"Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita"
Carlos Drummond de Andrade
Da água diz-se que é doce. No entanto pode remeter-nos para experiências amargas. Mais do que elemento físico e químico essencial, é também metáfora, representação simbólica e imagem de circunstâncias e estados de alma.
Dela dependemos para beber, lavar, preparar alimentos, até para respirar...Lava tudo, diz-se, embora nem a seco as más acções se consigam limpar, principalmente as de carácter mudo, já que torrente de água que não se anuncia pode ter efeitos devastadores, tal como águas estagnadas não serão também dignas de confiança. Engrossadas por lama poderão funcionar como autênticos atoleiros.
Sabemos que "águas passadas não movem moinhos"* e que "mentir é deitar água em saco roto"*, lançando no esgoto algo de tão valioso como a verdade que deveria caminhar à tona de água e não sofrer ondulações ao sabor das correntes. Pode ser bálsamo, ou nela eventualmente nos afogarmos, embora como estamos podres de saber mais gente se afogou em vinho do que em água, porque "dar de beber à dor" não tem a ver com falta de água.
Podemos encontrá-la em rios e lagos, albufeiras, poços, cascatas, mas também em vapor que se ausenta em nuvem de sede que poderemos ter que procurar um dia, penosamente, num qualquer fim de mundo, em lençóis subterrâneos escondida, ou em recôndito oásis difícil de alcançar. Solidificada em glaciares, controlada por diques, canais, ou em caudal livre, serpenteando entre vales como seiva da natureza. Nuvens negras oferecerão gotas que encherão leitos e bacias, originando terrenos férteis ao seu redor, fazendo germinar sementes adormecidas. Tal como de situações adversas nos pode surgir a luz essencial como água bruta, para plantar graciosamente jactos de festa.
Pouco inundo de beleza à minha volta, talvez porque gota libertada por mim nesta imensidão de ideais e necessidades acabe por sentir-se impotente. Contudo um conjunto de gotas enlaçadas poderá ajudar a fazer flutuar e dar rumo a este oceano de veleiros desnorteados e jangadas à deriva; possibilidade de variadas rotas, esperança de travessias dum lado ao outro do mundo.
Em água lisa e calma, espelho reflector do teu rosto e do meu, mergulho fundo e refresco-me. Em caso de turbulência fico a observar o movimento das ondas a bater no pontão junto ao cais; entrar ousadamente em mar revolto quando nem mestria se tem para estar em terra firme pode tomar contornos de balde de água fria...
Se algo for por água abaixo, evocar toda a nossa paciência, e nunca tentar desviar a corrente do seu curso natural; vaga a espatifar-se nas rochas, catarata em potência ou mero sumiço a escoar-se rapidamente em qualquer ralo. Não sendo peixe nem sereia, as profundezas podem ser de tranquilidade ou de tumulto, quase sempre de escuridão e perigo. Pior que achar-se peixe fora de água, é sentir que a água era turva, que a enxurrada de surpresa não permitiu a retirada atempada, e que as poças de lama fria que ficaram, nos continuam a suscitar um mar de lágrimas transparentes e geladas. Sentir que a paz nos foi roubada e que nenhuma bonança ou arco-íris resplandecente será jamais capaz de aquietar sedes de água salgada. Triste, no entanto, a indiferença, até satisfação, com que alguns observam os que se debatem na água, esperando sem qualquer tipo de embaraço, que o ar e o pé lhes falte.
Mesmo que as linhas de água que tenhamos gerado não tenham surgido de grandes nascentes, correrão inevitavelmente entre penhascos de pedras, às vezes tão solitariamente que ninguém delas dará conta. Mas quem pressente a subida das marés e a humidade dos corpos, tem para si que
a natureza nos presenteia com a água, mas que depende de nós a forma como dela enchemos a nossa vida, porque se "a ciência desenha a onda; a poesia enche-a de água"(T.de Pascoaes).
Gotas de granizo caíram como pérolas dos beirais, pingando desamparadas na terra iluminada pela manhã que acaba de nascer. Imagino ao longe uma clepsidra, e o tempo que me resta, a esvair-se apressadamente na distância. Passos ligeiros e apressados fazem, bem perto de mim, o seu percurso sequioso e incerto a caminho das fontes.
Escolhi para este texto "Little Water Song", composição de Nick Cave, aqui interpretada por Ute Lemper.Esta canção integra uma das cenas do filme de John Turturro "Romance & Cigarettes" que tem no elenco um actor que gosto: James Gandolfini.
*Provérbios

Texto profundo, verdadeiro, muito bonito
ResponderEliminarGostei muito de ler...
Obrigada Ricardo. Fico contente que tenhas gostado.
EliminarBom dia Laura.. texto para ser refletido.. a agua que bebo tem algo especial tem a energia do sol nela.. então é a minha cura diária.. e faz bons anos que sou adepto de por ela para energizar no sol.. gostei do texto um lindo dia bjs
ResponderEliminarOlá Samuel!
