Mostrar mensagens com a etiqueta chuva. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta chuva. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Chuva







 Que seria da Primavera sem a chuva do Inverno?...Refresca-nos a alma e faz brotar os perfumes da terra.
    Maria, este humilde poema é para ti.


                                                     
                                             
                                                  CHUVA

                               
                               Águas caíram, galgaram a margem.
                               Não há nuvem que sempre dure
                               Nem leito de rio que perdure
                               Seco, não vibrante na paisagem.
                               Choveu. Mesmo agora.
                               Lá fora e dentro de ti.
                               Não há no entanto
                               Desencanto pelas fragas.
                               Apenas ecos dispersos pelo monte
                               Anunciando sem mágoas
                               A eterna juventude dos deuses
                               A cintilar em cada fonte.
                               Pardais partiram em debandada
                               Sacudindo as pesadas penas
                               Em esvoaçante, fulminante segundo;
                               Transportando p'lo imenso arvoredo
                               Gotas de luz p'ró interior do mundo.




Para este poema escolhi a canção "Chuva", uma criação do genial letrista e compositor Jorge Fernando, também magnifíco cantor, aqui na voz de Mariza. É muito verdade, "as coisas vulgares que há na vida não deixam saudade............."





                              
  

                           

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Corsino Fortes

 Corsino Fortes nasceu no Mindelo (Ilha de S. Vicente), Cabo Verde, em 1933. Poeta e político cabo-verdiano, fez parte de vários governos do seu país e foi o primeiro embaixador de Cabo Verde em Portugal. De destacar a sua obra "Pão e Fonema" de 1974, e "Árvore e Tambor" de 1986.


HOJE CHOVIA A CHUVA QUE NÃO CHOVE
                                                                    Canto II

    Quando a África incha seus músculos de sangue e secura
    Não há Sahel que não queime
    No coração da noite
    A sua salina de solidão

    Não há boca que não chova a sua gota de corpo e alma

    Nem gota
    De água doce que não seja
    Um espaço! para amar e habitar

    Por vezes! O relâmpago

    Escreve coisas vivas na boca do arquipélago

    E as ilhas soerguem-se

    pelo arquipélago das patas
    E vão

    De cratera em cratera

    Erguer
    Na boca das sementes
    A força contida dos vulcões

    Homem! deus é grande entre duas ilhas

    Se baleias emergem da gota do teu rosto

    Na ilha! A cicatriz de deus é grande

    Mas a ferida do homem é maior

    Canção! no arbusto da viola


    Que chove

    A lírica de deus é grande
    Mas a música do homem é maior

    Mulher! quando o céu da tua boca

    Arrasta o corpo da terra
    Até à goela da água longínqua
    A febre conta no arco-íris
    Da carne que sangra
    A montanha roída dos dentes...

    E da cicatriz da mão

    Brotam raízes
    Que vicejam a memória dos séculos.
                                                           
                                                         in "Árvore e Tambor"

Uma pequena homenagem a Cesária Évora, também ela nascida no Mindelo (1941-2011)


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Fernando Pessoa

                                                              

Um dos maiores poetas de sempre ( Lisboa 1988- ibid.1935). Funda em 1914, com outros intelectuais, a revista "Orfeu", e, em 1924 inicia e dirige a revista " Atena" de curta duração. Viveu uma existência apagada, num círculo restrito e fechado ao amor, deixando inédita quase a totalidade da sua obra literária. Concebeu ao todo 17 heterónimos, dos quais se destacam Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis.
Um excerto de " Chuva Oblíqua", um poema simplesmente grandioso.


CHUVA OBLÍQUA
I

Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas
Uma a uma dentro...

Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar é porto transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme
Que lá estivesse desdobrada, 
Esta paisagem toda, renque de árvores,
estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...