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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

A visita


Reconstituição de uma cozinha tradicional alentejana no museu de Santiago do Cacém


 Por altura da feira anual, a mãe costurava os mais belos vestidos para estrearmos no regresso ao Alentejo. Embora o insuportável cheiro a gasóleo da "camioneta da carreira" me provocasse náuseas, os milagrosos sais de frutos estariam à chegada, pousados sobre a mesa. Que bom era voltar à aldeia!
 A avó estaria no Largo da Igreja à nossa espera com abraços abertos e mãos calejadas a estalar de ternura. De longos cabelos entrançados num carrapito, cobertos com um lenço que imediatamente tirava ao entrar em casa, como se aquele lenço florido lhe pesasse na cabeça. Por ruas empedradas se chegava à casa desde manhã cedo tomada de assalto pelo desassossego da feira, o grande acontecimento do ano, que trazia ao local muitas vozes de gente e de animais.
 No centro do quintal, nas traseiras, o verde do enorme limoeiro contrastava  com a cal das paredes da casa, e dos muros que apenas deixavam pressentir as copas de algumas oliveiras, chaparros, azinheiras, e velhas eiras nos campos que se estendiam a partir deste canto da aldeia. Os canteiros transbordavam de flores, e a água do poço , do lado direito, projectava luzes trémulas na parede entre a folhagem. Do lado esquerdo, a porta sempre aberta da "cavalariça", que para além de duas éguas e um burro, albergava também algumas galinhas.
 A claridade e a quietude da casa, misturava-se em Setembro com o frenesim de carros e carroças, e a trepidação dos cascos do gado transacionado.  Depois do almoço, os nossos olhos infantis saltitavam sobre bancas com os mais variados produtos e artefactos, mas o ponto alto era o baile da matiné ao som de concertina, num grande salão onde as mulheres se sentavam nas cadeiras encostadas à parede, e os homens se mantinham de pé, à entrada, até que lhes levedasse a afoiteza para convidar as raparigas a um pé de dança.
 À noite todo o brilho do dia se condensava nos candeeiros a petróleo, uma luz difusa e morna que afagava o escaparate com tachos de cobre, os alguidares de barro, a enfusa com água fresca, e as  panelas de ferro sobre a trempe, na lareira onde a avó fazia as migas com carne de porco, e depois o café. Passaríamos o serão a jogar às cartas, enquanto o avô, que não gostava de perder "nem a feijões",  preferia afastar-se com a viola campaniça pela mão, algo que sempre fazia quando queria evitar fazer qualquer outra coisa.
 Adormecíamos sobre uma enorme arca atulhada de sacas de cereais, acolchoada por uma manta de lã bege e castanha, tecida em pequeno tear, relíquia que o avô teria levado para a tropa, e que hoje guardo. Na soleira da porta da cozinha continuaria a dedilhar com mestria as dez cordas do instrumento, até que a avó delicadamente lhe pedisse que não fizesse barulho por serem  horas de deitar. Porque as grandes sensações do mundo repousavam já, debaixo do limoeiro. No tempo em que tudo era perfeito.



Da série documental "O Povo que Canta" do etnomusicólogo Michel Giacometti, um excerto do programa " A Viola Campaniça e o Despique no Baixo Alentejo", de 1971.


sexta-feira, 11 de abril de 2014

Agustina Bessa-Luís


"A existência do homem adulto não encerra senão monotonia. A paixão não procede das pessoas, mas de algo a que elas têm que obedecer para não cumprirem apenas uma vida sem impulso e sem fantasia."



 Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa, conhecida como Agustina Bessa-Luís, é uma das grandes escitoras portuguesas. Nasceu em 1922 em Vila Meã, região do Douro que influenciará fortemente a sua obra e  pode dizer-se que o seu despertar para a Literatura se deu em tenra idade, pela descoberta dos melhores autores franceses e ingleses aos quais teve acesso na biblioteca do avô materno.
 Estuda no Porto e em Coimbra, e a partir de 1950 fixa-se definitivamente no Porto, onde ainda reside. Colaborou em jornais e revistas, participou no programa da RTP "Ela por Ela" com Mª João Seixas, foi directora do jornal "O primeiro de Janeiro", membro da Autoridade para a Comunicação Social, e directora do Teatro Nacional D. Maria II, sendo actualmente membro da Academia Europeia das Ciências das Artes e das Letras, da Academia Brasileira de Letras e da Academia de Cências de Lisboa (Classe de Letras).
 Distinguida com a Ordem de Sant'Iago da Espada, com a Medalha de Honra da cidade do Porto, grau de Doutor Honoris Causa pela Fac. de Letras da Univ. do Porto, e grau de Oficial da Ordem das Artes e das Letras atribuído pelo governo francês, são tantos os prémios que salientarei apenas o Prémio Eça de Queirós, o Prémio Vergílio Ferreira, o Prémio do Festival Grinzane Cinema de Turim, e o Prémio Camões.
 Interessada pelo Romantismo de Camilo Castelo Branco, Eduardo Lourenço considerá-la-ia uma Neo-Romântica, embora a sua obra não possa ser inserida em nenhuma corrente literária específica.
 Excelente prosadora caracterizada por uma riqueza semântica que rejeita a superficialidade, num encadeamento de acção cuja linearidade dá por vezes lugar a saltos narrativos, a racionalidade e objectividade do discurso de personagens sempre fortes acaba por ser invadida por uma subjectividade que se faz sentir na abertura de caminhos possíveis pela mutabilidade espaço-temporal que implica transformação. Uma escrita com preocupações históricas, que visa livrar o passado do esquecimento, ficcionando-o.
 Não irei, nem de perto nem de longe , indicar todas as suas obras, divididas em Romances e Contos, Biografias, Teatro, Crónicas, Memórias, Ensaios e Literatura Infantil. Destaco apenas alguns romances:
 "Mundo Fechado"(1948), "Os Super-Homens"(1950), "A Sibila"(1954), "Os Incuráveis"(1956), "A Muralha"(1957), "O Susto"(1958), "Ternos Guerreiros"(1960), "O Sermão do Fogo"(1962), As Relações Humanas (trilogia escrita entre 1964 e 1966, que engloba "Os Quatro Rios", "A Dança das Espadas" e "Canção Diante de Uma Porta Fechada"), "Fanny Owen"(1979), "O Mosteiro"(1980), "Prazer e Glória"(1988), "Vale Abraão"(1991), "Um Cão que Sonha"(1997), "A Quinta Essência"(1999), O Princípio da Incerteza (trilogia escrita entre 2001 e 2003 que inclui "Jóia de Família", "A alma dos Ricos" e "Os Espaços em Branco"), "Doidos e Amantes"(2005), "A Ronda da Noite"(2006) é o seu último romance, a partir do qual se afastou da vida pública por motivos de saúde. 


Dos poucos livros que li dela, escolhi um excerto de "A Sibila", obra que lhe trouxe reconhecimento imediato após a sua publicação.



"É esta a mais grandiosa história dos homens, a de tudo o que estremece, sonha, espera e tenta, sob a carapaça da sua consciência, sob a pele, sob os nervos, sob os dias felizes e monótonos, os desejos concretos, a banalidade que escorre das suas vidas, os seus crimes e as suas redenções, as suas vítimas e os seus algozes, a concordância dos seus sentidos com a sua moral. Tudo o que vivemos nos faz inimigos, estranhos, incapazes de fraternidade. Mas o que fica irrealizado, sombrio,vencido, dentro da alma mais mesquinha e apagada, é o bastante para irmanar esta semente humana cujos triunfos mais maravilhosos jamais se igualam com o que, em nós mesmos ficará para sempre renúncia, desespero e vaga vibração. O mais veemente dos vencedores e o mendigo que se apoia num raio de sol para viver um dia mais, equivalem-se, não como valores de aptidões ou de razão, não talvez como sentido metafísico ou direito abstracto, mas pelo que em si é a atormentada continuidade do homem, o que, sem impulso, fica sob o coração, quase esperança sem nome.
 Eis Quina, exemplo de energias humanas que entre si se devoraram e se deram vida. Vaidade e magnífico conteúdo espiritual foram os seus pólos; equilibrando-se entre eles, percorreu um extremo e outro da terra, venceu e foi vencida..."
                                                                   A Sibila,1953