EliminarNada melhor que água e sol para dar energia. Obrigada pelo comentário.
Um dia lindo também para si.
bjs.
Adorei o texto, muito denso e com todas essas expressões relacionadas com a água.
ResponderEliminarSofia
Ainda bem, Sofia. Existem muito mais expressões, mas não se pode abarcar tudo...
Eliminargostei muito, muito bem escrito, quando leio os teus textos da-me que pensar... tu devias escrever um livro , acho que irias ter muito sucesso...porque tens muito talento :-)
ResponderEliminarBeijinhos de Gladbeck
Tu és uma querida, mas vou-te dizer uma coisa, há talentos que realmente não servem para nada...a não ser o prazer que tiramos deles...:-)
EliminarBeijinhos
o que eu tenho pena, e de nao conseguir ouvir a musica...a maior parte dos teus videos nao da para ver aqui na Alemanha..
ResponderEliminarPois, isso é pena, mas se queres ouvir a música é só googlar youtube Ute Lemper e o título da canção. Não creio que na Alemanha não se consiga ouvir esta música....x
Eliminaradoro a Lemper. o texto é denso, mais denso que a água.
ResponderEliminarEu também adoro a Lemper, uma interprete extraordinária.
EliminarO texto pode ser denso mas não tão denso como certas águas....
Abençoado Mar Morto...:-)
OLA laura,
ResponderEliminarsans eau on ne peut pas vivre!
L'eau est sorce de vie..
ME GUSTO TU POST
GOSTEI MUITO DE LER TB.
beijos, bisous, besos
Olá Poseidón! Bem vindo.
EliminarSim, água é fonte vida. Se leu e gostou fico muito contente por isso.
O que vale é que compreendo as três línguas senão teria ficado confusa,lol.
Beijos
l'eau est source de vie..
ResponderEliminarPois, faltava o u....:-)
EliminarConvidativa esta "Água" que jorra da sua bica.
ResponderEliminar:)
Bom fim de semana!
Obrigada, Rui, mas nem eu sei se jorra...mas pelo menos goteja alguma coisa...:-)
EliminarSinto falta dos seus posts. Espero que esteja tudo bem.
Bom fim de semana!
Depois do texto sobre o Alentejo não pensei que pudesse voltar a surpreender-me, mas aí está outro texto fantástico. Parabéns, Laura por mais este texto que li várias vezes.
ResponderEliminarManuela Pires
Bondade sua Manuela, bondade sua. Obrigada.
EliminarAdorei este texto, tão profundo e tão belo.E gostei imenso da escolha da música. a letra até parece ter sido feita para o texto. Muito bom.
ResponderEliminarAna Silva
Obrigada, Ana. Os teus gostos musicais parecem ser parecidos aos meus...:-) x
EliminarA água desperta-me emoções variadas, consoante o seu estado.
ResponderEliminarA água do mar acalma-me, relaxa-me e diverte-me.
A água da chuva a bater na janela emociona-me e faz-me ter vontade de mimar alguém.
A água em forma de granizo é entusiasmante.
A água em gelo alivia-me, faz-me desfrutar de bebidas frescas.
S*, é verdade, a água pode despertar-nos emoções tão variadas, consoante o seu estado , e o nosso próprio estado de espírito. Gostei muito do teu comentário.
ResponderEliminarFico muito Feliz com sua visita em minha página. Agradeço também suas palavras generosas. Seu espaço também é muito belo.
ResponderEliminarEstes últimos tempos tenho tido pouco tempo para passear pelos blogs dos amigos, mas logo volto.
Um grande abraço
Obrigada Malu. Tu és uma mulher muito bonita, e sim , eu compreendo o que se está a passar. boa sorte e muita esperança.
ResponderEliminarOlá Laura
ResponderEliminarSeu blog é um encanto!
Tudo lindo e de muito bom gosto.
Se puder dá uma passadinha no meu e segue também se gostar.
Beijos
Ani
HTTP://cristalssp.blogspot.com.br
Obrigada, Ani. Irei visitar o seu, com todo o prazer e um pouco mais de tempo nos próximos dias.
EliminarBeijos
Isso é que foi "meter água"....;) , no texto e na música!
ResponderEliminarJoão Nicolau
Aaahhh! Boa, João, realmente foi só "meter água"!
EliminarOlá!
ResponderEliminarGostaria de ter uma renda extra mensal com seu blog trabalhando em casa em seu computador?
Não se trata de vendas e nem precisa indicar pessoas.
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Não, obrigada.
EliminarA água não lava tudo Laura
ResponderEliminarNão lava a dor, a alma. Pode apagar a sede, mas nem toda a sede...pode apagar o fogo, mas nem todo o fogo.
Nick Cave? Também gostas? um dos que guardo religiosamente pelas lembranças que trazem.
