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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Barracos e Palácios




                                        Nasceu como fruto do acaso num barraco 
                                        de tosca imundície e fossas nas traseiras.
                                        Entre cru desalento e garrafas de vinho,
                                        Pão duro e bolorento, orgias de Baco
                                        zangas, gritos, pancada e bebedeiras.
                                        Criada na vergonha de palavra e gesto
                                        acossada bem cedo por mãos invisíveis
                                        em infância fria marcada pelo incesto,
                                        uma sobrevivência rodeada de vícios.
                                        O nada, a fuga, a realidade indefinida,
                                        coragem colhida à beira dos precipícios
                                        para manter sempre a cabeça erguida.

                                        Trazia  singular desenvoltura no andar
                                        e aquela forma tão desprendida de falar
                                        sobre as doces calmarias e os temporais.
                                        De tudo o que era falso ou real prazer,
                                        de florestas densas, estranhos animais.
                                        Dona de sonora alegria espalhafatosa,
                                        Própria  de quem é triste ou inocente,
                                        com  cabelos ruivos presos numa rosa
                                        troçando de cada proposta indecente.
                                        Albergava no peito um vale de segredos,
                                        suave regaço de vontades e desesperos,
                                        confortável esconderijo para os medos.
                                        Assediada por homens novos e velhos
                                        Julgando assim poder comprar amor
                                        em atitude contrária aos evangelhos.

                                        Senhores severos sem brasa nem chama
                                        esperados no quarto por suas senhoras.
                                        A elas se juntariam pé ante pé na cama,
                                        sem acordá-las, sempre a  tardias horas.
                                        Cristaleiras de prata, cristais e estanhos,
                                         jarras coloridas  sobre grandes mesas,
                                         mulheres reféns entre desejos tamanhos.
                                        Mármores de Itália, porcelanas chinesas,
                                         janelas de onde furtivamente debruçadas
                                        espreitam a fugaz passagem dos magalas
                                        simulando sacudir tapetes de Arraiolos.
                                        Damas a beber chá inglês com torradas
                                        na penumbra de belas majestosas salas,
                                        erectas em cadeirões dos anos vinte.
                                        Em preciosas fragrâncias perfumadas
                                        e vestuário do mais elevado requinte.
                                        "Que enfado a vida destas senhoras"!
                                         Dizem as criadas no baile da matiné,
                                         ou depois da confissão ao domingo
                                         felizes à saída da missa na santa Sé.



Geni e o Zepelim, canção que faz parte da "Ópera do Malandro",e que retrata muito bem a hipocrisia de sociedades decadentes assentes em podres pseudo-moralismos. Composta e cantada por Chico Buarque. 
                                     
                                        
                                         
                                        

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Teias de Aranha


             "Ninguém nasce mulher, torna-se mulher"(Simone de Beauvoir)               




