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quinta-feira, 25 de abril de 2013

Salgueiro Maia


O capitão que existiu para cumprir o destino de um povo



"Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegamos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegamos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!" 
Palavras dirigidas aos 240 homens sob o seu comando, na madrugada de 25 de Abril de 1974, que imediatamente formaram à sua frente


 Fernando José Salgueiro Maia nasceu em Castelo Vide em 1944. Faleceu em Lisboa em 1992, aos 47 anos, precisamente no mês de Abril, vítima de cancro. Depois da revolução , licenciou-se em Ciências Sociais e Políticas.
 Comandou a coluna de blindados que partiu de Santarém rumo ao Terreiro do Paço,como braço de rio que se espraiasse sem pressa, como se o destino só pudesse ser aquele, tendo conseguido, já ao fim do dia, a rendição de Marcelo Caetano, numa das revoluções mais poéticas da História.
 Imagino a penumbra das longas horas prenhes de decisão, audácia, até improviso, feitas de gestos e sombras na noite, num país de profundezas e superfícies amarradas. Numa ditadura de olhar severo, labirinto de opressão, de desesperados prantos ao anoitecer, de vozes abafadas, de perseguições, de subjugação do outro. De experiências de guerra em terras longínquas que deixaram em jovens um futuro de pesadelos inconfessáveis. Um reino de raiva surda, de medos e marés contidas.
 O erro e a indecisão poderiam ter sido fatais para a claridade do dia, contudo não houve dúvida ou  qualquer tipo de reticência... Não sei se Salgueiro Maia foi prudente, mas se a tarefa que tomou como sua fosse segura, qualquer um a poderia ter executado. Falar é fácil, digo eu, que tenho a mania de governar-me por palavras, mas só na acção, só com atitude, mesmo o muito difícil, o impossível, pode tornar-se realidade.
 Salgueiro Maia faz parte dessa estirpe de homens que faz o que considera correcto, sem desejar para si qualquer tipo de recompensa, tendo rejeitado sempre qualquer cargo de influência militar ou civil. Com um coração suficientemente fundo para nele guardar os anseios do mundo inteiro. Um homem com sede de coisa nenhuma a não ser a liberdade do seu país. Ser grande é entender que, independentemente do valor do acto, não faz sentido qualquer tipo  de sobranceria ou endeusamento, por isso tenho por este homem uma admiração afectuosa. Não se acomodou, lutou por todos, e sem o seu sentido de comando, determinação e coragem, a deposição do regime não teria sido possível.
 "A única solução do que é diferente é ser diferente até ao fim, com todo o valor, todo o vigor e toda a rija impossibilidade; tomar as atitudes que ninguém toma e usar os meios de que ninguém usa; não ceder a pressões, nem aos afagos, nem às ternuras, nem aos rancores; ser ele; não quebrar as leis eternas, as não-escritas, ante a lei passageira ou os caprichos do momento; no fim de todas as batalhas - batalhas para os outros, não para ele, que as percebe - há-de provocar o respeito e dominar as lembranças; teve a coragem de ser cão entre as ovelhas; nunca baliu; e elas um dia hão-de reconhecer que foi ele o mais forte e as soube em qualquer tempo defender dos ataques dos lobos" (Agostinho da Silva)
 Creio que tenha passado, nesse dia tão longo, por momentos de absoluta solidão. Pessoas  penduradas em árvores no Largo do Carmo, suspensas de negociações  tensas e infindáveis... culminando com a rendição de Marcelo Caetano, que viria a ser escoltado pelo próprio Salgueiro Maia ao avião com destino ao exílio no Brasil, numa viragem de percurso pacífica.






 A arte e o pensamento livres de vozes oprimidas desabrochariam, num renascimento de uma contra-cultura que sai de si, que deixa de ser teoria para ser praxis, embriaguez que rejeita a ordem e abraça a desordem, rejeita o monólogo e tenta investir no diálogo.
  Cravos brotaram nos canos das armas. Cantou-se. O país abriu os olhos de  alegria e de espanto e sorriu.

A SALGUEIRO MAIA

Aquele que na hora da vitória
respeitou o vencido
Aquele que deu tudo e não pediu a paga
Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite
Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício
Aquele que foi "Fiel à palavra dada à ideia tida"
como antes dele mas também por ele
Pessoa disse

                                                                                              Sophia de Mello Breyner


 Salgueiro Maia recebeu em 1983 a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, a Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor e Mérito em 1992, a título póstumo, e a Medalha de Ouro da cidade de Santarém.
 Em 1988 requereu ao então primeiro ministro Cavaco Silva, uma pensão por serviços excepcionais e relevantes prestados ao país, pedido para o qual nem obteve resposta. Cavaco Silva concordaria no entanto com a atribuição de pensões a dois ex- inspectores da PIDE, um dos quais envolvido no tiroteio frente à sede da Polícia Política,na António Maria Cardoso, em 1974.
 Convém lembrar.


 "Capitães de Abril", filme de Maria de Medeiros, realizado em 2000 








sábado, 29 de dezembro de 2012

J.C.Ary dos Santos


" E as coisas que não disse? Que não digo:
Meu terraço de ausência meu castigo
Meu pântano de rosas afogadas"

 José Carlos Pereira Ary dos Santos foi um dos grandes poetas portugueses (Lisboa 1937-Lisboa 1984).Nascido numa família burguesa enraizada na aristocracia,decide sair de casa por volta dos 16 anos de idade,e é também nessa altura que alguns dos seus poemas integram a Antologia do Prémio Almeida Garret, mas poderemos dizer que a sua verdadeira entrada na escrita se dá com "A Liturgia do Sangue".
 A sua poesia chegaria facilmente ao grande público através de mais de 600 fantásticas letras para canções que ficaram célebres, tendo sido cantado por inúmeros artistas dos quais destaco Simone de Oliveira,Tonicha, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Carlos do Carmo, Amália, Maria Armanda,Tereza S. Carvalho, Maria da Fé, Dulce Pontes, Kátia Guerreiro, e muitos outros... Em 2009, Mafalda Arnauth, Susana Félix, Viviane e Luanda Cozetti prestaram-lhe homenagem com " Rua da Saudade".
 Depois da sua morte foi-lhe atribuída a Grande Ordem do Infante D. Henrique,e o seu nome foi dado a um largo de Alfama, bairro onde viveu praticamente toda a sua vida.
 Grande declamador expressou melhor que ninguém "As Portas que Abril Abriu".
 Abril escancarou portas que ameaçam fechar-se num futuro próximo. Que poemas escreveria Ary, um homem sem papas na língua, na situação actual do país?...
          
     
         
     De destaque na sua obra "Asas"(1953), "A Liturgia do Sangue"(1963, "Tempo da Lenda das Amendoeiras"(1964),  "Adereços, Endereços"(1965), "Insofrimento in Sofrimento"(1968), "Ary dos Santos por Si Próprio"(1970), "Poesia Política"(1974), "Llanto para Alfonso Sastre y Todos"(1975), "As Portas que Abril Abriu"(1979), "O Sangue das Palavras"(1983), etc...


DESESPERO

Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.

Não eram meus dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.

Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
possesso desta raiva que me deu

A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o esperma que te dou, o desespero.

                                                       in "Liturgia do Sangue"



Letra de Ary dos Santos, música de F. Tordo na voz de Carlos do Carmo, "Estrela da Tarde"