Estive indecisa entre "Ich hab dich lieb","Halt mich", mas decidi-me por "Ich will mehr", por ser uma canção mais enérgica. É do que todos precisamos; uma injecção de energia para o próximo ano quase a bater à porta...E pelas ondas.
José Carlos Pereira Ary dos Santos foi um dos grandes poetas portugueses (Lisboa 1937-Lisboa 1984).Nascido numa família burguesa enraizada na aristocracia,decide sair de casa por volta dos 16 anos de idade,e é também nessa altura que alguns dos seus poemas integram a Antologia do Prémio Almeida Garret, mas poderemos dizer que a sua verdadeira entrada na escrita se dá com "A Liturgia do Sangue".
A sua poesia chegaria facilmente ao grande público através de mais de 600 fantásticas letras para canções que ficaram célebres, tendo sido cantado por inúmeros artistas dos quais destaco Simone de Oliveira,Tonicha, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Carlos do Carmo, Amália, Maria Armanda,Tereza S. Carvalho, Maria da Fé, Dulce Pontes, Kátia Guerreiro, e muitos outros... Em 2009, Mafalda Arnauth, Susana Félix, Viviane e Luanda Cozetti prestaram-lhe homenagem com " Rua da Saudade".
Depois da sua morte foi-lhe atribuída a Grande Ordem do Infante D. Henrique,e o seu nome foi dado a um largo de Alfama, bairro onde viveu praticamente toda a sua vida.
Grande declamador expressou melhor que ninguém "As Portas que Abril Abriu".
Abril escancarou portas que ameaçam fechar-se num futuro próximo. Que poemas escreveria Ary, um homem sem papas na língua, na situação actual do país?...
De destaque na sua obra "Asas"(1953), "A Liturgia do Sangue"(1963, "Tempo da Lenda dasAmendoeiras"(1964), "Adereços, Endereços"(1965), "Insofrimento in Sofrimento"(1968), "Arydos Santos por Si Próprio"(1970), "Poesia Política"(1974), "Llanto para Alfonso Sastre y Todos"(1975), "As Portas que Abril Abriu"(1979), "O Sangue das Palavras"(1983), etc...
DESESPERO
Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.
Não eram meus dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.
Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
possesso desta raiva que me deu
A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o esperma que te dou, o desespero.
in "Liturgia do Sangue"
Letra de Ary dos Santos, música de F. Tordo na voz de Carlos do Carmo, "Estrela da Tarde"
Uma vida imensa de apenas 36 anos (Vila Viçosa 1894-Matosinhos 1930) abreviada devido a uma alma perturbada e sofredora, (experienciando ora estados de depressão, ora de exaltação), que conseguiu transformar o sofrimento em poesia pincelada de erotismo, feminilidade caprichosa e panteísmo.
Florbela Espanca foi uma das primeiras mulheres em Portugal a frequentar o ensino secundário. Inscreveu-se depois no curso de Direito da Universidade de Lisboa, licenciatura que não terminaria.
De destacar na sua obra o "Livro de Mágoas"(1919), o "Livro de Soror Saudade"(1923), "CharnecaemFlor" e "Reliquiae"( ambos editados postumamente em 1931).
Todos os seus sonetos foram reunidos em "Sonetos Completos",obra publicada em 1934, e sucessivamente reeditada. Com disse José Régio, existem "Mulheres com talento vocabular e métrico para talharem um soneto como quem talha um vestido..."
Afectada por uma neurose, não resistiu à terceira tentativa de suicídio. Faleceu no dia do seu aniversário, a 8 de Dezembro de 1930.
ALMA PERDIDA
Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma de gente,
Tu és talvez, alguém que se finou!
Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, a alma doente
Dalguém que quis amar e nunca amou!
Toda a noite choraste...e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!
Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh'alma
Que chorasse perdida em tua voz!...
in "Livro de Mágoas" ("Sonetos Completos")
Florbela Espanca tem sido cantada por artistas tão diferentes como Luísa Basto, Tereza Silva Carvalho, Luís Represas, Mariza, ou Fagner...Como tal, tendo dificuldade em escolher uma interpretação, prefiro chamar a atenção para o filme "Florbela" realizado por Vicente Alves do Ó, protagonizado por Dalila Carmo, Ivo Canelas e Albano Jerónimo.
Gerrit Komrij (1944-2012), um dos grandes escritores holandeses de todos os tempos. Nascido em Winterswijk, faleceu no início deste mês em Amesterdão, tendo vivido em Portugal desde 1984, de inicio em Trás-os Montes, durante cinco anos, tendo estabelecido depois morada definitiva em Vila Pouca da Beira (Oliveira do Hospital). Nasceu na Holanda, foi morrer à Holanda, mas foi seu desejo ser sepultado em Portugal.
Dono de uma extensa obra literária destaco apenas "Atrás dos Montes", "Um Almoço de Negócios em Sintra" e "Vila Pouca". Ver mais em http://pt.wikipedia.org/wiki/Gerrit_KomrijDele escolhi o seguinte poema.
