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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Corsino Fortes

 Corsino Fortes nasceu no Mindelo (Ilha de S. Vicente), Cabo Verde, em 1933. Poeta e político cabo-verdiano, fez parte de vários governos do seu país e foi o primeiro embaixador de Cabo Verde em Portugal. De destacar a sua obra "Pão e Fonema" de 1974, e "Árvore e Tambor" de 1986.


HOJE CHOVIA A CHUVA QUE NÃO CHOVE
                                                                    Canto II

    Quando a África incha seus músculos de sangue e secura
    Não há Sahel que não queime
    No coração da noite
    A sua salina de solidão

    Não há boca que não chova a sua gota de corpo e alma

    Nem gota
    De água doce que não seja
    Um espaço! para amar e habitar

    Por vezes! O relâmpago

    Escreve coisas vivas na boca do arquipélago

    E as ilhas soerguem-se

    pelo arquipélago das patas
    E vão

    De cratera em cratera

    Erguer
    Na boca das sementes
    A força contida dos vulcões

    Homem! deus é grande entre duas ilhas

    Se baleias emergem da gota do teu rosto

    Na ilha! A cicatriz de deus é grande

    Mas a ferida do homem é maior

    Canção! no arbusto da viola


    Que chove

    A lírica de deus é grande
    Mas a música do homem é maior

    Mulher! quando o céu da tua boca

    Arrasta o corpo da terra
    Até à goela da água longínqua
    A febre conta no arco-íris
    Da carne que sangra
    A montanha roída dos dentes...

    E da cicatriz da mão

    Brotam raízes
    Que vicejam a memória dos séculos.
                                                           
                                                         in "Árvore e Tambor"

Uma pequena homenagem a Cesária Évora, também ela nascida no Mindelo (1941-2011)