 A sociedade assenta erradamente numa desigualdade de género. Ser homem ou ser mulher resulta de uma construção social que embora tendo sofrido alterações progressivas ao longo do tempo, com atenuação e quase erradicação das diferenças em certos países, continua com a perpétua discriminação em muitos outros.
 Estamos ainda, do ponto de vista global, entre a realização de uma utopia (Igualdade), e a frustração pela sua não realização em muitos cantos do mundo; uma questão de ruas tão estreitas e fundas, becos labirínticos de fácil entrada mas muito difícil saída.
 Não vou aqui falar da situação dos países nórdicos, geralmente apontados como respeitadores e incentivadores de igualdade, mas de muitos outros locais, onde a mulher é ainda considerada, não necessariamente pela Lei, mas pelos costumes e tradições, e pela religião, como um ser de categoria inferior. Fenómeno típico de sociedades pouco desenvolvidas e caóticas, e como sabemos todo o caos tem em si próprio uma ordem que convém ser mantida, nas quais a mulher é vista como um ser frágil que só existe em função de alguém.
 Quem não aceita a independência da mulher, não lhe reconhece verdadeiramente qualidades e potencialidades, concepção transmitida de geração em geração de que a fêmea poderá estar sempre a meio caminho entre a virtude e o pecado, como ente supostamente em risco que necessite da protecção de um ser superior que lhe evite qualquer erro ou deslize, em relação ao que deve ser o seu comportamento sócio-familiar. Raparigas deverão ruborizar quando deixam a sua mente vaguear entre os seus desejos mais íntimos, porque desde a longínqua história da maçã, a culpa desceu divinamente sobre elas, como se o encanto e sedução natural de uma mulher fosse algo de urgente anulação, numa desvalorização de toda a sua vontade, impedindo-a tantas vezes de ter uma vida laboral e social, sem direito a autonomia e auto realização. Ideia arreigada de que o homem, supremo chefe, o grande conquistador social e sexual tem de controlar a "sua" mulher, numa lógica absurda do "manda quem pode, obedece quem deve", princípio de autoridade enfeitado de ciúme, por vezes valorizado pela mulher como sinal de amor, quando na generalidade não passa de um intrínseco e disfarçado desejo de propriedade; herança de quando a mulher era equiparada a camelos, vacas e ovelhas. Querer uma pessoa não significa amá-la. Um mundo de homens que deixou em muitos países as mulheres nas margens como sub-categoria, numa relação paradoxal que não permite aos homens a sua verdadeira humanidade, porque uma relação de poder aniquila opressor e oprimido.
 As mulheres continuam a ser as grandes responsáveis pela educação dos filhos, e no entanto algumas transmitem-lhes, sem disso se darem conta, esteriótipos sobre o papel da filha e do filho, dentro de casa e fora dela, numa sociedade com múltiplas dificuldades a superar por ambos os sexos. Pais e mães tendem geralmente a considerar, de forma quase instintiva, que as meninas devem ser gentis, dóceis e arrumadas. Devem ter gosto pelas tarefas domésticas em geral, mesmo que essa vocação não exista. É por isso expectável que uma mulher trabalhando fora de casa seja uma dona de casa responsável pelo bem-estar de todo o agregado familiar.
 Certos pais teimam em pensar que é "natural" um rapaz não ter tendência para limpar ou arrumar, como se tudo o que fosse monótono e aborrecido dentro de casa, tivesse de ser executado por uma mulher supostamente predestinada desde o útero a manter os aposentos, a cama e a mesa em ordem para o seu senhor.
Todos estes erros de educação poderão fazer com que este rapaz guarde em si a falsa ideia de que as tarefas domésticas nada custam, que não são trabalho em si mesmas, que a casa aparecerá a brilhar num golpe de magia de uma qualquer fada do lar. 
Teias de aranha acumular-se-ão um dia dentro de casa e nas cabeças de alguém, porque já não existe ou nunca existiu ternura nem cumplicidade atrevida, e de um clima de solidão acompanhada onde a indiferença causou desgaste irremediável, desemboca-se por vezes em tensão conflituosa e hostilidade que pode conduzir à violência psíquica e física em terreno já minado por sentimentos de vergonha e auto estima inexistente. Fenómeno difícil de solucionar porque a violência é exercida no silêncio das casas, muitas vezes por homens afáveis no trato social.
 Não por acaso alguém disse que "as tragédias acabam em morte, as comédias em casamento", mas quantas vezes os casamentos, celebrados a partir dum suposto amor, se transformam em amargura e autênticas tragédias...
 Uma queixa às autoridades é a única possibilidade de acabar com uma situação de prepotência e crueldade, e partir para uma vida futura sem uma pessoa de carácter medíocre a poluir a atmosfera familiar, procurando um sentido livre do embuste de palavras e actos.
 Que todas as mulheres vítimas de abuso tenham a coragem de surgir nuas de preconceitos, e envoltas num manto de verdade que só pode começar dentro de cada uma delas. Para que possam maravilhar-se com a essência esquecida da qual são feitas e apreciar dentro e fora delas a dimensão de todas as coisas.



" Woman is the Nigger of the World", John Lennon




quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Madrugada


MADRUGADA
   

Já todo o espanto morreu de surpresa
E a Primavera acusa a despedida 
Está já toda a tristeza sobre a mesa 
Está a morrer, a desabar a vida.

E sem querer mostrar a infelicidade
Dum dia que é a morte doutro dia
É já o derrocar da Humanidade,
Na manhã, no sol, em cada magia. 

E já cansada a agarrar o ar
Para depois sentir, chorar, calar
Nasce da mulher a última criança

Soltam as aves tristes madrigais,
Saem da Terra gemidos e ais;
É o diabo que ri, que canta e dança!