Alguns dos seus livros foram adaptados ao cinema por Manoel de Oliveira. Francisca ( a partir de "Fanny Owen"), O Convento ("As Terras do Risco"), Inquietude ("A Mãe de Um Rio"), Party e Vale Abraão.
João Botelho também levou à tela "A Corte do Norte". Escolhi Vale Abraão, um filme de 1993 com Leonor Silveira, Luis Miguel Cintra, Ruy de Carvalho e Diogo Dória. Uma espécie de Mme. Bovary duriense do séc.xx.


"Fim - o que resta é sempre o princípio feliz de alguma coisa."

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Reino do Sol








                                                                                Fotos de Elena Shumilova



Dois Meninos
                                                 
                                                 Meu menino tem nos olhos os mistérios
                                                 Dum mundo que ele vê e que eu não vejo
                                                 Mas de que tenho saudades infinitas.
                                                 (......)
                                                 Não sabe falar
                                                 Mas sabe fazer arabescos de sons
                                                 Que têm poesia.
                                                  (......)
                                                 Meu menino ama os cães
                                                 Os gatos, as aves e os galos
                                                 E fica horas sem fim
                                                 Enlevado a olhá-los.
                                                                     
                                                  Francisco Bugalho, in "Canções de Entre Céu e Terra" 




 A varanda é alta. Chega quase ao céu. De um lado e de outro, janelas sem fim. Paredes caiadas de uma intensidade branca contrastam com as asas da solitária borboleta que tenta segurar-se ao sol em dança de repentina ventania, resgatada no limite por amena aragem. Revestidas de heras povoadas por insectos inimagináveis, ora inebriados de luz, ora quietos na sombra ou viajando para a mata circundante. Edifício sem contornos definidos. Simples casa ou alto castelo rodeado de guerreiros e donzelas, fadas e duendes. Reino de príncipes e princesas, cavaleiros e trovadores, pequenos reis sem coroa nem trono. De piões, berlindes, esconde-esconde e cabra-cega. De fisionomia arquitectónica esbatida por recordações, mas de interior nítido e luminoso como a suave claridade dos dias de Maio. Todas as salas irradiam ternura, e o som de um piano quebra ocasionalmente, a mudez do tempo suspenso sobre um telhado vermelho, roxo e amarelo, matizado ainda por ninhos de aves jamais vistas. Lugar onde a chuva não molha, apenas refresca, e tudo em si tem uma razão. Porque a natureza em metamorfose é um templo no qual tudo acontece por artes mágicas de um secreto feiticeiro, e nela os olhos são obrigados a perder-se em contemplação.
 Território sem letras, palavras ou tabuletas, regida por infância de gestos. As crianças queimaram no centro da praça os últimos vestígios das palavras porque uma memória secular permite decifrar olhares e intenções. Inocência  de almas densas e corpos leves que flutuam ao sabor da descoberta de um mundo inicial embrulhado em invisível pano de linho que envolve afectos e delimita a fronteira ainda não calendarizada entre a fina névoa da manhã e o brilho solar na formosura da tarde.
 Derradeiras folhas secas fazem distraidamente no mato cama aos ouriços, e os ramos das árvores estremecem se uma garça-real neles pousa, numa música  feita de cavado silêncio para que pasmemos com a voz e o preceito das pequenas coisas; gigantescas na riqueza dos seus mistérios e na desassombrada vivacidade dos seus detalhes.
 A aurora faz germinar sementes e madressilvas enquanto os homens buscam na constância das horas de mansa fluidez o acerto que dá cor aos dias e religiosidade aos actos. Uma brisa serena deposita na pele das crianças um gosto adocicado de pólen e mel, quando pela manhã se encontram a sós com a graça e a timidez dos bichos, e deles apenas se separam em direcção à falua do Bom barqueiro que os espera na margem do lago.
Regressam ao entardecer e comem maçãs.



