quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

A visita


Reconstituição de uma cozinha tradicional alentejana no museu de Santiago do Cacém


 Por altura da feira anual, a mãe costurava os mais belos vestidos para estrearmos no regresso ao Alentejo. Embora o insuportável cheiro a gasóleo da "camioneta da carreira" me provocasse náuseas, os milagrosos sais de frutos estariam à chegada, pousados sobre a mesa. Que bom era voltar à aldeia!
 A avó estaria no Largo da Igreja à nossa espera com abraços abertos e mãos calejadas a estalar de ternura. De longos cabelos entrançados num carrapito, cobertos com um lenço que imediatamente tirava ao entrar em casa, como se aquele lenço florido lhe pesasse na cabeça. Por ruas empedradas se chegava à casa desde manhã cedo tomada de assalto pelo desassossego da feira, o grande acontecimento do ano, que trazia ao local muitas vozes de gente e de animais.
 No centro do quintal, nas traseiras, o verde do enorme limoeiro contrastava  com a cal das paredes da casa, e dos muros que apenas deixavam pressentir as copas de algumas oliveiras, chaparros, azinheiras, e velhas eiras nos campos que se estendiam a partir deste canto da aldeia. Os canteiros transbordavam de flores, e a água do poço , do lado direito, projectava luzes trémulas na parede entre a folhagem. Do lado esquerdo, a porta sempre aberta da "cavalariça", que para além de duas éguas e um burro, albergava também algumas galinhas.
 A claridade e a quietude da casa, misturava-se em Setembro com o frenesim de carros e carroças, e a trepidação dos cascos do gado transacionado.  Depois do almoço, os nossos olhos infantis saltitavam sobre bancas com os mais variados produtos e artefactos, mas o ponto alto era o baile da matiné ao som de concertina, num grande salão onde as mulheres se sentavam nas cadeiras encostadas à parede, e os homens se mantinham de pé, à entrada, até que lhes levedasse a afoiteza para convidar as raparigas a um pé de dança.
 À noite todo o brilho do dia se condensava nos candeeiros a petróleo, uma luz difusa e morna que afagava o escaparate com tachos de cobre, os alguidares de barro, a enfusa com água fresca, e as  panelas de ferro sobre a trempe, na lareira onde a avó fazia as migas com carne de porco, e depois o café. Passaríamos o serão a jogar às cartas, enquanto o avô, que não gostava de perder "nem a feijões",  preferia afastar-se com a viola campaniça pela mão, algo que sempre fazia quando queria evitar fazer qualquer outra coisa.
 Adormecíamos sobre uma enorme arca atulhada de sacas de cereais, acolchoada por uma manta de lã bege e castanha, tecida em pequeno tear, relíquia que o avô teria levado para a tropa, e que hoje guardo. Na soleira da porta da cozinha continuaria a dedilhar com mestria as dez cordas do instrumento, até que a avó delicadamente lhe pedisse que não fizesse barulho por serem  horas de deitar. Porque as grandes sensações do mundo repousavam já, debaixo do limoeiro. No tempo em que tudo era perfeito.



Da série documental "O Povo que Canta" do etnomusicólogo Michel Giacometti, um excerto do programa " A Viola Campaniça e o Despique no Baixo Alentejo", de 1971.


124 comentários:

  1. Oi amiga Laura,não sei se é verídica a sua história,mas achei maravilhosa e esses momentos são inesquecíveis deixando muitas saudades de um tempo como você diz:Perfeito.
    Bjs com carinho,obrigada pelas visitas e um ótimo dia.
    Carmen Lúcia.

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    1. É verídica é. Eu tive uma infância muito "rústica". :-)
      Obrigada, Carmen Lúcia.
      xx

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  2. ¡Ay Laura!!!

    Me siento identificada con todo lo que escribes en este bello texto, tal cual lo he vivido yo en mi niñez y adolescencia.
    He sentido la nostalgia de un pasado que como tú bien dices, por aquel entonces era perfecto, y a veces hasta pienso que cualquier tiempo fue mejor. Entonces, la vecindad era como familia, las puertas estaban siempre abiertas para todos y nos ayudamos unos a otros con amor con cariño.
    Hoy ni se conocen los vecinos, cada cual va por su lado y no se preocupan si el vecino pasa hambre o si hay malos tratos... Que suele pasar, y nadie se preocupa No, no, ha cambiado mucho el ser humano y no para bien. Mas me queda el consuelo de que no todos somos iguales, que aún hay gente de bien.

    Me ha encantado, amiga. Ha sido un inmenso placer leer este precioso texto que me acercó al pasado.

    Te dejo mi cálido abrazo, mi estima y gratitud por tu buen hacer, y por tu huella cercana.
    Se muy muy feliz.

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    1. As minha recordações de infância são muito nítidas e reconfortantes, e embora nem tudo fosse perfeito, aos olhos de crianças amadas, era como se o fosse.
      É como dizes, as portas de casa estavam sempre abertas, e os vizinhos apenas se faziam anunciar pela voz e iam entrando. Havia uma proximidade com os vizinhos como se de família se tratasse, e todos se ajudavam nas horas difíceis. Hoje o egoísmo instalou-se e pouca gente se importa com o vizinho do lado, no entanto nas pequenas aldeias as pessoas ainda desenvolvem laços fortes.
      Muito grata, Marina.
      xx

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  3. Laura querida,

    Que bom vê-la de volta por aqui. Sinal de que as coisas por aí entraram nos eixos. É o que espero.

    Linda e envolvente narrativa. Você também brilha numa prosa poética. A narrativa é tão bem feita que se pode visualizar cada cena descrita. Fiquei encantada com a expressão utilizada para descrever a espera da avó: "... com abraços abertos e mãos calejadas a estalar de ternura".
    Esta narrativa remeteu-me ao tempo de criança, quando eu morava num lugar com um quintal imenso e cheio de árvores. O lugar onde nasci. Contudo, não tenho lembranças felizes desta época, pois minha avó paterna, que morava ao lado, não era nada afetuosa conosco e tinha uma péssima convivência com a minha mãe. Há cenas desagradáveis dessa época que ficaram marcadas entre as minhas memórias menos felizes. Todavia, ao contrário, minha avó materna, que morava em São Paulo, era toda ternura para com os netos, mas veio a falecer muito jovem. Tanto assim é, que nem me lembro do rosto dela.
    Há tempos perfeitos em nossa vida e são eles que alimentam nossas lembranças e nossas saudades.

    Tanto a imagem quanto o vídeo foram escolhas perfeitas para comporem sua postagem.

    Belos e felizes dias por aí.

    Beijo.

