" O homem é um castelo feito no ar. O que ele tem de não existente, é o que lhe dá existência. O engano em que ele vive, é o que lhe dá vida. Toda a realidade do seu corpo se firma na mentira da sua alma."
Teixeira de Pascoaes
Teixeira de Pascoaes
Somos vítimas de uma séria sobriedade. De uma normalidade rasante que, de mãos dadas com a banalidade, nos faz povoar a vida de preconceitos todos os dias.
Encharcamo-nos de uma pretensa intelectualidade que não passa de mera soma de conhecimentos e graus, degraus para um estatuto, mas fechamo-nos ao mundo que aí está à nossa frente, pleno de mistérios e sedutor no chamamento.
Não existem tisanas ou secretos poderes, tágides ou bardos, corações em tumulto, ou estrofes escritas no silêncio da noite, que nos concedam a coragem de ser quem somos. O ideal foge, raramente regressa, e quando se viajou pelos astros, a redonda e pequena terra azul, parece um pântano; um lugarejo de sensações malditas que cavalo altivo transportou não se sabe como... Afogamo-nos na inocência de interditos, em liberdades impossíveis, em limites inevitáveis. Castram-nos e castramo-nos em enredos e receios que nos devoram a vontade.
Passamos a vida em contenção e abstinência, pecando por excesso ou por defeito. Será melhor o menos ou o mais? Devemos ser famintos, ou rebentar de abundância?... Somos tão reticentes ...Tentamos conter a seiva, o sémen, o riso e as palavras, numa sociedade que desconfia da franca alegria e faz apanágio do sacrifício. Que exaspera se os rios secam, que desespera se transbordam, que defende o apriosionamento em vez da libertação. Que rejeita que a natureza erre, se confunda, ou se exceda sem substanciais propósitos.
Tornemo-nos então, maníacos da decepção; mera consequência da nossa irresponsabilidade, ao construir castelos no ar, não tratando de estabelecer os respectivos alicerces. Prefiramos a mentirosa aparência das coisas ao seu real valor, porque somos o nosso próprio contra-senso, e o corpo pode ser uma cama desconfortável para a alma. Esvaziemo-nos de claras intenções, e afoguemos a inocente genialidade em monótona vulgaridade. Sobretudo que não ousemos pensar. Muito menos sentir. Não gostemos verdadeiramente de nada, e se amarmos, que o façamos com parcimónia. Preferível que tudo nos seja mais ao menos indiferente. Não olhemos à nossa volta, muito menos para dentro de nós, a não ser para que, a partir da nossa própria imagem no espelho, nos desintegremos e fiquemos diante de nós como não imaginávamos ; uma imensidão de átomos que se julgaram importante matéria. Esqueçamos a singularidade da qual somos feitos.
Existiu um rio onde mirei o meu olhar. Dois passos adiante, o rio não estava lá. Nem a minha imagem, nem eu.
O dia está triste?...Nem pensar!...É apenas o meu olhar a demorar-se em breve diáspora sobre um horizonte de estepes adormecidas.
De Don McLean, Castles in the Air.