"O Beijo do Sol", peça musical baseada num canto tradicional do Quénia, incluído nos "Cantos da Babilónia", o último trabalho do maestro e compositor Pedro Osório, falecido em Janeiro de 2012.
                                                  



sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Celebridades de Portugal em 2013


                                                                    Nadir Afonso


 Ficamos esta semana a saber quais os assuntos mais pesquisados em Portugal através do Google durante este ano que está a chegar ao fim. O grupo musical One Direction, a Casa dos Segredos, a vila da Ericeira, o S.L.e Benfica, o Google Maps e o bolo de chocolate são alguns dos termos que lideram as várias listas de pesquisa, num conjunto em que Cristina Ferreira, apresentadora de televisão, a surfista brasileira Maya Gabeira, que infelizmente não teve sucesso ao tentar surfar uma onda gigante na Nazaré como a que Carlos Bule surfou, o tema Harlem Shake e as eleições autárquicas assumem protagonismo.
 As mortes de Georges Moustaki, Ramos Rosa, Peter O'Toole, Bigas Luna, José Luis Sampedro, Bana, Urbano Tavares Rodrigues, Nadir Afonso, Lou Reed, ou esse homem extraordinário que foi Nelson Mandela, deixaram-me um pouco mais a pesquisá-los quase como uma homenagem ao relembrá-los. Deparar-me com este top de celebridades teve uma certa piada. No fundo, nada de inesperado por aí além, mas surpreendeu-me que Érica Fontes, actriz porno de 22 anos de idade, da qual nunca tinha ouvido falar, suplantasse Cristiano Ronaldo como figura mais procurada na internet, ou até Tony Carreira, cantor tão popular. Achei delirante a tentativa de justificação de Érica Fontes em relação à escolha da sua profissão e a sua benevolente intenção de "abrir a mentalidade dos portugueses". Apreciei os golos de C. Ronaldo, que quase parecem levar o narrador Nuno Matos à loucura, e quanto a Tony Carreira, nada a dizer já que não é um cantor que faça parte da minha lista de preferências. 
   
                                        TOP DAS CELEBRIDADES

                                        1. ÉRICA FONTES 
                                        2. CRISTIANO RONALDO
                                        3. TONY CARREIRA


Poderia ter escolhido Lou Reed e "A Perfect Day", mas num ano em que milhares de portugueses voltaram a ter de emigrar, optei por Georges Moustaki. Le Métèque, uma letra lindíssima.




UM FELIZ 2014 !
Obrigada a todos pelo carinho e atenção que me dedicaram ao longo deste ano.



sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Natal


"Deixem que se espalhem as redes 
da respiração, desde o caos materno ao sonho da criança
exacerbada,
                                     única"  (Herberto Hélder)


