"O coração se pudesse pensar, pararia". F. Pessoa, Livro do Desassossego
Caminho um chão de pó e pedra
de belas urzes e de cardos
onde já pouco medra.
O vento fustiga árvores nuas
e o meu cabelo ondulado
roda como cata-vento preso
no vermelho mortiço do telhado.
Apressada em mim avanço
num corpo quente e cansado
que suplica descanso.
Em mim corre lesta coragem
mais forte que o respeito
pelo medo perdido na aragem,
simples despropósito e razão.
Cravo as mãos no peito
tento dele retirar o coração,
oferecê-lo aos pássaros
que velozes passam.
Que o levem para longe,
dele se desfaçam.
Que o escondam na vegetação,
o deixem secar ao sol
de abandono ou inanição.
Aviso: Filme não aconselhável a quem gosta de animações lamechas.