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    1. Até que enfim, não é, Vera?...:-)
      Não conheci a minha avó paterna, e da minha avó materna uma das coisas que realmente relembro é o facto das suas mãos serem verdadeiramente ásperas devido aos trabalhos no campo. Mas era uma mulher muito alegre e afectuosa. Sinto muita saudade.
      Obrigada, querida Vera.
      xx

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  4. Boa tarde Laura
    Parabéns pelo texto divino, no qual me levou a recuar à minha infância, e lembrar a festa que fazíamos quando a minha avó materna matava o porco, e nós, fazíamos 8 kilometros a pé, para ir lá comer, nem era bem pelo comer, que a ser rojões, nesse tempo era especial, mas era por irmos até lá, mesmo a caminhar era uma festa. Recuei também à juventude, no tempo das escapadela do milho em que se reuniam todos os nossos amigos novos e velhos, e se encontrava a espiga vermelha. Os mais velhos cantavam..que saudades desse tempo... No final a minha mãe tinha sempre um tabuleiro ou dois de maçãs assadas, isto no caso de ser à noite, que, era sempre.

    Refiro que as idas a casa da avó, eram quase anuais para esse fim. Antigamente matava-se um porco de ano a ano.

    Que bom que foi ler o teu texto que, mesmo não sendo real, é ou foi tão real nas nossas vidas...Isto quem vivia no campo.
    Era no tempo em que tudo era perfeito, todos brincavam à vontade...éramos talvez, mais saudáveis...Oh... que saudades que me deu...

    Obrigada amiga. SOBERBO.
    Adorei o vídeo.

    Beijinho enorme e, espero que esteja tudo bem, contigo!

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    1. Delicioso o teu comentário. Nunca passei nenhuma morte de porco na casa da minha avó, mas na casa das tias, e era também um acontecimento.
      Naquela altura andar km a pé era normal, hoje as pessoas parecem não conseguir dar um passo sem levar o carro atrás!
      Essa da "escapadela do milho" não conhecia, mas lembro-me bem das desfolhadas do milho.
      Devias escrever sobre um dia sobre a "espiga vermelha". :-)
      Obrigada, Cidália.
      xx

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    2. Boa tarde amiga, Laura

      Olha antes de mais, desculpa o erro: É desfolhar/desfolhada.... Aqui dizemos escapelar o milho. Mas é a mesma coisa: desfolhar... são manias, lool
      O cena da espiga vermelha ficou incompleta: Quando existiam rapazes no grupo, nós, gaiatas, estávamos sempre à espera que eles encontrassem a espiga, ou vice versa... É que, ganhávamos um beijinho, looool .
      Eram tempos de muita luta, andava-se muito, aliás, tudo a pé, ou bicicleta, mas quando íamos fazer uma terra no campo para um lado íamos na carroça, mas à vinda para casa. Era a pé, sempre a subir. Lool . Olha, lembro-me ser miúda, eu e a minha mãe andávamos à erva no campo, numa terra ao lado, da cooperativa, mas a erva era bravia, ou seja, não era semeada. Os gajos apareceram, eu fugi com medo, para as árvores que, faziam rampa à beira rio, escorreguei, por um pouco que não cai ao rio. Levaram a erva e as foicinhas. Nem sei para quê, mas de certeza que se foram a rir, ao contrario de nós, loool. Tempos que, algumas coisas gosto de recordar, outras nem tanto.

      Pronto, desculpa o meu erro.
      Beijinhos e um bom fim de semana.

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    3. Eu não sabia acerca da "espiga vermelha", mas recordo-me do "milho-rei" que acaba por ser a mesma coisa, só que não conhecia a tradição do beijinho com isso relacionada. Fiquei agora a saber. :-)
      Mas que má experiência essa do roubo da erva e das foices! E não tens que pedir desculpa, mais do que um erro, foi um lapso sem grande importância, agora corrigido.
      Obrigada, Cidália, e bom fim de semana!
      xx

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  5. Uma cozinha tipicamente portuguesa! Gostei de ouvir a viola campaniça! O meu abraço.

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    1. Não sei se é tipicamente portuguesa, mas é decerto tipicamente alentejana.
      Obrigada, António.
      xx

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  6. Um retrato escrito, como era a vida alentejana,
    tem como imagem a lareira, lá chamada de chaminé
    havia alegria, também tristeza durante a semana
    noite e dia sem nunca se perder a esperança nem a fé!

    Eis a razão por que penso assim,
    gostei de ler esse texto bem escrito
    porque são tradições sem terem fim
    por isso, é que eu nelas acredito!

    Do nosso Alentejo, não esquecido,
    onde o céu é mais azul, amiga Laura
    sem que a esperança tivesse perdido
    por isso mesmo, eu sabia que voltava
    seja bem vinda com esse lindo sorriso!

    Tenha, amiga Laura, uma boa tarde de quinta-feira, um abraço.
    Eduardo.

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    1. A minha avó chamava de lareira, Eduardo, e quando estava acesa era "o fogo".
      O nosso Alentejo tem histórias de vida muito árduas; sobretudo nos grandes latifúndios em que os trabalhadores eram autênticos "servos da gleba". Não deveria ter sido assim, mas foi.
      Obrigada pelo comentário, e pelas boas vindas.
      xx

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  7. Bom dia querida Laura.
    Que surpresa maravilhosa ao ver que tinha postagem nova. Uma postagem linda dos tempos que o amor, o companheirismo era mais evidente, existia mais calor humano e menos materialismo. Um texto envolvente onde me fez lembrar da minha maravilhosa infância, os quais meus pais aos finais de semana, sempre nós levávamos para uma fazenda, onde amava está em contato com a natureza, muito bom recordar. Lhe desejo um feliz final de semana. Enorme abraço.

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    1. Verdadeiro materialismo não poderia existir porque a principal preocupação eram as necessidades básicas, e é verdade, geralmente é quem menos tem quem melhor sabe partilhar.
      Obrigada, Mirtes. Bom fim de semana.
      xx

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    2. Boa noite minha linda amiga Laura.
      Infelizmente as suas palavras é uma grande verdade, mas que bom que ainda existe as exerções. Um radiante domingo. Enorme abraço.

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    3. Felizmente há excepções, sim.
      Obrigada, Mirtes.
      xx

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  8. ... e que bem que tu (d)escreves esse "tempo em que tudo era perfeito"...

    e "os rios de tua infância..."

    gostei, deveras!

    beijo

    (agradeço a tua presença amiga e a pertinência dos teus comentários, lá no "heretico")

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  9. Tudo quanto se relaciona com o Alentejo me encanta.

    Além disso, a qualidade do texto é muito grande, o que não surpreende.

