sexta-feira, 7 de junho de 2013

Joaquim Pessoa


"Às vezes a felicidade está em fugir daquilo que procuramos" 


 Joaquim Maria Pessoa nasceu no Barreiro em 1948. Desde sempre ligado à Publicidade e ávido estudioso de arte pré-histórica, foi director criativo de várias revistas, fundou com Ary dos Santos, F. Tordo e Carlos Mendes, entre outros, a cooperativa artística "Toma Lá Disco" e fez programas de televisão.
 É no entanto como poeta que atinge grandeza. Não existe nenhum poema de J. Pessoa que eu não considere sublime, pela simplicidade e riqueza líricas que me causa deslumbramento. Uma escrita escorreita de inquietação e de luz, em rima ou em verso livre; veículo vertiginoso, tanto para o real como para o figurativo, na qual o ser e o desejo têm presença constante; subjectividade de experiência dos sentidos e respectiva eroticidade.
 Agraciado com o Prémio da Associação Portuguesa de Escritores e da Secretaria de Estado da Cultura, com o Prémio António Nobre e o Prémio Cidade de Almada, são tantas as suas obras,que salientarei apenas: "O Pássaro no Espelho"(1975), "Amor Combate"(1976), "Canções de Ex-Cravo e Malviver"(1977), "Português Suave"(1978), "Os Olhos de Isa"(1980, "O Livro da Noite"(1981), "O Amor Infinito"(1982), "Sonetos Preversos"(1984), "Peixe Náufrago"(1985), "À Mesa do Amor"(1994),"Sonetos Eróticos & Irónicos &Sarcásticos & Satíricos &de Amor & Desamor & de Bem & de Maldizer do poeta Joaquim Pessoa"(2008)......


     AMEI DEMAIS

                                         Madruguei demais. Fumei demais. Foram demais
                                         todas as coisas que na vida eu emprenhei.
                                         Vejo-as agora grávidas. Redondas. Coisas tais,
                                         Como as tais coisas nas quais nunca pensei.

                                         Demais foram as sombras. Mais e mais.
                                         Cada vez mais ardentes as sombras que tirei
                                         do imenso mar de sol, sem praia ou cais,
                                         de onde parti sem saber porque embarquei.

                                         Amei demais. Sempre demais. E o que dei
                                         está espalhado pelos sítios onde vais
                                         e pelos anos longos, longos que passei

                                         à procura de ti. De mim. De ninguém mais.
                                         E os milhares de versos que rasguei
                                         antes de ti, eram perfeitos. Mas banais.

                                                                                                      in  "Ano Comum"




 Cantado, entre outros, por Carlos do Carmo, Carlos Mendes, F. Tordo, José Mário Branco e Rui Veloso, embora goste de "Amélia dos Olhos Doces", escolhi Kátia Guerreiro a cantar o poema  de J. Pessoa, "Talvez não Saibas"




 E para terminar:


ABRAÇA-ME

 Abraça-me. Quero ouvir o vento que vem da tua pele, e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos. Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida na palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos para provar o sabor que tem a carne incandescente das estrelas. Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti eu possa buscar o sentido dos sentidos, o sentido da vida. Procura-me com os teus antigos braços de criança, para desamarrar em mim a eternidade, essa forma formidável de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram. Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de amor. Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos, para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros pequeninos. Só essa água fará reconhecer o mais profundo, o mais intenso amor do universo, e eu quero que dele fiquem a saber até as estrelas mais antigas e brilhantes. Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais. Uma vez que nem sei se tu existes.
                                                                                                                 
                                                                                                        in "Ano Comum"


                                                                                                     Tela de Jiri Borsky




20 comentários:

  1. Descobri Joaquim Pessoa o ano passado através de uma amiga. Vi-me grega para comprar o Ano Comum. Teve que ser através da editora! É um dos meus eleitos!

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  2. Para mim também, desde a minha adolescência.
    Espero que esteja no bom caminho para uma recuperação plena.x

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  3. Não conhecia esse Quim ;) Identifiquei-me com algumas partes do poema.

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  4. Estou a ver que a qualidade continua ser a imagem de marca. J. Pessoa é um dos grandes poetas contemporâneos.

    João Cristóvão

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    1. Obrigada João Cristóvão. Sim, Joaquim Pessoa é um dos grandes.

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  5. Também gosto de Joaquim Pessoa e partilho da tua opinião sobre ele. E mais, amei demais este teu post :)))

    Só não gosto é das sombras...nem demais nem de menos. Não gosto mesmo da sombra. Lembra-me o frio....

    Beijo

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    1. Quem goste de poesia só pode mesmo gostar de J. Pessoa, e sim este post era mesmo para amar demais...:-)
      Não gostas da sombra?! Eu adoro a sombra das árvores quando está muito calor, mas realmente frio também dispenso...
      Beijo JP e bom resto de fim de semana.

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  6. É mesmo um grande poeta.

    Manuela Pires

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  7. De facto. O meu problema foi a escolha, porque tudo o que ele escreve é lindo.

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  8. Gosto muito do Joaquim Pessoa e esse "abraça-me" é uma maravilha, não gosto muito é da Kátia Guerreiro.
    Sofia

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    1. Eu então não gosto nada de Kátia Guerreiro, acho a voz dela irritante e um pouco nasalada para o meu gosto. Para além disso, o facto de já ter acompanhado Cavaco Silva em visitas oficiais ao estrangeiro diz muito acerca daquilo que não gosto num artista; ou seja, que se torne um artista de regime, qualquer que ele seja. Independentemente da amizade que pode ter com o presidente e sua família, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
      Só a escolhi porque,(que eu saiba) não parece existir mais ninguém a cantar este poema "Talvez não saibas"que eu gosto muito.
      Adoraria ouvir este tema cantado por Ana Moura ou Dulce Pontes, no entanto acho que o poema cantado e exposto no vídeo, e as guitarras salvam o tema.

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  9. Não conheci o nome, logo desconhecia o talento.

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    1. S*!!! ...É isso que adoro em ti. Não conheces, dizes que não conheces.....-)
      Espero que tenhas gostado.

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  10. Do pouco que li dele gostei muito. Depois destas dicas acho que vou ter que "o procurar"...

    (Também gosto da foto e desse olhar)

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  11. Eu tenho o Joaquim Pessoa e o Eugénio de Andrade a fazer-me companhia desde a minha adolescência. O outro Pessoa descobri mais tarde....

    Qual foto?... Ah! sim, o J. Pessoa tem um olhar penetrante!...:-)

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  12. Gosto muito dos poemas de Joaquim Pessoa.

    Ana Silva

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  13. "Amélia dos Olhos Doces", talvez seja mais cantada de todas as suas poesias, mas eu continuaria a escolhe-la por ser belíssima e tão simples.

    Bjs

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    1. Sim, é mesmo a mais cantada, mas gostei muito do poema deste fado, e como não é tão conhecido, quem não conhecia ficou a conhecer. Além disso também tem mais a ver com os excertos que escolhi dele.

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