Reconstituição de uma cozinha tradicional alentejana no museu de Santiago do Cacém
A avó estaria no Largo da Igreja à nossa espera com abraços abertos e mãos calejadas a estalar de ternura. De longos cabelos entrançados num carrapito, cobertos com um lenço que imediatamente tirava ao entrar em casa, como se aquele lenço florido lhe pesasse na cabeça. Por ruas empedradas se chegava à casa desde manhã cedo tomada de assalto pelo desassossego da feira, o grande acontecimento do ano, que trazia ao local muitas vozes de gente e de animais.
No centro do quintal, nas traseiras, o verde do enorme limoeiro contrastava com a cal das paredes da casa, e dos muros que apenas deixavam pressentir as copas de algumas oliveiras, chaparros, azinheiras, e velhas eiras nos campos que se estendiam a partir deste canto da aldeia. Os canteiros transbordavam de flores, e a água do poço , do lado direito, projectava luzes trémulas na parede entre a folhagem. Do lado esquerdo, a porta sempre aberta da "cavalariça", que para além de duas éguas e um burro, albergava também algumas galinhas.
A claridade e a quietude da casa, misturava-se em Setembro com o frenesim de carros e carroças, e a trepidação dos cascos do gado transacionado. Depois do almoço, os nossos olhos infantis saltitavam sobre bancas com os mais variados produtos e artefactos, mas o ponto alto era o baile da matiné ao som de concertina, num grande salão onde as mulheres se sentavam nas cadeiras encostadas à parede, e os homens se mantinham de pé, à entrada, até que lhes levedasse a afoiteza para convidar as raparigas a um pé de dança.
À noite todo o brilho do dia se condensava nos candeeiros a petróleo, uma luz difusa e morna que afagava o escaparate com tachos de cobre, os alguidares de barro, a enfusa com água fresca, e as panelas de ferro sobre a trempe, na lareira onde a avó fazia as migas com carne de porco, e depois o café. Passaríamos o serão a jogar às cartas, enquanto o avô, que não gostava de perder "nem a feijões", preferia afastar-se com a viola campaniça pela mão, algo que sempre fazia quando queria evitar fazer qualquer outra coisa.
Adormecíamos sobre uma enorme arca atulhada de sacas de cereais, acolchoada por uma manta de lã bege e castanha, tecida em pequeno tear, relíquia que o avô teria levado para a tropa, e que hoje guardo. Na soleira da porta da cozinha continuaria a dedilhar com mestria as dez cordas do instrumento, até que a avó delicadamente lhe pedisse que não fizesse barulho por serem horas de deitar. Porque as grandes sensações do mundo repousavam já, debaixo do limoeiro. No tempo em que tudo era perfeito.
Da série documental "O Povo que Canta" do etnomusicólogo Michel Giacometti, um excerto do programa " A Viola Campaniça e o Despique no Baixo Alentejo", de 1971.
