    Abraço de bom regresso

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  10. Boa noite Laura,
    Um texto muito belo que me fez recuar ao tempo da minha infância numa aldeia, em que apenas o Tejo a separava do Alentejo e onde as suas influências ainda hoje estão presentes.
    Tempos idos, tempos repletos de sabores, aromas e afectos como já não há. Tempos perfeitos, sim!
    Beijinhos e obrigada pela visita.
    Ailime

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    1. Olá Ailime,
      é muito bom quando guardamos boas memórias dos tempos idos, tempos perfeitos tão somente por nos terem deixado belas recordações.
      Há muito tempo não te visitava, e é sempre um prazer ler a tua poesia.
      Obrigada, Ailime.
      xx

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  11. Pois é, Marcos, embora a minha avó usasse sempre o lenço na rua, tenho a impressão de que não gostava de usá-lo.
    O etnomusicólogo que percorreu o país a fazer estas recolhas musicais foi exactamente o fundador dos Arquivos Sonoros Portugueses, portanto as muitas gravações de músicas e cantares tradicionais estão "a salvo".
    xx

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  12. Permita que lhe abra um pouco da minha alma por ser amiga.
    Sou da Beira e um dia gostei de ser tambem alentejano, coisa que nao se compra. Por tal investi o que tinha num pequeno monte, ali memsmo a molhar os pes no Guadiana, melhor,cem metros acima na ribeira da qual no digo o nome. Vinte quilometros de Badazoz. Por vezes ia de madrugada pela A6 e acendia a lareira, tal como essa ou maior, por ela andava em pe e fui conquistando a confianca das gentes. Nada dava, muito recebia. Passei mais de um ano seguido nos fins de semana com gentes do melhor e sabe deus o que aprendi. Apanhar e cozinhar espargos, pescar carpas e barbos, arranjar a lenha para a fogueira, irmos ao Mateus comer aquela sopa, a caldeta, o achiga...
    E a gente se ia por ali acomodando, para meu descanso, o pastor me garantir que estava segurado, pois bicho ruim estava por sua conta.
    As festas do Redondo, ainda bebi um copo com o Janita, naquela tasca junto da igreja, a feira des Estremoz, ao sabado com as suas velharias e a carne temperada na esquina abaixo. Comprei uma figueira que morreu, uma laranjeira que as ovelhas do ... comeram e depois como que dali desapareci.
    Antes, fui com o meu filho e fizemos uma fogueira enorme, pescamos e fritamos peixe do rio. Luto para ter a minha casa de volta...
    Foi por si, leia e apague, se tal entender.

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    1. Oh Xico!
      Uma narrativa tão bela, com gentes do melhor, Redondo e Janita Salomé, Estremoz, Guadiana, ou seja, uma experiência a roçar a perfeição, e tudo vir a descambar num enorme desalento. Que tristeza!
      As razões porque tal acontece não são realmente para aqui chamadas por serem algo de privado, mas desejo sinceramente que recupere a sua casa.
      Como poderia apagar algo tão sentido e tão bem escrito?...Só posso dizer que sinto muito.
      Obrigada, amigo Xico, pelo desabafo, que me comoveu.
      Um abraço.
      xx

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  13. Não lembro da Laura em prosa... Saiu-se muito bem, como não haveria de ser diferente. Lembranças de um tempo bom, "de ingênuo folgar". E "eu não sei porque a gente cresce, se não sai da gente essa lembrança. Bom retorno, Laura, em grande estilo. Saúde e paz.

    https://www.youtube.com/watch?v=W8ZMbKPuQts

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    1. Também existe alguma prosa por aqui, em posts mais antigos.
      Obrigada, Fábio, uma bela música de recordações e imensa saudade de Cachoeiro de Itapemirim, que não conhecia.
      xx

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  14. Laura, o tempo perfeito tem dois lugares para morar, nas nossas lembranças e nos nossos sonhos. Você trouxe ao presente momentos especiais, com uma riqueza de detalhes que encanta. Que memória! Nada ficou de fora, nem as luzes projetadas na parede pelas águas do poço. Em sua narrativa, destaca-se a simplicidade maravilhosa dos costumes e um imenso carinho. Braços abertos acolhem, alentam, protegem. Como seu avô, eu também não gostava de perder no baralho (kkk), quando jogávamos com meu pai. E a relíquia que ele guardava, e que os cobria, guardou. Uma preciosidade você tem. O som da viola, como no vídeo, quase não se ouve mais. Um documentário bem antigo, encontrou, que nos leva ao passado.
    Infelizmente, nunca fui recebida por minha avó paterna, com esses braços abertos, sempre reservados para minhas primas. Ela também usava lenço e um grande avental, onde colocava frutas para as netas preferidas (rss). Minha avó portuguesa não aceitou o casamento de meu pai com "moça de fora" e não nos tinha afeto. Mas foi em nossa casa que ela e meu avô receberam ajuda quando estiveram doentes e vieram a falecer. Meu pai foi um filho maravilhoso.
    Estou me perdendo em recordações, por força de seu mágico texto, cuja leitura foi por demais prazerosa.
    Estou muito feliz por vê-la retornar a esse espaço querido, que visitamos com a mesma alegria de sua visita à aldeia.
    Grande beijo, querida!

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    1. Mas que desnaturada, essa tua avó paterna! Felizmente o teu pai teve o carácter e o afecto suficientes para demonstrar-lhe em fim de vida, a forma correcta de agir. Que triste fazer diferença entre netas!
      Ah o meu avô detestava jogar às cartas porque a minha avó ganhava sempre, mas eu até acho que era preferível ele tocar, porque assim tínhamos música ambiente.
      A manta eu utilizo às vezes, por ser muito pesada, como tapete na sala do computador, mas raramente, porque não quero estragá-la, embora seja muito resistente. Tinha até um nº colocado a tinta, mas que foi desaparecendo com as lavagens.
      Obrigada, Marilene, belo comentário.
      xx

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  15. Quando, no seu pefil_tenta falar do poema e acaba na sua inefabilidade_senti pureza e sensibilidade- tal como neste texto de ternas memórias_Só me parece que a profundidade dos textos não compagina bem com a su foto ainda muito jovem_se estiver enganado neste meu pessentimento que para o caso pouco interessa_não o tome em consideração. Os meus cumprimentos Laura.

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    1. A minha foto de perfil foi tirada em Outubro, por altura dos meus 53 anos. Por isso a sua alusão à minha idade, acaba por tornar-se, não de forma intencional, uma constatação de que pareço mais jovem. :-)
      Obrigada, Luís.
      xx

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  16. Laura,

    Li a sua crônica como quem se encontra naquele local, naquele tempo, com essas amáveis pessoas, como a avó, o avô e sua viola (no bom vídeo), depois de percorrer esse caminho de Alentejo, quando cheguei até a sentir o cheiro “a gasóleo da camioneta da carreira". Excelente crônica. Parabéns.

    Abraços.

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    1. Você nem me fale na camioneta da carreira; eu ficava mesmo indisposta, e a viagem era um autêntico martírio. :-)
      Obrigada, Pedro.
      xx

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  17. Um belo texto sobre a vida nessas terras calmas que são o Alentejo.
    Devemos ao Michel Giacometti muitas das nossas musicas populares, se não fosse ele já estariam perdidas.
    Um abraço e bom fim de semana.

