire Dance de Loreena McKennitt. Do álbum "Parallel Dreams", 1989


* Beltane é um festival celta que marca o fim do Inverno através de rituais simbólicos que simbolizam a união entre o masculino e o feminino, a fertilidade da terra e os fogos do deus celta Belenus.



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Anna Akhmátova


"Bebo ao lar em pedaços, à minha vida feroz, à solidão dos abraços.
E a  ti, num brinde, ergo a voz... Ao lábio que me traiu, aos mortos 
 que nada vêem, ao mundo estúpido e vil,
A Deus, por não salvar ninguém." (Último Brinde, 1934)




 Anna Akhmátova, pseudónimo de Anna Gorenko, nasceu em Odessa em 1889 e faleceu em Leningrado em 1966. Considerada um dos mais importantes nomes da poesia acmeísta russa, começou a escrever aos onze anos de idade, embora como descendente da nobreza russa isso não fosse bem aceite pelo pai. Com a separação dos pais consegue continuar os estudos, tendo inclusive frequentado o curso de Direito que abandonaria para estudar Literatura.
 Em 1910 casa com o poeta Nicolai Gumilev que a incita a continuar a escrever, tendo começado a publicar pouco tempo depois. Influenciada por Racine e Pushkin, a sua obra tem como temas predominantes o tempo, no qual a memória adquire papel essencial, o destino da mulher sobretudo enquanto mãe, e as vivências numa sociedade repressiva e totalitarista. Composta inicialmente por pequenos poemas líricos, com a revolução bolchevique e posterior governo estalinista, a sua criação poética torna-se cruamente dramática e de uma clareza e precisão dolorosa, primeiramente devido ao fuzilamento em 1921, do já ex-marido e pai do seu único filho Lev, por supostas actividades contra-revolucionárias.


 Lev Gumilev seria preso e condenado a trabalhos forçados por conspiração anti-bolchevique em 1938, apenas por ser filho de um poeta já executado, tendo sido libertado em 1956. Entretanto Anna casaria com Nicolai Punin, também preso em 1949 e que acabaria por morrer em 1953 num campo de prisioneiros na Sibéria.
 Impedida de publicar entre 1925 e 1952, com um ligeiro interregno durante a Segunda Guerra Mundial para aproveitamento político da sua obra. Apesar de todas as dificuldades nunca considerou fugir do país como alguns dos seus contemporâneos literários. Estaline terá decidido atacá-la indirectamente através dos maridos e filho, e Akhmátova terá até escrito alguns poemas de louvor a Estaline para tentar salvar o filho. 
 O seu mais longo e poderoso poema, "Requiem" constituído por vários pequenos poemas, foi escrito entre 1935 e 1940, e retrata as atrocidades infligidas ao povo russo durante o estalinismo.
Aqui mostrarei apenas um excerto:


V

                                             Há dezassete meses choro
                                             chamando-te de volta para casa.
                                             Já me atirei aos pés do teu carrasco.
                                             És meu filho e meu terror.
                                             As coisas se confundem para sempre
                                             e não consigo mais distinguir, agora,
                                             quem é fera, quem é homem,
                                              e quanto terei de esperar até à tua execução.
                                              Só o que me resta são flores empoeiradas
                                              e o tilintar do turíbulo e pegadas
                                              que levam de lugar nenhum a parte alguma.
                                              E bem nos olhos me olha,
                                              com a ameaça de uma morte próxima,
                                              uma estrela enorme.
                                                                                     
                                                                                        (1939)


 Depois da morte de Estaline em 1953, a figura de Akhmátova seria aos poucos reabilitada. Em 1963 é escolhida para a Presidência do Sindicato Soviético dos Escritores, e nos anos seguintes é autorizada a deslocar-se a Itália para receber o Prémio Taormina, e a Oxford onde recebe um título honorário. A totalidade da sua obra só viria a ser publicada vinte anos depois da sua morte.
Dos poemas que conheço dela, este é o meu preferido:


HÁ NA INTIMIDADE UM LIMIAR SAGRADO

                                         Há na intimidade um limiar sagrado,
                                         encantamento e paixão não o podem transpor-
                                         mesmo que no silêncio assustador se fundam
                                         os lábios e o coração se rasgue de amor.

