sábado, 29 de dezembro de 2012

J.C.Ary dos Santos


" E as coisas que não disse? Que não digo:
Meu terraço de ausência meu castigo
Meu pântano de rosas afogadas"

 José Carlos Pereira Ary dos Santos foi um dos grandes poetas portugueses (Lisboa 1937-Lisboa 1984).Nascido numa família burguesa enraizada na aristocracia,decide sair de casa por volta dos 16 anos de idade,e é também nessa altura que alguns dos seus poemas integram a Antologia do Prémio Almeida Garret, mas poderemos dizer que a sua verdadeira entrada na escrita se dá com "A Liturgia do Sangue".
 A sua poesia chegaria facilmente ao grande público através de mais de 600 fantásticas letras para canções que ficaram célebres, tendo sido cantado por inúmeros artistas dos quais destaco Simone de Oliveira,Tonicha, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Carlos do Carmo, Amália, Maria Armanda,Tereza S. Carvalho, Maria da Fé, Dulce Pontes, Kátia Guerreiro, e muitos outros... Em 2009, Mafalda Arnauth, Susana Félix, Viviane e Luanda Cozetti prestaram-lhe homenagem com " Rua da Saudade".
 Depois da sua morte foi-lhe atribuída a Grande Ordem do Infante D. Henrique,e o seu nome foi dado a um largo de Alfama, bairro onde viveu praticamente toda a sua vida.
 Grande declamador expressou melhor que ninguém "As Portas que Abril Abriu".
 Abril escancarou portas que ameaçam fechar-se num futuro próximo. Que poemas escreveria Ary, um homem sem papas na língua, na situação actual do país?...
          
     
         
     De destaque na sua obra "Asas"(1953), "A Liturgia do Sangue"(1963, "Tempo da Lenda das Amendoeiras"(1964),  "Adereços, Endereços"(1965), "Insofrimento in Sofrimento"(1968), "Ary dos Santos por Si Próprio"(1970), "Poesia Política"(1974), "Llanto para Alfonso Sastre y Todos"(1975), "As Portas que Abril Abriu"(1979), "O Sangue das Palavras"(1983), etc...


DESESPERO

Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.

Não eram meus dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.

Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
possesso desta raiva que me deu

A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o esperma que te dou, o desespero.

                                                       in "Liturgia do Sangue"



Letra de Ary dos Santos, música de F. Tordo na voz de Carlos do Carmo, "Estrela da Tarde"








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