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    1. É verdade, Francisco, se não tivesse sido um corso a apaixonar-se por Portugal aquando de uma visita ao Museu do Homem em Paris, não existiriam os testemunhos que existem. Fez um trabalho extraordinário.
      Obrigada,e bom fim de semana.
      xx

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  18. São das histórias que aprendemos, o vídeo é emocionante, gostei do som da viola, Laura beijos.

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    1. Eu não aprendi a história, eu vivi a história.
      Obrigada, Lucimar.
      xx

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  19. Primeiro, que alegria de te ver a publicar
    novamente!!...rss
    Que preciosidade de narrativa a nos conduzir pelas
    mãos a cada (en)canto das tuas memórias afetivas
    num tempo perfeito.
    Que construções poéticas tão belas e tocantes:
    "A Avó à nossa espera com abraços abertos e mãos
    calejadas a estalar de ternura."
    "Os canteiros transbordam de flores, e água do poço,
    do lado direito, projectava luzes trémulas
    na parede entre a folhagem."
    "Porque as grandes sensações do mundo repousava já,
    debaixo do limoeiro. No tempo em que tudo era perfeito."
    E perfeito é este tempo da tua escrita na beleza
    cristalina do teu olhar de Grande Poeta, que rege
    as palavras para morarem dentro da gente (teus leitores)
    com este encanto!...
    A música da viola campaniça, adorei e fez me
    lembrar do Elomar que toca assim, qualquer dia
    vou postar a música dele, se eu encontrar, pois,
    ele é totalmente recluso...rss
    Beijo e abraço alegre com a tua volta
    na tua arte de escrever, Laura!

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    1. Foi ao visualizar este video que me ocorreu a ideia de escrever sobre os meus avós maternos. Esta visita foi feita no início dos anos no início da década de 70 do século passado, para veres como eu sou antiga! :-)
      A minha avó era uma pessoa encantadora, muito "espevitada", e o meu avô mais calado, mais introspectivo, e tenho deles uma saudade imensa. A vida não seria fácil, mas onde existe protecção e afecto tudo faz sentido.
      Posta esse Elomar, sim, para que fiquemos a conhecê-lo. :-)
      Obrigada, Suzete.
      xx

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  20. Amei o vídeo!
    Beijos
    http://blogaraan.blogspot.com.br/2016/02/encanto-e-magia-araan.html?showComment=

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  21. Oi Laura \o/
    Que texto maravilhoso e repleto
    de bonitas e saudosas recordações!
    Fui lendo e visualizando cada cena.
    Existem lembranças, que nunca se apagam,
    recordar é reviver...
    Beijos!

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    1. Oi Clau!
      A minha memória parece ter cada vez mais tendência a evocar-me os momentos positivos da minha vida.
      Obrigada, e bom fim de semana.
      xx

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  22. Um lindo texto bem escrito, testemunho das suas memórias.
    Bjs

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  23. Também guardo belas recordações da minha infância junto dos meus avós... só não sei escrever assim. :)
    Fico feliz pelo seu regresso.
    Muito!

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    1. Obrigada, Rui. Mas sabe pintar.
      Eu sei que você e a Ana ficam contentes de ver-me novamente nas lides. :-)
      xx

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  24. Com este magnífico texto, "empurraste-me" para recordações algo parecidas da minha infância, onde, como dizes, tudo era perfeito.
    Bom fim de semana, amiga Laura.
    Beijo.

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  25. Você se expressa maravilhosamente bem, Laura. Essa crônica,
    estala de doçura e de saudade.
    Beijos, querida amiga!!!

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    1. Saudade de um tempo que não existe mais.
      Obrigada, Shirley.
      xx

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  26. Uma viagem ao passado, acolchoada de ternura. Imagino o brilho dos seus olhos, Laura, quando embarcou nesta viagem.

    Um beijinho :)

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  27. Eu não gostei do post, ADOREI!
    Eu ainda recordo algumas idas à costureira, era mesmo assim: nas grandes festas íamos ter um vestido novo, uma blusa nova, umas calças novas…
    Ambas as minhas avós viviam na aldeia, mas foi ao lado da minha avó paterna que passei a minha infância e adolescência, a casa dela e dos meus pais era como uma só!
    No tempo em que tudo era perfeito a lareira era uma peça fundamental da cozinha, da família. Era à volta da lareira com a fogueirinha viva ou apagando-se conforme a hora da noite, que às vezes se comia e que lembro bem jogar com a minha avó e irmãos às cartas ou às adivinhas, ela contava-nos também lendas, contos...
    Lembro-me como se fosse hoje contar o conto das manchas na lua e eu conseguia ver nas manchas cinzentas um homem na lua com um molho das silvas às costas!
    Tenho saudades da minha avó 'Coelha'.
    Agora os serões (mesmo na aldeia) são a ver televisão ou na internet. As lareiras também são outras, com outros estilos, outro material, de canto, de parede. Nas casas modernas já não se vê panelas de ferro de 3 pernas nem a trempe assente. Também já não se faz fumeiro!
    A minha avó porque viúva vestia-se toda de preto e usava também lenço na cabeça e outra peça: o avental. a minha avó tinha muito amor ao avental, muitas vezes o avental de trazer a cote, rompia-se e ela ia-o remendando para ainda durar mais algum tempo.
    Agora as mulheres dispensam estes acessórios simplesmente porque as mudanças do tipo de vida e as alterações na maneira de vestir determinaram o seu desuso, mas ainda não caíram no esquecimento, continuam a existir, nem que seja em momentos folclóricos!!
    A camioneta da carreira a mim também me provocava náuseas, muitas, gostava de ir à feira da vila de Fornos, mas ficava doente só de pensar entrar na carreira e resto da viagem...
    Mas como escreveu Aquilino "A camioneta da carreira trouxe à província com tonus novo um sopro de modernidade, de progresso (…)." (Aldeia).
    Passaram a ser diferentes a habitação, o modo de vida, em especial o vestuário e a alimentação. Num primeiro ciclo utiliza-se o petróleo, para a iluminação e para a gastronomia; veio depois a electricidade e com ela os frigoríficos, que deram lugar a um novo processo de conservação dos alimentos, que permaneciam no fumeiro e na salgadeira. A botija de gás teve também um papel decisivo na mudança. Isto também ficou registado por Aquilino.
    Bom, já me alonguei...
    Passe um bom domingo Laura!
    Bj**

