domingo, 4 de novembro de 2012

Florbela Espanca

                   
                                                     "Tens sido vida fora o meu desejo
                                                      E agora, que te falo, que te vejo,
                                                      Não sei se te encontrei...se te perdi.."


 Uma vida imensa  de apenas 36 anos (Vila Viçosa 1894-Matosinhos 1930) abreviada devido a uma alma perturbada e sofredora, (experienciando ora estados de depressão, ora de exaltação), que conseguiu transformar o sofrimento  em poesia pincelada de erotismo, feminilidade caprichosa e panteísmo.
 Florbela Espanca foi uma das primeiras mulheres em Portugal a frequentar o ensino secundário. Inscreveu-se depois no curso de Direito da Universidade de Lisboa, licenciatura que não terminaria.
 De destacar na sua obra o "Livro de Mágoas"(1919), o "Livro de Soror Saudade"(1923),  "Charneca em Flor" e "Reliquiae"( ambos editados postumamente em 1931).
 Todos os seus sonetos foram reunidos em "Sonetos Completos",obra publicada em 1934, e sucessivamente reeditada. Com disse José Régio, existem "Mulheres com talento vocabular e métrico para talharem um soneto como quem talha um vestido..."
 Afectada por uma neurose, não resistiu à terceira tentativa de suicídio. Faleceu no dia do seu aniversário, a 8 de Dezembro de 1930.



                                                            ALMA PERDIDA

                                                Toda esta noite o rouxinol chorou,
                                                Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
                                                Alma de rouxinol, alma de gente,
                                                Tu és talvez, alguém que se finou!

                                                Tu és, talvez, um sonho que passou,
                                                Que se fundiu na Dor, suavemente...
                                                Talvez sejas a alma, a alma doente
                                                Dalguém que quis amar e nunca amou!

                                                Toda a noite choraste...e eu chorei
                                                Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
                                                Que ninguém é mais triste do que nós!

                                                Contaste tanta coisa à noite calma,
                                                Que eu pensei que tu eras a minh'alma
                                                Que chorasse perdida em tua voz!...
                                                                             
                                                                    in  "Livro de Mágoas" ("Sonetos Completos")


Florbela Espanca tem sido cantada por artistas tão diferentes como Luísa Basto, Tereza Silva Carvalho, Luís Represas, Mariza, ou Fagner...Como tal, tendo dificuldade em escolher uma interpretação, prefiro chamar a atenção para o filme "Florbela" realizado por Vicente Alves do Ó, protagonizado por Dalila Carmo, Ivo Canelas e Albano Jerónimo.





4 comentários:

  1. Laura, quando a gente menos espera se depara com pessoas cultas e talentosas. Você faz um trabalho sério, quero com calma mergulhar nas suas postagens. Pablo Neruda, Florbela, (a infeliz),
    são alguns que também admiro muito.
    Fico feliz com sua visita pois, a lista dos que me compreendem é pequena.

    Um grande abraço!

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  2. Oh Arnaldo, bondade sua, eu não sou muito culta, apenas tento cultivar-me dia após dia. Quanto ao talento, agradeço as suas palavras mas acho que que é só sensibilidade em relação ao que me rodeia, e ao que me afecta directa ou indirectamente enquanto pessoa e mulher.
    Quanto ao trabalho sério, apenas tentei fazer um blogue que mostrasse o que eu gosto; os meus autores preferidos, e um pouco do que escrevo.
    Pablo Neruda é grande, como Florbela é grande (às vezes imagino o que ela não teria escrito mais, se não tivesse morrido tão jovem), e tantos outros... O que me fascina é que o conteúdo sobre o qual se escreve é sempre o "mesmo"; o amor, o desamor, a paixão, o desgosto, a desilusão, a perda, a dor, religação ou não religação ao mundo....contudo a forma é sempre diferente.Encanta-me observar a maneira como cada autor escreve acerca da "mesmidade", sobre o "humano", sobre a busca da felicidade, no fundo.
    Gostei muito dos seus poemas, e fiquei estupefacta com o facto de ter poucos comentários. Porquê?.....Acho que sei: você não fala de unhas de gel nem de vestuário, nem tenta rimar desesperadamente.....;-)
    Não tenho muito tempo (vê-se pelo tempo que levo a fazer novas postagens) mas irei ler com certeza o resto do seu blogue.
    Não sei se o compreendo, mas sei que gosto do que escreve.

    Retribuo esse abraço.

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  3. oi Laura....... grandiosa realmente.. eu conheci ela por uma coletanea de todas as obras de sonetos... maravilhei-me e naquela epoca como eu era muito envolto pela tristeza do amor e tudo mais ela foi minha maior inspiração.. ela fez o livro das magoas eu fiz o livro dos mortos rsrs sabe amo tudo que for poesia e destes mestres nem se fala.. bela homenagem aqui para ela e um lindo dia querida amiga bjs

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  4. É, grandiosa, realmente, E se estamos "na fossa", ao lê-la a identificação surgirá misturado com um grande deslumbramento.
    Obrigada, Samuel, um dia lindo também para si.

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