 Nunca gostei muito do Natal, talvez porque nunca o tivesse celebrado na infância e na adolescência. Uma época de consumismo e tantas vezes de uma alegria mais aparente que real. Uma quadra festiva de oratória, um tempo de intervalo, de preparação para a resiliência necessária para enfrentar o novo ano que já se anuncia. Um tempo de tréguas, de inspiração de confiança; como que uma desejada revitalização.
 Compram-se presentes porque se têm de comprar, medita-se pouco ou nada sobre mais um ano que estrebucha moribundo, as pessoas tornam-se boas por obra e graça do Espírito Santo, em recolhimento feito de reconciliação, paz e confraternização. De repente somos todos irmãos. Pensa-se ao de leve nos desvalidos da sorte, interrompem-se guerras para continuá-las com mais vigor no dia seguinte. Mal comparado, um pouco como o Dia Europeu sem carros.
 Música angelical na tv e na rádio, coros a jorrar doçura e elevação celestial. Passa-se a mão pela cabeça das crianças, perdoam-se alguns inimigos, incita-se à esperança, beijam-se amigos e conhecidos num corre-corre entre lojas de montras convidativas, ornamentadas de entusiasmantes vermelhos, dourados e prateados, de luzes que brilham exageradamente sobre coisas que não precisamos. Abrem-se antecipadamente quermesses onde se vendem lavores e jarras para ajudar os pobrezinhos.
 Compreendo o fascínio das crianças, mas não o dos adultos. Sei que existem pessoas generosas o ano inteiro, e entendo que qualquer pretexto seja válido para reunir a família para uns "comes e bebes", sobretudo com o frio que faz lá fora, mas faz-me um pouco de confusão a partilha e comunhão com dias e horas marcados. Mas é algo de muito pessoal; nada contra a alegria e a festa do convívio, os presépios já sem musgo, a fé no calor da lareira, o cheiro a resina e a lenha. O bacalhau, a canja, o borrego, o leitão, as azevias de feijão ou batata doce, a cabidela, os frutos secos, as rabanadas, os sonhos...
 A questão é que não percebo o que pode haver para celebrar nesta altura de tanta crise. Muitas cantinas escolares estarão abertas para alimentar alunos carenciados e em alguns casos a própria família, e muita gente terá consoada devido à caridade alheia.
 O relógio do tempo que me atravessa faz com que o meu Natal viva, por um lado de recordações dos que partiram cedo demais e dos que adoro e estão geograficamente longe,  por outro lado, do regozijo pelo verdadeiro natal que aconteceu em mim há anos. Como um vulcão que tivesse soluçado e aberto crateras de luz na terra, e com ele eclodissem apenas sorrisos e a invenção de gestos de ternura antes desconhecidos, que durarão para sempre, em todas as horas da minha noite e do meu dia. Numa adoração da duração dos afagos quotidianos. Por isso o meu Natal é  também lembrança viva de histórias infantis contadas ao lado de um berço. Sem preces, ou fictícia alegria. Não é viver de lembranças, mas sabê-las como parte integrante da vida. 
 As borboletas duram pouco, mas continuaremos a amar todos os que já amamos. E quando da janela se observa a rua a movimentar-se em excitação de cânticos e estrelas luminosas, sei que a única luz está ou não dentro de nós. Botas secas ou molhadas, pés quentes ou gelados continuarão o destino do seu próprio milagre; a vida. A chuva e o sol continuarão a cair sobre as vides geladas e as figueiras carcomidas, sobre as avenidas iluminadas e os becos escuros de bebedeira e solidão. Não existirão mudanças depois de um Natal de justiça roubada e solidariedade ocasional. Desisti há muito de tentar decifrar a ortografia do mundo. Quero apenas viver e tentar tornar as coisas simples. Por isso o Natal é para mim a celebração do nascimento da minha filha. Existe entre nós um cordão umbilical invisível que dura desde um 24 de Dezembro e durará para sempre. Que não aprisiona porque feito de respeito e liberdade.
 Aos quatro anos já sabia ler, e o seu interesse por livros e filmes faz com que seja uma cinéfila sempre em cima do acontecimento, e uma leitora compulsiva. Nunca se perdeu de amores pela escola, porque muitas vezes tinha de corrigir professores, cozinha e escreve muito bem, e tem um talento para a pintura que infelizmente deixou de explorar. Mas a sua grande paixão é a Fotografia e Viagens. Tem um sentido de autonomia e independência ímpares. É criativa. É o meu grande amor.










Para ti, Sara, Amy Winehouse com a canção I saw Mommy Kissing Santa Claus



sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Como se...