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    1. Por acaso tinha um pressentimento de que irias gostar, porque sei como na tua vida têm importância as memórias da tua aldeia.
      Naquela altura não se comprava roupa como hoje se compra, até por não haver "Pronto a Vestir", e era realmente nas ocasiões especiais que se estreava algum vestuário. A minha mãe sabia costurar, e embora existissem lojas em Lagos, assim ficava mais barato.
      A minha avó não era muito de contar lendas, o forte dela eram os ditados populares. Também falava muito de histórias de família, e cantava.
      E claro que o avental era uma peça fundamental da indumentária.
      Muito a propósito a citação de Aquilino em referência à "camioneta da carreira", numa altura em que todo o progresso estava longe da província. Existem prós e contras em quase tudo, e neste sentido é pena que certas tradições se tenham perdido, embora no Alentejo, sobretudo a nível musical, tenha havido ultimamente uma recuperação de cantares e instrumentos. A própria viola campaniça, pelos idos anos 70, estaria condenada a desaparecer, e aos poucos tem vindo a ser reabilitada, sobretudo por Pedro Mestre que tem feito um trabalho muito meritório no seu ensino e divulgação.
      Fotografei o ano passado a casa que era da minha avó, mas decidi nem colocar as fotos porque a casa foi recuperada. Tem agora água e electricidade, a porta e as janelas são diferentes, e até a porta lateral da cavalariça, que era de madeira grossa e tosca, é agora uma porta de zinco. Ou seja, já não tem nada a ver com a casa de antigamente. Como é natural, tudo muda.
      Gosto muito quando te alongas. E nem toda a gente se pode gabar de ter tido uma avó "Coelha"!...:-)
      Obrigada, Paula, o teu comentário é um post à parte.
      xx

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    2. Eu é que...te digo OBRIGADA. Beijinho!

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  28. Precioso Relato sobre esos Recuerdos que siempre permanecerán en nuestra mente, evocando esa infancia tras esos olivos y limoneros, bajo los acordes de esa viola y con la compañía serena y enriquecedora de nosos avós.
    Tiempos que no volverán, pero son Tiempos que siempre permanecerá en nuestro interior, llenándonos de Energía y Fuerza.
    Sabes que te echo de menos.
    Abraços e Beijos.

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    1. A maior parte das casas no Alentejo tinham antigamente limoeiros, e acho que muitas continuam a tê-los.
      Obrigada, Pedro.
      xx

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  29. Oi Laura! Passando para agradecer a tua visita e amável comentário, assim como apreciar este teu belo e instrutivo texto. Instrutivo porque eu não conhecia o significado de algumas palavras, e tive que recorrer ao meu velho e eficiente Dicionário Prático Ilustrado dos Irmãos Lello, Edição de 1957. Carrapito: conhecido aqui como Cocó, inclusive minha querida e inesquecível mãe usava; Chaparros, pequenas árvores; e enfusa, que não encontrei, porém imagino ser um pote, uma jarra ou uma quartinha feitos de barro, como aqui chamamos.

    Beijos e uma ótima semana para ti e para os teus.

    Furtado.

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    1. Não há o que agradecer, é um prazer ler a tua poesia.
      Que útil ter à mão esse dicionário, ainda por cima ilustrado. E desconhecia que carrapito fosse no Brasil, Cocó. Curioso! :-)
      Chaparros são sobreiros, pequenos ou jovens, embora o termo seja usado indiscriminadamente para sobreiros jovens e adultos.
      Sim, a enfusa é um pote de barro. Aqui :
      http://www.artflakes.com/en/products/enfusa
      Obrigada, Furtado.
      xx

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  30. Que texto maravilhoso Laura. Parecia que estava lá vendo e vivendo na cena. E o trecho musical? Que pena que estas maravilhas se vão perdendo no tempo, substituídas por sons que nem nossos são.
    Um abraço e uma excelente semana

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    1. A prosa não é bem a minha onda, mas de vez em quando lá arrisco...:-)
      Obrigada, Elvira.
      xx

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  31. Este maravilhoso pedaço de Alentejo... em texto e video... também me trouxe à memória, recordações de um outro tempo, em que tudo era perfeito... nas férias de Verão... também em casa da minha avó... apenas um pouco mais a Norte... na zona da Beira Alta... mas a essência... destes tempos... cheios de encanto... é praticamente igual...
    Grata por me proporcionar este recuar no tempo... tão gostoso!... Através das suas palavras...
    Adorei o texto por demais! Excepcional!...
    Beijos, Laura! Continuação de uma boa semana!
    Ana

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    1. E acontecia quase tudo durante as férias escolares de Verão, que eram muito mais longas do que são hoje. Fomos sortudas nesse aspecto. :-)
      Obrigada, Ana, e continuação de boa semana.
      xx

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  32. Bom dia, Sou algarvio e adoro o Alentejo, de tal modo que semanalmente visito principalmente o baixo Alentejo, gosto da humildade do povo e da sua cultura, o que escreve e o que mostra através do museu, ainda faz parte do presente, a viola campaniça é difícil de afinar mas tem o som único, salve o erro tem 12 cordas.
    AG

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    1. Tem bom gosto, António. ;-)
      Sim, a viola campaniça parece ser de difícil afinação. Segundo o especialista José Lúcio:
      " O cravelhal da viola campaniça é de 12 cravelhas mas normalmente o tocador utiliza 10 cordas e muitas vezes 8. As cravelhas do topo, que não têm cordas, são suplentes para o caso de alguma se partir".
      http://www.jose-lucio.com/Pagina2/Sons%20e%20tons.PDF
      xx

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  33. Rosario Torrado Correoa24 de fevereiro de 2016 às 20:34

    Querida Laura, que empatia tão especial que senti com as tuas palavras, com o teu sentir, e a foto, nem se fala..., vivo todos os meus dias tentando manter presente aquilo que foram as minhas gratas vivências e cada vez mais encontro nelas,
    mais sentido para acrescentar a minha vida.
    Grata muito grata por te sentir também tão próxima destes sentimentos....Beijinhos
    Rosário Torrado Correia

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    1. Que bom que te identificaste um pouco com este tipo de memórias. Acho que nunca deixei de ter uma alma "campónia", querida Rosário. :-)
      Que bela surpresa!
      xx

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  34. Apanhei, contigo, a camioneta e acompanhei-te nesta viagem.
    Também enjoava e também gostava de ir para a aldeia (como nasci na vila, agora cidade, invejava as amigas que haviam nascido na aldeia; minimizava este pecado passando férias nas suas aldeias ou na da minha madrinha); assim, muito do que relatas, são vivências que se assemelham às minhas, excetuando as particularidades dos lugares e da tua gente. E como adorava os bailaricos no terreiro... :)
    Já escrevi bastante sobre os avós paternos e filhos (narrativa publicada numa antologia; talvez a divulgue, um dia, no blogue) mas nunca escrevi sobre as minhas vivências em aldeias.
    Obrigada por partilhares estas vivências, numa prosa muito elegante e transbordante de emoção e carinho. Os avós são, geralmente, um legado muito rico e, quando escrevemos sobre o que a nossa memória conserva deles, estamos a perpetuar esse legado.
    Parabéns, Laura, pelo texto (incluindo a foto e vídeo escolhido) e, sobretudo, pela riqueza de afetos com que foste bafejada.
    (Gostei que tivesses regressado ao teu cantinho e obrigada pela tua assídua e relevante presença no meu.)
    BJO :)