                                         Onde a amizade nada pode nem os anos
                                          da felicidade mais sublime e ardente,
                                          onde a alma é livre, e se torna estranha
                                          à vagarosa volúpia e seu langor lento.

                                          Quem corre para o limiar é louco, e quem
                                           o alcançar é ferido de aflição.
                                         Agora compreendes porque já não bate
                                          sob a tua mão em concha o meu coração.
                                                                                                  
                                                                                                         (1915)

                                                               in Só o Sangue Cheira a Sangue ( trad. de Nina
                                                                             Guerra e Filipe Guerra) 



 Como The Anna Akhmatova File, o interessante documentário realizado por Semion Aranovich tem 65 minutos, optei pela voz de Svetlana Loukine  com um pouquinho do "Requiem" de Anna Akhmátova.
                                                                                 
                                                       


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Reino do Sol








                                                                                Fotos de Elena Shumilova



Dois Meninos
                                                 
                                                 Meu menino tem nos olhos os mistérios
                                                 Dum mundo que ele vê e que eu não vejo
                                                 Mas de que tenho saudades infinitas.
                                                 (......)
                                                 Não sabe falar
                                                 Mas sabe fazer arabescos de sons
                                                 Que têm poesia.
                                                  (......)
                                                 Meu menino ama os cães
                                                 Os gatos, as aves e os galos
                                                 E fica horas sem fim
                                                 Enlevado a olhá-los.
                                                                     
                                                  Francisco Bugalho, in "Canções de Entre Céu e Terra" 




 A varanda é alta. Chega quase ao céu. De um lado e de outro, janelas sem fim. Paredes caiadas de uma intensidade branca contrastam com as asas da solitária borboleta que tenta segurar-se ao sol em dança de repentina ventania, resgatada no limite por amena aragem. Revestidas de heras povoadas por insectos inimagináveis, ora inebriados de luz, ora quietos na sombra ou viajando para a mata circundante. Edifício sem contornos definidos. Simples casa ou alto castelo rodeado de guerreiros e donzelas, fadas e duendes. Reino de príncipes e princesas, cavaleiros e trovadores, pequenos reis sem coroa nem trono. De piões, berlindes, esconde-esconde e cabra-cega. De fisionomia arquitectónica esbatida por recordações, mas de interior nítido e luminoso como a suave claridade dos dias de Maio. Todas as salas irradiam ternura, e o som de um piano quebra ocasionalmente, a mudez do tempo suspenso sobre um telhado vermelho, roxo e amarelo, matizado ainda por ninhos de aves jamais vistas. Lugar onde a chuva não molha, apenas refresca, e tudo em si tem uma razão. Porque a natureza em metamorfose é um templo no qual tudo acontece por artes mágicas de um secreto feiticeiro, e nela os olhos são obrigados a perder-se em contemplação.
 Território sem letras, palavras ou tabuletas, regida por infância de gestos. As crianças queimaram no centro da praça os últimos vestígios das palavras porque uma memória secular permite decifrar olhares e intenções. Inocência  de almas densas e corpos leves que flutuam ao sabor da descoberta de um mundo inicial embrulhado em invisível pano de linho que envolve afectos e delimita a fronteira ainda não calendarizada entre a fina névoa da manhã e o brilho solar na formosura da tarde.
 Derradeiras folhas secas fazem distraidamente no mato cama aos ouriços, e os ramos das árvores estremecem se uma garça-real neles pousa, numa música  feita de cavado silêncio para que pasmemos com a voz e o preceito das pequenas coisas; gigantescas na riqueza dos seus mistérios e na desassombrada vivacidade dos seus detalhes.
 A aurora faz germinar sementes e madressilvas enquanto os homens buscam na constância das horas de mansa fluidez o acerto que dá cor aos dias e religiosidade aos actos. Uma brisa serena deposita na pele das crianças um gosto adocicado de pólen e mel, quando pela manhã se encontram a sós com a graça e a timidez dos bichos, e deles apenas se separam em direcção à falua do Bom barqueiro que os espera na margem do lago.
Regressam ao entardecer e comem maçãs.



"O Beijo do Sol", peça musical baseada num canto tradicional do Quénia, incluído nos "Cantos da Babilónia", o último trabalho do maestro e compositor Pedro Osório, falecido em Janeiro de 2012.