 O firmamento parava nos meus olhos para te olhar. Como se a Primavera tivesse trazido as cores de todas as flores imperecíveis e os desígnios insondáveis do mundo e arredores. Dizias frases supostamente com sentido, e tomavas no teu o meu corpo como se não existisse a hora seguinte, e o amanhã pudesse ser remoto e adiável.
 Inventei em ti a frescura das manhãs e o mistério do movimento de translação da terra, a ondulação das giestas, os gestos quentes e atlânticos feitos de azul e mar. A certeza ilusória de um trilho em direcção ao sol poente, como anjo de asas cortadas que se tivesse esquecido de descobrir a claridade dos dias, mas se aventurasse na penumbra da noite. 
 Reconheci o teu respirar no meu, sempre que a lua se sentava distraidamente no meu peito quando adormecias e me encostava a ti, e  existia uma leve brisa feita de ternura que despertava em deslumbramento todos os silêncios. Uma brisa feita de oceanos de palavras não ditas, amarrotadas nos bolsos, e da opulência de mãos acesas que davam luz aos corpos e incendiavam a matéria. Pendurei no teu corpo o infinito, como se um momento tivesse em si a semente robusta de um dia claro e abrangente. Como se tudo existisse em ti...
 Suaves gotas de chuva tépida molham o regresso dos dias. Descubro-te ainda em cada arco-íris, como se fosses o sol que me ilumina aonde quer que vá. Como se um brado sereno travasse os movimentos antes incontidos das marés, e todos os rios só encontrassem agora o caminho para o orvalho do meu olhar. Todo o sentimento de ausência pode ser um longuíssimo adágio ou uma sinfonia descontínua de sons e imagens difusas que estremecem no ruído dos dias. Ou tímidos vazios imperiais de desalento. Lá fora a manhã vagarosamente se anuncia. Restos de noite sobem de mão dada com a densa neblina enquanto o meu corpo, mera superfície lavrada, desperta a lembrança do Verão fazendo soprar um bafo quente de tempo irrepetível.
 Continuas a caminhar nos meus passos com a leveza das aves anónimas que há muito voaram para longe, aladas na ventania que deixa para trás árvores decapitadas. Galopo contudo a crista da manhã como se me esquecesse de ser triste, e a tranquilidade da noite tivesse emprestado ao dia uma doce e serena resignação.



Uma animação de Louis Clichy  para a canção "À quoi ça sert l'amour?" com Theo Sarapo e Edith Piaf. 



sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A Arte da Surpresa



 Não creio que o segredo do mundo seja desvendado pela arte, mas considero que a arte nos segreda algo acerca do mundo. Algo de que poderíamos ter consciência não expressa, ou algo que pode surgir como novidade, como surpresa que apazigua a inquietação da existência. Precisamos do exercício da criatividade, porque a vida não nos responde a tudo; de facto não responde a quase nada, já que não responde ao essencial. Feita de conhecimento e imaginação, pode reduzir à insignificância o mundano e óbvio, e encher de sentido as pequenas coisas.
 Como diria A. Tchekov, "as obras de arte dividem-se em duas categorias; as de que gosto, e as de que não gosto", porque cada um na sua individualidade apreende a beleza a partir da sua própria singularidade, com sensibilidade diferenciada, com um olhar único, porque a beleza reside sempre nos olhos de quem a vê.
 Certo tipo de arte regressa de forma consciente ou inconsciente, a uma ingenuidade primitiva, a uma pureza de forma despojada de complexidade que a torna atractiva ao olhar numa beleza feita de simplicidade.
 Há quem defenda que a racionalidade é que nos torna humanos, eu defendo que a arte completa a ideia do que é humano, já que todo o acto criativo emerge de um pensamento e sentimento (o canto da sensibilidade) que se materializa. O resultado dessa obra , deve geralmente ser bebido devagar, e poderá funcionar como abertura e motivação, ou poderá, o que não é pouco, deslumbrar-nos em segundos. A arte não deve ser massificada, tal como não deve ter carácter particular mas universal. Não existe pior erro que tentar adequar a arte ao gosto geral, contudo existem objectos artísticos entendíveis pela maioria devido a uma linguagem de fácil percepção, como se toda a desordem tivesse sucumbido à ordem e à harmonia.
 Arte consiste também em retirar do feio a beleza, possibilitando a existência de uma estética do belo ou do horror; uma estética do encantamento ou da dor, como denúncia ou tentativa de catarse, porque a verdadeira arte não copia a aparência das coisas, mas a sua essência; o inconfundível.
A arte pode ser séria e sorumbática, mas também pode ser alegre e divertida.