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    1. Tive sorte em ter saído de lá, caso contrário não teria tido acesso à instrução da forma que tive, mas as minhas raízes de aldeia são muito fortes em mim. O contacto com gente analfabeta, gente simples, que não "simplória", ensinou-me desde muito cedo a força do carácter e que os afectos são a base sólida para a formação da personalidade em relação à empatia e respeito que em adultos temos para com os outros.
      Obrigada, Odete.
      xx

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  35. OI LAURA!
    SÃO TUAS RECORDAÇÕES, MAS, NOS LEVAS COM TUA EMOÇÃO, ÀS NOSSAS.
    COMO SEMPRE ESCREVES COM PROPRIEDADE LEVANDO TEU LEITOR A VIVER O QUE NOS PASSAS.
    ABRÇS
    -
    http://. zilanicelia.blogspotcom.br/

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  36. Desta vez estive a ver e a ouvir o despique na viola campaniça. E gostei muito, apesar de algumas desafinações...
    Continuação de boa semana, querida amiga Laura.
    Beijo.

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    1. !!! Não deve ter visto o video, decerto.
      O Despique é uma modalidade de canto tradicional, ao desafio e de improviso, como deve saber, e este video não tem canto ao Despique. Este video é apenas um excerto de uma outra gravação mais longa, onde realmente existe Despique. Aqui :
      https://www.youtube.com/watch?v=iLhZCi2c8nM
      xx

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    2. Laura, não ouvi, de facto. No vídeo que vi ninguém cantava... era só viola. Neste já cantam. Não conhecia ou pelo menos não me lembro de alguma vez ter ouvido alentejanos a cantar ao desafio.
      No Minho também existe o canto ao desafio, igualmente conhecido por desgarrada, com concertina e viola ou cavaquinho, em que os cantores improvisam e se atacam um ao outro.
      Um exemplo, que por acaso até são meus amigos (também são de Viana do Castelo):

      https://www.youtube.com/watch?v=ZL5JgAkNu0g

      O que cantam é bem apimentado, mas como passou num programa da Fátima Lopes...

      Beijo.

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    3. Grande Canário e grande Miranda! Exuberante desgarrada tão típica do Minho, e adorei o sentido de humor apimentado.
      Na verdade, O Despique perdeu um pouco a força no Alentejo e está reduzido a certos nichos, enquanto no Norte continua bem vivo. Além disso é um canto ao desafio muito mais alegre.
      Muito obrigada, Jaime. Fartei-me de rir.
      xx

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  37. Ah, está bem. Obrigada pela explicação, Marcos.
    xx

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  38. Fantástica esta imagem...é tão bom recordar! Actualmente as pessoas estão mais stressadas, mais impacientes... é a era do consumismo e do facilitismo, do rápido acesso a tudo e mais alguma coisa.

    Beijinho Laura e bom fim-de-semana!

    (como vez estou aqui)
    :))

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    1. Estou a ver que passaste por aqui, sim. Obrigada pela visita, e um bom fim de semana, Jorge.
      xx

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  39. Gosto tanto dessa zona.

    S.Torpes é das minhas praias preferidas de sempre...por tantas razões.


    Beijinhos

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    1. As minhas origens têm mais a ver com a Zambujeira, Cavaleiro, mas São Torpes, mais acima, é de facto também uma bela praia.
      xx

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  40. Primeiramente quero falar da minha alegria ao ver uma nova postagem tua. E uma das mais sensíveis feitas por ti. Ao falar de uma das muitas lembranças que trazes, e também por recordares avós tão afetuosos me fizeste relembrar um tempo feliz da minha infância. Também tive avós amorosos, de ambas os lados, paterno e materno, mas os perdi quando ainda não havia formado um acervo extenso de lembranças, pois se foram quando a minha infância ainda se formava. Daquilo que me ficou na memória posso (re)ver os casais amorosos, de mãos dadas a observar os netos da varanda da fazenda. Acredito que, para não chocarem com extensas manifestações de carinho que naquela época não eram permitidas em público, se contentavam com o entrelaçar de mãos. Mas com os netos, coisa linda de se ver, extravasavam afeto em cada olhar, cada gesto, cada palavra. Eram de abraçar e beijar assim que chegávamos ao alcance dos braços que sempre amorosos se abriam para nos abrigar. Tanto as avós quanto os avôs, pródigos em amor, ternura, e demonstrações de carinho. Interessante é que, com os próprios filhos, talvez pela austeridade da educação vigente na época, não eram afetuosos a ponto de um abraço ou um beijo. Um colocar de mão sobre a cabeça quando os filhos “pediam a bênção” era o gesto mais “afetuoso” que podiam dar. Meus pais assim foram criados, o que não impediu que se tornassem pessoas amorosas, pródigas em demonstração de afeto, de beijos e abraços e mimos e afagos, que me enchiam de uma felicidade imensa, pois me sentia assim protegida de todos os males.

    Grata, minha linda, por estas lembranças que me chegaram na leitura tão sensível da tua postagem.

    Belíssima a imagem da tua avó no Largo da Igreja a esperar “com abraços abertos e mãos calejadas a estalar de ternura”.
    Outra bela imagem formada no “grande salão onde as mulheres se sentavam nas cadeiras encostadas à parede, e os homens se mantinham de pé, à entrada, até que lhes levedasse a afoiteza para convidar as raparigas a um pé de dança”.
    Tão diferente dos bailes de hoje (baladas, uma das denominações atual) em que muitas vezes são as mulheres que “abordam” os homens (risos). Uma situação nem melhor nem pior que antigamente, nem mais saudável nem promíscua, apenas os costumes se adequando à época.

    Acredito que a ternura que sinto pelas pessoas idosas vem desse tempo onde a minha memória alcança avós tão generosamente amorosos e pais que prodigalizavam ternura.

    Tenho que destacar esta preciosidade de texto com que encerras lembranças tão preciosas:

    “até que a avó delicadamente lhe pedisse que não fizesse barulho por serem horas de deitar. Porque as grandes sensações do mundo repousavam já, debaixo do limoeiro”.

    É por isso que a saudade desse tempo “em que tudo era perfeito” fica muitas vezes a nos trazer lembranças tão valiosas e tão primorosamente bordadas no tecido da memória.

    Encantou-me o semblante doce deste senhor que está a tocar a viola campaniça. Também da senhorinha que aparece logo no início, muito rápido, mas que marca pela expressão suave do seu rosto.

