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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Aristides de Sousa Mendes


O historiador Yehuda Bauer, no seu livro "A History of the Holocaust", escreve:
"O Cônsul português em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes, concede vistos de trânsito a milhares de judeus refugiados, em transgressão das regras do seu governo. Talvez a maior acção de salvamento feita por uma só pessoa, durante o Holocausto".



 Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches nasceu em Cabanas de Viriato, distrito de Viseu, em 1885, e faleceu em Lisboa em 1954. Nascido no seio de uma família aristocrática e católica, o pai foi juiz em Coimbra, e a mãe pertencia à Casa de Midões, de tradições "liberais".  Aristides tinha um irmão gémeo, César, que viria também a ser diplomata, e um irmão mais novo. Acabou o curso de Direito na Universidade de Coimbra em 1907, entraria para a carreira consular, tendo passado por Zanzibar, Brasil, Estados Unidos, Espanha, Luxemburgo, Bélgica, e finalmente Bordéus, França.
 Casado com Maria Angelina desde 1909, a família cresceria a par da sua carreira diplomática, tendo o casal tido 14 filhos. Quatro nascidos em Zanzibar, dois no Brasil, dois nos Estados Unidos, um em Espanha, dois na Bélgica, e três em Portugal. Homem de família, nunca dela se separou, e para além da instrução escolar, os seus filhos tiveram também formação em Pintura, Desenho e Música. "Lá em casa , tocava-se Chopin, Mozart, Bach, Beethoven, etc..", segundo um dos filhos.
 De trato afável, facilmente fazia amigos. Em Zanzibar, o sultão foi padrinho de dois dos seus filhos, e o rei Leopoldo da Bélgica terá dito uma vez em público : "Ah voilà mon ami, le Consul Général du Portugal!", tendo convivido durante os seus nove anos na Bélgica, com Maeterlinck, Prémio Nobel da Literatura, e com Albert Einstein que por lá passou em 1935, quando decidiu deixar a Alemanha a caminho dos Estados Unidos.

 Destituído da carreira diplomática em 1919, devido às suas convicções monárquicas, é no entanto readmitido dois anos mais tarde, para dirigir o Consulado de São Francisco nos Estados Unidos, tendo a partir da instauração do Estado Novo iniciado a sua carreira na Europa; em Vigo, e depois em Antuérpia.
 Colocado em Bordéus em 1938, com o início da Segunda Guerra Mundial e a invasão da França pela Alemanha nazi em 1940, decide, devido ao afluxo de milhares de refugiados em fuga, conceder durante uma semana, vistos de entrada em Portugal, contrariando ordens expressas de Salazar. Costuma apontar-se para 30 000 o número de refugiados salvos, mas ao certo ninguém parece saber o número exacto.  Independentemente do número exacto, esta desobediência acabaria por custar-lhe um processo disciplinar, o afastamento da carreira diplomática, e o exercício de qualquer outra actividade profissional, tendo inclusivamente sido impedido de trabalhar como advogado, e não tendo direito a aposentação. Aristides elabora a sua defesa com base em valores éticos e humanitários, mas Salazar nunca aceitaria recebê-lo, e acabaria mesmo por "apoderar-se" do acto de Sousa Mendes, através de um Editorial do Diário de Notícias, no qual o ditador é louvado por ter salvado milhares de refugiados a partir de França.
Ostracizado pelo regime, pelos seus pares, e até por alguns familiares e amigos. Os filhos, perseguidos, são forçados a emigrar, tendo dois deles integrado as tropas americanas em 1943, e participado  na invasão da Normandia em 1944. A morte da esposa em 1948 tê-lo-á deixado ainda mais só, tendo vindo a falecer seis anos depois.



 Desde sempre ao abandono, e considerada monumento nacional desde 2011, a Casa do Passal, palacete da família Sousa Mendes, começou a ser intervencionada o ano passado, porque em perigo de ruir, não tendo em vista contudo uma recuperação total do edifício, mas apenas uma nova cobertura e o reforço dos pilares. A intenção da Fundação Aristides de Sousa Mendes é criar ali futuramente um museu. Quando, não se sabe...




  "Désobéir", filme realizado por Joël Santoni em 2008, e o "O Cônsul de Bordéus",  realizado por Francisco Manso e João Corrêa, em 2012 serão as únicas homenagens cinematográficas. Escolhi o tributo Benedictus do Requiem composto por Luís Cipriano, em memória de Aristides de Sousa Mendes.