"Faz frio. Mas depois de uns dias de aguaceiros,
Vibra uma imensa claridade crua.
De cócoras, em linha, os calceteiros,
Com lentidão, terrosos e grosseiros
Calçam de lado a lado a longa rua" (...)
Cristalizações, Cesário Verde

O rei D. Manuel I mostrava-se aos súbditos apenas uma vez por ano, exactamente a cada 21 de Janeiro, dia do seu aniversário, daí a expressão "quando o rei faz anos...".
Incomodado com o facto do cortejo real, em trajes de gala e ricos adornos ficar usualmente sujo de lama, e devido à recente chegada de um rinoceronte branco que o transportasse pelas ruas, decide, na viragem do séc.XV para o séc.XVI, ordenar o calcetamento das ruas do percurso real para que o animal, de nome "Ganga", não sujasse as suas pesadas patas na lama. Com início na R. Nova dos Mercadores, a empreitada terá ficado cara devido ao transporte de granito do norte do país.
No sé. XVIII depois da destruição do terramoto de 1755, a reconstrução da cidade abandonou este tipo de revestimento, mas em meados do século seguinte, em 1842, foi realizada por decisão do Governador de Armas do Castelo de S. Jorge, uma calçada calcária nos moldes como hoje a conhecemos. A partir desta altura foram concedidas verbas para que o Governador do Castelo, Eusébio Furtado, empreendesse a pavimentação de toda a Praça do Rossio, prática que viria a espalhar-se por todo o país e colónias como moda e ideal de bom gosto, aliando utilidade a sentido estético.
Em praças, passeios, ruas pedonais, nos mais variados espaços públicos e até privados, a calçada portuguesa, maioritariamente utilizada em Portugal e nos países lusófonos, atravessou fronteiras e existe actualmente um pouco por todo o mundo. Em calcário branco e negro ( embora na Madeira e Açores o basalto seja utilizado por ser comum na região), e ocasionalmente noutras cores, a calçada portuguesa passou com o tempo, de simples pavimentação de rua a arte decorativa.
Em 1986 foi criada por iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa, a primeira escola para calceteiros.
Monumento ao Calceteiro de Sérgio Stichini
E aí está o primeiro Código QR feito com pedras portuguesas. O Turismo de Portugal pensa em tudo menos no essencial. Devia lembrar-se de colocar a trabalhar os alunos qualificados que saem todos os anos das escolas de Hotelaria e Turismo. E já agora, também gostaria de saber quanto ganha um calceteiro...