    Não tive muito tempo para pesquisar, mas procurei conhecer sobre o termo “campaniça” e a saber que se trata da mesma denominação que damos aqui no Brasil da nossa “viola caipira” ou “viola sertaneja”.
    Continua...

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    1. Lena, tive muita sorte com com a minha família do lado materno. Os meus avós eram pessoas muito afectuosas, embora o meu avô não manifestasse tanto o afecto como a minha avó. O meu avô considerava que aos dez anos estaríamos quase a entrar na idade adulta, consequência do facto de ele próprio ter começado a trabalhar por volta dessa idade.
      Curiosa essa descrição da não demonstração pública de afectos, contudo esse "entrelaçar de mãos" fosse já algo de bastante significativo, algo que eu nunca vi nos meus avós, nem em pessoas daquela idade lá na aldeia. Era simplesmente assim. Como se houvesse um pudor em vivenciar a ternura em público para não dar origem a "falatório", portanto, carinho, praticamente apenas em relação às crianças, e por parte das mulheres. Até porque os alentejanos são geralmente homens reservados em quase todos os aspectos.
      Também sinto muito respeito e carinho pelas pessoas com mais idade, e penso que tem precisamente a ver com essas vivências com os meus avós, que embora esporádicas eram muito intensas. E adorava aqueles bailes de aldeia; como era criança dançava com a minha irmã, e as mulheres sem par masculino dançavam umas com as outras. A viola campaniça era uma viola de campo, e este senhor do século passado que aparece no video, era um dos poucos ainda a tocar a viola campaniça no concelho onde nasci. A viola tinha-lhe sido oferecida há 50 anos atrás por ocasião do seu casamento. Como sabia tocar mas não tinha dinheiro para comprar uma viola, os amigos juntaram dinheiro e ofereceram-lhe uma.
      (Continua):-)

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  41. Continuação...
    Temos por aqui um programa que se chama VIOLA, MINHA VIOLA que era comandado por uma das nossas grandes intérpretes neste gênero caipira (ou sertanejo), Inezita Barroso (infelizmente já falecida), onde eram apresentados grandes representantes desse gênero musical. O programa ia ao ar numa das nossas emissoras, no domingo pela manhã, e meus pais não perdiam uma apresentação. Ficavam de mãozinhas dadas, a namorar, relembrando o tempo de infância onde na fazenda dos meus avós era comum os saraus com os violeiros da época.
    Com o mesmo título do programa também temos uma canção deliciosa de autoria da Inezita e que ela tão genialmente interpretava.

    Faço um excerto para a tua apreciação:

    “... Não aprendi a fazer guerra
    Na escola de cantoria
    Fazer guerra é muito fácil
    Quero ver fazer poesia
    Com está viola divina
    Um pedido vou fazer
    Para Deus matar a morte
    Pro cantador não morrer
    Enquanto existir viola
    Cantador tem que viver...”.

    Como podes ver, Laura, não apenas o texto magnífico com que nos brindaste, mas também o vídeo me chamou a atenção. E me bateu uma saudade imensa “daquele tempo” onde tudo era realmente perfeito...

    Não me atrevo a deixar sorrisos, pois estou a levar os que aqui me assomaram o semblante enquanto apreciava a tua postagem... Nem deixo estrelas, pois tu mesma fizeste com que aparecessem no meu olhar ao nos presentear com mais este mimo do teu coração.

    Mas deixo-te, menina linda, meu carinho embrulhado nas asinhas de um delicado beija-flor que está aqui à minha frente, compondo um quadro que acabei de ganhar.

    Que teu final de semana seja de muitas (e imensas) alegrias,
    Helena

    (Hoje fui esperta (risos), sabendo que "falaria" mais que "pobre na chuva" (expressão usada por aqui a dizer de quem fala muito) já me preveni e publiquei o comentário em duas partes, já que a extensão muitas vezes ultrapassa o número de caracteres pedidos. Assim procedi para não correr o risco de ver o comentário se perder, como já aconteceu de outras vezes... Vivendo e aprendendo (risos).

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    1. Fui pesquisar e vi que a Inezita Barroso foi uma mulher multi-facetada, e que o programa "Viola, Minha Viola" durou mais de três décadas!...
      O excerto da letra desta canção dela é bem forte, e um comprovativo poético da paixão que nutria pela viola, e da importância que a viola tem para todo o cantador. Assisti também ao video de "Marvada Pinga", uma moda muito engraçada ; "Cada vez que eu caio, caio diferente" ! :-)
      Feliz ou infelizmente, nem toda a gente tem a atenção que tu tens em relação ao que posto, senão acabaria por não ter tempo de responder a todos!! ;-)) Mas felizmente, acho eu, alguém toma atenção, e desta inter-acção que eu gosto, porque aprendo muito, e acerca de coisas que de outra forma não aprenderia.
      Os teus comentários acrescentam sempre tanto, e muito te agradeço o carinho e a valorização que dás ao que os outros escrevem.
      Obrigada, querida, e um fim de semana feliz, apesar dessa nuvem que de vez em quando sempre aparecerá.
      xxo

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  42. Com o calor humano que mais voz aquece,
    não sejam amiga Laura, pelo frio incomodados
    por causa do vento gelado proveniente da neve
    que cai na Serra de Monchique, próximo de Lagos!

    Um abraço.

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    1. O vento está muito gelado, mas de vez em quando lá aparece um pouco de sol para iludir um pouco o frio. A última vez que nevou em Monchique foi, salvo-erro, em 1982, num Carnaval que até em Coimbra nevou.
      Desejosa que passe este frio. :-)
      Tenha uma boa tarde, Eduardo.
      xx

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  43. Claro que o soneto é muito bom, especialmente as duas últimas estrofes. Tu não sabes escrever "sem graça".
    O nome do teu avô parece nome de português...Alguém conhecido, Marcos?...:-)
    xx

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  44. Cuantos recuerdos y añoranza hay en tu relato; por cierto, muy bien narrado. Me has recordado tus palabras y esa imagen de la cocina, mis años de joven, cuando vivía con mis abuelos en Extremadura, casi en la frontera con Portugal.
    Un beso, y me alegro mucho de que ya estés bien.

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    1. Obrigada, Manuel. Duas regiões que muito se tocam, Alentejo e Eztremadura espanhola.
      xx

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  45. Dei aulas em Santiago do Cacém. Belos tempos, por lá passei.
    Até conheci o Manuel da Fonseca!

    Beijinhos!

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    1. Quem gosta de calma, passará belos tempos no Alentejo.Um grande escritor alentejano, o Manuel da Fonseca! :-)
      xx

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  46. É um prazer voltar aqui, Laura.
    Beijos, menina!!!

