Nasceu como fruto do acaso num barraco
de tosca imundície e fossas nas traseiras.
Entre cru desalento e garrafas de vinho,
Pão duro e bolorento, orgias de Baco
zangas, gritos, pancada e bebedeiras.
Criada na vergonha de palavra e gesto
acossada bem cedo por mãos invisíveis
em infância fria marcada pelo incesto,
uma sobrevivência rodeada de vícios.
O nada, a fuga, a realidade indefinida,
coragem colhida à beira dos precipícios
para manter sempre a cabeça erguida.
Trazia singular desenvoltura no andar
e aquela forma tão desprendida de falar
sobre as doces calmarias e os temporais.
De tudo o que era falso ou real prazer,
de florestas densas, estranhos animais.
Dona de sonora alegria espalhafatosa,
Própria de quem é triste ou inocente,
com cabelos ruivos presos numa rosa
troçando de cada proposta indecente.
Albergava no peito um vale de segredos,
suave regaço de vontades e desesperos,
confortável esconderijo para os medos.
Assediada por homens novos e velhos
Julgando assim poder comprar amor
em atitude contrária aos evangelhos.
Senhores severos sem brasa nem chama
esperados no quarto por suas senhoras.
A elas se juntariam pé ante pé na cama,
sem acordá-las, sempre a tardias horas.
Cristaleiras de prata, cristais e estanhos,
jarras coloridas sobre grandes mesas,
mulheres reféns entre desejos tamanhos.
Mármores de Itália, porcelanas chinesas,
janelas de onde furtivamente debruçadas
espreitam a fugaz passagem dos magalas
simulando sacudir tapetes de Arraiolos.
Damas a beber chá inglês com torradas
na penumbra de belas majestosas salas,
erectas em cadeirões dos anos vinte.
Em preciosas fragrâncias perfumadas
e vestuário do mais elevado requinte.
"Que enfado a vida destas senhoras"!
Dizem as criadas no baile da matiné,
ou depois da confissão ao domingo
felizes à saída da missa na santa Sé.
Geni e o Zepelim, canção que faz parte da "Ópera do Malandro",e que retrata muito bem a hipocrisia de sociedades decadentes assentes em podres pseudo-moralismos. Composta e cantada por Chico Buarque.