 Desejemos que a arte seja uma reconfortante negação da rotina e do aborrecimento dos dias.
 A minha cidade não é propriamente efervescente em termos culturais, poderia dizer que entra até num estado de semi-letargia durante o Inverno, mas de vez em quando lá vai acontecendo alguma coisa que nos mantém acordados.
 Para além de um Centro Cultural com exposições diversas e espetáculos de teatro ou música, existe um Grupo Cultural, Um Grupo de Jazz, uma Academia de Música, um Grupo de Teatro Experimental, um Cinema, uma Biblioteca bem equipada, com ciclos de cinema e encontros de poesia. Foi também criado há vários anos um Laboratório de Actividades Criativas no edifício da antiga Cadeia, que para além de artistas locais nas áreas de escultura, pintura, arquitectura, cinema, musica, museologia e cerâmica, e organizando oficinas de Dança, Pintura ou Escrita Criativa, recebe também artistas visitantes. Em 2011 foi lançada 1ª edição de ARTURb IN MY WALL com o intuito de valorizar espaços públicos abandonados e geralmente degradados, envolvendo a participação de artistas nacionais e estrangeiros de Arte de Rua.



 Lagos é também uma cidade muito descontraída e receptiva a vários espetáculos de rua, ao que não é alheio o facto de ser uma cidade turística.
 Como escreveu um dia M. Quintana, "A gente deve sair à rua como quem foge de casa". E diria eu, que a arte foge do mundo para que a encontremos logo ali à nossa frente. Fui surpreendida esta semana, por esta singela galeria ao ar livre de rústicas figuras, junto às muralhas da cidade, muito perto da minha casa.
Causaram-me confortável sorriso de espanto e enriqueceram o meu dia. Fizeram parar o mundo por um momento. Surgiram como que do nada para me surpreender.







 Para rematar escolhi um vídeo com peças de João Cutileiro, escultor que informa a pedra bruta.  Um apaixonado pelo mármore e pelas formas femininas. Cutileiro viveu em Lagos entre 1970 e 1985. É dele a controversa estátua de D. Sebastião, no centro da cidade.




*ARTURb -arte urbana de artistas unidos em residência

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Teias de Aranha


             "Ninguém nasce mulher, torna-se mulher"(Simone de Beauvoir)               