Beijo
Claro que a água não lava tudo, não lava a dor, não lava a alma , como dizes,nem as más acções; não leste o texto concentrado....pudera! Vindo de um caril de gambas , música e champanhe bruto....;-)
EliminarTal como não mata toda a sede, por isso há gente que se afoga em tanta coisa que não água, e claro que quanto ao fogo , depende do fogo....por isso falo em sede de água doce e sede de água "salgada ".....:-)
Sim gosto muito do Nick Cave, acho que sabe escrever muito bem as canções.
Beijo
Li li, menina Laura....as más acções provocam dor, ferem a alma. E outros provérbios que ali estão ainda fazia um comentário maior que o teu texto (que eu adorei, não penses outra coisa:))
EliminarTem piada que só reparaste na comida e bebida :)))
Beijo
Ah, claro que os provérbios dariam pano para mangas, e claro que leste tudo com muita atenção...eu só queria provocar-te...:-)
EliminarNão, não reparei só na comida e na bebida, também reparei nas mesas e na música, e no teu sentido de humor saudável, mas como sabes ao comentar posts longos, acabamos sempre por não comentar todos os pormenores...
Uma boa semana!
Olá, Laura!
ResponderEliminarQue texto soberbo!
Com a palavra "ÁGUA", construiu rios de ideias, mares de encantamentos, que me deslumbraram.
Não é fácil escrever assim, e tanto. A Laura é uma torrente de emoções. Que venha o fogo para as apagar!
Feliz dia.
Beijos da Luz.
Publicação mais recente encontra-se no blogue: "Luzes e Luares". Obrigada!
Olá Emília! Obrigada pelos seus comentários, que muito aprecio, mas "soberbo" talvez seja um pouco exagerado.Se a consegui deslumbrar fico muito contente por isso. Acho que a Emília é a pessoa que melhor compreende o que escrevo; o que explicito e o que não explicito, e as imagens que utilizo para expôr emoções. O que significa que quem sabe escrever também "sabe ler"...
ResponderEliminarSim, uma torrente de emoções! E nada melhor que fogo para apagar fogo; um "corta-fogo", como se faz por vezes para controlar certos incêndios....;-)
Um feliz dia também para si. Vou já dar uma olhada...
xx
Boa noite, querida Laura!
EliminarNa realidade, tenho alguma facilidade em perceber aquilo que os outros escrevem, mesmo nas entrelinhas, chego lá. O facto de ter feito dois anos de Psicologia, ser Professora de Português e ser mulher, ajudam imenso.
O fogo deve ser sempre apagado, porque há devastações na alma, que deixarão cicatrizes para sempre, caso não se proceda à extinção daquele fogo. Depois, virão outros, se Deus quiser, e nós.
Obrigada pelos seus comentários nos meus blogues, mas o que deixou no "Luzes e Luares", fez-me pensar, e deixei-lhe lá, umas palavrinhas.
Só há mulheres mal amadas, quando as mesmas o permitem. Os homens, sem nós, dificilmente sobrevivem.
Não ter tido lençóis de cetim? Laura, então, esqueceu esse "truque" tão importante?
Quanto ao seu vestido vermelho, não o soube fazer vingar, acredite. Desde os 18 anos, que anualmente, eu compro um, tal como sapatos, da mesma cor.
Faz parte da "casa", que é o meu corpo.
Vamos lá comprar essas duas peçazinhas, nem que seja para vestir só para si, e envolver-se, rebolar-se nos lençóis. Aconselho, salmão muito claro.
A sensação é... não lhe vou dizer, porque quero que experimente.
Beijo da Luz.
Devo ter sido eu então que tenho levado equivocada estes anos todos...:-)
EliminarMas acho que se a paixão existe não são necessários lençóis de cetim ou vestidos e sapatos vermelhos; soa-me bem uma paixão que não precise disso. Enfim não percebo nem de paixões, nem de amor, por isso continuarei a vestir as minhas jeans,os meus vestidos pretos, brancos, floridos, a calçar os meus ténis e as minhas flip- flops.
O vermelho não é uma das minhas cores preferidas; é até para mim uma cor um pouco cansativa , mas compreendo que muita gente goste.
Mas adorei a sua exposição, Emília.
xx
Gostei muito do seu texto, muito mesmo.
ResponderEliminarObrigada por se ter dado ao trabalho de comentar.
EliminarOlá! Desculpe a intromissão desavisada, mas como poderia deixar de me encantar com tamanho talento? A água parece ser simples, mas quando os dedos do artista a toca, se transforma em oceano de poesias! abraços
ResponderEliminarOlá Ives!
EliminarHá intromissões desavisadas que são boas surpresas. Sim, a água tal como todos os outros elementos podem inspirar-nos, não apenas como elementos físicos essenciais mas também como ponto de partida para construção de outras imagens. Obrigada pelas suas palavras.
Um abraço!
Olá Laura!
ResponderEliminarLindo blog,lindas palavras,amei!Bjs
Muito obrigada Bela Flor!
EliminarBjs