TUDO CONTINUA
Aí se erguia uma parede em que toquei,
A parede foi demolida
O entulho serviu mais adiante de fundamento
Uma árvore plantei no meu jardim.
Que foi asfaltado. A cinco metros
De fundo, a raiz contém-se, amuada. Meio milénio se preciso. Um dia
Poeta e dramaturgo espanhol (1898-1936).Simpatizante de ideias de esquerda, foi acusado de "activista revolucionário" e assassinado durante a guerra civil espanhola.
Traduzir este poema seria uma traição.Por isso, eis o original.
PEQUEÑO VALS VIENÉS
En Viena hay diez muchachas,
un hombro donde solloza la muerte
y un bosque de palomas disecadas.
Hay un fragmento de la mañana
en el museo de la escarcha.
Hay un salón con mil ventanas.
Ay, Ay, Ay, Ay!
Toma este vals con la boca cerrada.
Este vals, este vals, este vals, este vals
de si, de muerte y de coñac
que moja su cola en el mar.
Te quiero, te quiero, te quiero,
con la butaca y el libro muerto,
por el melancólico pasillo,
en el oscuro desván del lirio,
en nuestra cama de la luna
y en la danza que sueña la tortuga.
Ay, Ay, Ay, Ay!
Toma este vals de quebrada cintura.
En Viena hay cuatro espejos
donde juegan tu boca y los ecos.
Hay una muerte para piano
que pinta de azul a los muchachos.
Hay mendigos por los tejados.
Hay frescas quirnaldas de llanto...
Ay, Ay, Ay, Ay!
Toma este vals que se muere en mis brazos.
Porque te quiero, te quiero, amor mio,
en el desván donde juegan los niños
sonãndo viejas luces de Hungria
por los rumores de la tarde tibia,
viendo ovejas y lirios de nieve
por el silencio oscuro de tu frente.
Ay, Ay, Ay, Ay!
Toma este vals, este vals del "Te quiero siempre"
En Viena bailaré contigo
con un disfraz que tenga cabeza de rio.
Mira que orillas tengo de jacintos!
Dejaré mi boca entre tus piernas,
mi alma en fotografias y azucenas,
y en las ondas oscuras de tu andar
quiero amor mio, amor mio, dejar,
violin y sepulcro, las cintas del vals.
A interpretação muito, muito livre, sem traição, de Leonard Cohen.
Natália Correia (São Miguel 1923-Lisboa 1993).Escritora e deputada à Assembleia da República entre 1980 e 1991, centrou a sua atenção na defesa dos direitos humanos , particularmente das mulheres e na defesa do património, tendo fundado conjuntamente com J. Saramago, A. Magalhães, M. da Fonseca e U. Tavares Rodrigues, a Frente Nacional para a Defesa da Cultura.
Eis um dos seus mais belos poemas, depois musicado e cantado por J. Mário Branco.
QUEIXA DAS ALMAS JOVENS CENSURADAS
Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
E um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola.
Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma duma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade.
Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos o prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência.
Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro.
Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós.
Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo.
Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Sonos vazios, despovoados
De personagens do assombro.
Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco.
Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que a procura.
Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante.
Dão-nos um nome e um jornal,
Um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino.
Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida. Nem é a morte.
in "Poesia Completa"
José Mário Branco a interpretar este poema extraordinário
Corsino Fortes nasceu no Mindelo (Ilha de S. Vicente), Cabo Verde, em 1933. Poeta e político cabo-verdiano, fez parte de vários governos do seu país e foi o primeiro embaixador de Cabo Verde em Portugal. De destacar a sua obra "Pão e Fonema" de 1974, e "Árvore e Tambor" de 1986.
HOJE CHOVIA A CHUVA QUE NÃO CHOVE
Canto II Quando a África incha seus músculos de sangue e secura Não há Sahel que não queime No coração da noite A sua salina de solidão Não há boca que não chova a sua gota de corpo e alma Nem gota De água doce que não seja Um espaço! para amar e habitar Por vezes! O relâmpago Escreve coisas vivas na boca do arquipélago E as ilhas soerguem-se pelo arquipélago das patas E vão De cratera em cratera Erguer Na boca das sementes A força contida dos vulcões Homem! deus é grande entre duas ilhas Se baleias emergem da gota do teu rosto Na ilha! A cicatriz de deus é grande Mas a ferida do homem é maior Canção! no arbusto da viola Que chove A lírica de deus é grande Mas a música do homem é maior Mulher! quando o céu da tua boca Arrasta o corpo da terra Até à goela da água longínqua A febre conta no arco-íris Da carne que sangra A montanha roída dos dentes... E da cicatriz da mão Brotam raízes Que vicejam a memória dos séculos. in "Árvore e Tambor"
Uma pequena homenagem a Cesária Évora, também ela nascida no Mindelo (1941-2011)