 A sociedade assenta erradamente numa desigualdade de género. Ser homem ou ser mulher resulta de uma construção social que embora tendo sofrido alterações progressivas ao longo do tempo, com atenuação e quase erradicação das diferenças em certos países, continua com a perpétua discriminação em muitos outros.
 Estamos ainda, do ponto de vista global, entre a realização de uma utopia (Igualdade), e a frustração pela sua não realização em muitos cantos do mundo; uma questão de ruas tão estreitas e fundas, becos labirínticos de fácil entrada mas muito difícil saída.
 Não vou aqui falar da situação dos países nórdicos, geralmente apontados como respeitadores e incentivadores de igualdade, mas de muitos outros locais, onde a mulher é ainda considerada, não necessariamente pela Lei, mas pelos costumes e tradições, e pela religião, como um ser de categoria inferior. Fenómeno típico de sociedades pouco desenvolvidas e caóticas, e como sabemos todo o caos tem em si próprio uma ordem que convém ser mantida, nas quais a mulher é vista como um ser frágil que só existe em função de alguém.
 Quem não aceita a independência da mulher, não lhe reconhece verdadeiramente qualidades e potencialidades, concepção transmitida de geração em geração de que a fêmea poderá estar sempre a meio caminho entre a virtude e o pecado, como ente supostamente em risco que necessite da protecção de um ser superior que lhe evite qualquer erro ou deslize, em relação ao que deve ser o seu comportamento sócio-familiar. Raparigas deverão ruborizar quando deixam a sua mente vaguear entre os seus desejos mais íntimos, porque desde a longínqua história da maçã, a culpa desceu divinamente sobre elas, como se o encanto e sedução natural de uma mulher fosse algo de urgente anulação, numa desvalorização de toda a sua vontade, impedindo-a tantas vezes de ter uma vida laboral e social, sem direito a autonomia e auto realização. Ideia arreigada de que o homem, supremo chefe, o grande conquistador social e sexual tem de controlar a "sua" mulher, numa lógica absurda do "manda quem pode, obedece quem deve", princípio de autoridade enfeitado de ciúme, por vezes valorizado pela mulher como sinal de amor, quando na generalidade não passa de um intrínseco e disfarçado desejo de propriedade; herança de quando a mulher era equiparada a camelos, vacas e ovelhas. Querer uma pessoa não significa amá-la. Um mundo de homens que deixou em muitos países as mulheres nas margens como sub-categoria, numa relação paradoxal que não permite aos homens a sua verdadeira humanidade, porque uma relação de poder aniquila opressor e oprimido.
 As mulheres continuam a ser as grandes responsáveis pela educação dos filhos, e no entanto algumas transmitem-lhes, sem disso se darem conta, esteriótipos sobre o papel da filha e do filho, dentro de casa e fora dela, numa sociedade com múltiplas dificuldades a superar por ambos os sexos. Pais e mães tendem geralmente a considerar, de forma quase instintiva, que as meninas devem ser gentis, dóceis e arrumadas. Devem ter gosto pelas tarefas domésticas em geral, mesmo que essa vocação não exista. É por isso expectável que uma mulher trabalhando fora de casa seja uma dona de casa responsável pelo bem-estar de todo o agregado familiar.
 Certos pais teimam em pensar que é "natural" um rapaz não ter tendência para limpar ou arrumar, como se tudo o que fosse monótono e aborrecido dentro de casa, tivesse de ser executado por uma mulher supostamente predestinada desde o útero a manter os aposentos, a cama e a mesa em ordem para o seu senhor.
Todos estes erros de educação poderão fazer com que este rapaz guarde em si a falsa ideia de que as tarefas domésticas nada custam, que não são trabalho em si mesmas, que a casa aparecerá a brilhar num golpe de magia de uma qualquer fada do lar. 
Teias de aranha acumular-se-ão um dia dentro de casa e nas cabeças de alguém, porque já não existe ou nunca existiu ternura nem cumplicidade atrevida, e de um clima de solidão acompanhada onde a indiferença causou desgaste irremediável, desemboca-se por vezes em tensão conflituosa e hostilidade que pode conduzir à violência psíquica e física em terreno já minado por sentimentos de vergonha e auto estima inexistente. Fenómeno difícil de solucionar porque a violência é exercida no silêncio das casas, muitas vezes por homens afáveis no trato social.
 Não por acaso alguém disse que "as tragédias acabam em morte, as comédias em casamento", mas quantas vezes os casamentos, celebrados a partir dum suposto amor, se transformam em amargura e autênticas tragédias...
 Uma queixa às autoridades é a única possibilidade de acabar com uma situação de prepotência e crueldade, e partir para uma vida futura sem uma pessoa de carácter medíocre a poluir a atmosfera familiar, procurando um sentido livre do embuste de palavras e actos.
 Que todas as mulheres vítimas de abuso tenham a coragem de surgir nuas de preconceitos, e envoltas num manto de verdade que só pode começar dentro de cada uma delas. Para que possam maravilhar-se com a essência esquecida da qual são feitas e apreciar dentro e fora delas a dimensão de todas as coisas.



" Woman is the Nigger of the World", John Lennon