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    1. Mas porquê voltar antes de novo post?!... Agradeço, Shirley, mas não precisa, por favor.
      xx

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  47. Ser "querido avô" é mais importante do que ser conhecido. O nome completo era afinal, para salientar o facto de Barbosa e Oliveira serem sobrenomes de "cristão novo". O meu apelido Santos, proveniente do meu pai, também é de "cristão novo", e meu pai é também Pereira!
    Pensei que Satoru fosse também sobrenome...
    Ascendência judaica e japonesa, Marcos?
    xx

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  48. Que perfeição, Laura!
    Um crítico, você sabe, mesmo que não queira acaba por encontrar tropeços naquilo que lê. Eu que o diga, que estive a revisar (reescrever, na verdade) a dissertação de mestrado de meu irmão!
    Mas nada, nada mesmo, nesta bela crônica, obsta a leitura fluente a que ela convida. Amei!
    Sumi por uns tempos, mas estou lutando por permanecer por aqui.
    Abraço!

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    1. Só posso ficar lisonjeada com a tua apreciação de doutorada em Letras. :-)
      Pois, pensei que te tivesses afastado definitivamente. Ainda bem que não é assim.
      Obrigada, Jussara.
      xx

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  49. Laura passando pra desejar uma excelente semana beijos.

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  50. ohhh adoro essa zona:)

    S.Torpes é uma das minhas praias preferidas :)) tantas lembranças.

    Um beijo

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    1. Ohhh, mas o texto não tem nada a ver com praia, tem?..:-))
      xx

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  51. Maravilhosa diversidade, Marcos!
    Eu acho que tenho uma parte de judia, e outra parte de moura. :-)
    xx

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  52. Laura, minha linda, passando apenas para te deixar uma delicada rosa matizada que tirei de um bouquet que recebi agorinha mesmo das mãos de uma linda garotinha. O valor maior vem além do gesto, pois ela, segundo a mãe atestou, tirou todos os espinhos! Imagina se não me emocionei às lágrimas... Gesto de extrema delicadeza (também o meu Guy pede para fazerem a mesma coisa na floricultura). Ah, se estes preciosos gestos de amor e carinho pudessem fazer também desaparecer os "espinhos" que muitas vezes ferem nossos pés ao caminhar... Quem dera!
    Mas fiquei tão feliz, amiga, que (e não saberia dizer o motivo) me lembrei de ti... Terá sido por esta intensa delicadeza que tens para com todos os que te visitam e que também nos levas ao nos visitar? Acredito que sim, pois pessoas como tu possuem o encanto de se fazer presente na nossa memória para serem "lembradas" em momentos tão valiosos.
    Que te cheguem horas lindas, salpicadas de estrelas e sorrisos.
    Meu carinho,
    Helena

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    1. Ah Leninha, assim tu me matas!...De emoção, ao inundar-me de tanto carinho.
      Porque será que as crianças te oferecem rosas, e sem espinhos?!...Quase parece alegoria; crianças, rosas, espinhos, em gestos doces que demonstram grande apreço por ti, e que só podem ter como explicação a tua maneira de ser e de estar.
      E até o Guy tem também essa delicadeza de pormenor; evitando ao máximo que algo te fira, até uma simples rosa...
      Os espinhos que ainda te tornam a caminhada penosa, deixarão um dia de ser tão penetrantes, porque o tempo, e as imensas pessoas que te amam, farão com que, embora os espinhos lá estejam, possas contornar esse caminho de vez em quando.
      Obrigada, querida, eu sei como a Medicina te ocupa tanto, e como é difícil para ti ter disponibilidade para visitar o "pessoal" amigo, por isso as tuas palavras têm em mim um significado ainda mais profundo.
      Hoje estou muito bem disposta, está sol! :-)
      xx

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  53. Mas não é conflito de tipo religioso, não, maninho. :-)
    xx

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  54. Laura , este seu texto me fez lembrar de minha avó paterna , portuguesa e doce como você . Muito obrigada por partilhar esta beleza e também , pelas visitas carinhosas ao meu espaço . Beijos

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  55. Olá, Laura.
    Alegra-me que estejas de regresso. E, principalmente, que estejas com a "pena a dançar nos dedos", pois que trazes umas postagens formidáveis. Esta crónica (podemos chamar-lhe assim?) levou-me contigo a estrear o vestido novo e a viajar a teu lado pelas tuas memórias.
    Até eu vivi a alegria de encontrar uns braços abertos de avó e, desejei, eu também! os carinhos especiais das mãos calejadas (os carinhos da tua avó, nas tuas palavras, trouxeram-me à lembrança os melhores carinhos que eu já tive na vida: os carinhos das mãos calejadas do meu pai).
    Andei contigo a cada frase e senti-me em pleno Alentejo. Até quase julguei ouvir teu avô a tocar...
    Belíssima narrativa, a beirar a poesia.
    As tuas memórias do tempo em que tudo era perfeito fazem a emoção brotar das palavras.
    Bonito, Laura.
    Escreves muito bem.
    Mas a mim, das tuas palavras salta à vista, que quem sente bem assim, certamente é do bem.
    deixo-te um bj amg

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    Respostas
    1. Olá Carmem!
      Aprendi com a rusticidade afectuosa dos meus avós, e depois com a coragem e sensibilidade de minha mãe, os valores fundamentais e a nunca desviar-me deles. Costuma dizer-se que o exemplo é a melhor forma de educação, e é.
      Obrigada, e bom regresso às lides! :-)
      xx

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  56. Delícia essas reminiscências do passado.
    Beijo, Laura querida!!!

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  57. Posso entrar também na camionete e gozar da tua companhia para conhecer a tua aldeia ouvindo uma viola caipira? Para um mortal como eu, é um sortilégio essa crônica, este passeio pela memória, estas reminiscência com uma linguagem tão encantadora. Essa prosa impregnada de poesia porque não há outra possibilidade na sua escrita. A poesia se derrama com naturalidade. Ainda que não o quisesses. Esta no teu sangue.
    Repare que não pedi licença para entrar na tua casa porque achei que o meu silêncio não me faria perder este privilégio de poder fazê-lo sempre que me aprouvesse. Sou pretensioso, não precisa dizer-me (risos).
    Brincadeira à parte, é a confiança na amizade, na reciprocidade no carinho e no respeito.
    Adorei o texto. É sempre uma alegria de lê-la, incluindo os comentários (risos).
    O meu abraço sempre, todos os dias, porque todos os dias é para se homenagear as mulheres.

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    Respostas
    1. Até na minha vida diária derramo por vezes poesia, o que em certas ocasiões não é nada aconselhável, e por isso a minha prosa, por mais que tente que o não seja, acaba por ser quase sempre poética.
      Gosto da tua "pretensiosidade"; afinal a porta de casa está sempre aberta para os amigos.
      Sim, há comentários muito interessantes...;-)
      Obrigada, Zé. Pela visita, pelo comentário, e por esse abraço que todas as mulheres deveriam receber "todos os dias".
      xx

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