JOSÉ SARAMAGO
"O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever"
J. Saramago (Azinhaga, Portugal 1922-Lanzarote, Espanha 2010) foi um dos expoentes da literatura em Língua Portuguesa. Nem vou salientar a sua obra como cronista, ensaísta, jornalista, tradutor, dramaturgo ou poeta, pois foi como romancista que a sua obra ultrapassou fronteiras. São tantos os romances de qualidade que destacarei apenas "Levantado do Chão"(1980), " Memorial do Convento"(1982),o meu preferido,"O Ano da morte de Ricardo Reis"(1984), "Jangada de Pedra"(1986), "O Evangelho Segundo Jesus Cristo"(1991), "Ensaio Sobre a Cegueira" (1995)....
Não conseguindo optar por um dos romances, decidi mostrar a carta que Saramago dedicou à avó e um dos seus poemas.
Para além de vários prémios e outras distinções, realço o Prémio Camões(1995) e o Prémio Nobel de Literatura
CARTA PARA JOSEFA, MINHA AVÓ
Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo- e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira - sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa : já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que contavas?). Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.
Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério incessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos - e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Porque foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses comprender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti - e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas - e isso ainda é pior. Mas porquê avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: " O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!"É isto que eu não entendo - mas a culpa não é tua.
in "Deste Mundo e do Outro"
APRENDAMOS AMOR
Aprendamos , amor, com estes montes
Que, tão longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.
Façamos o que é certo e de direito
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito.
in " Os poemas Possíveis"(1966)

A carta que ele escreveu para o avô também é muito bonita.
ResponderEliminarNem sabia que ele também escreveu poesia. ...
É na verdade igualmente bonita...até estive indecisa na escolha, mas acho que qualquer texto dele ficaria bem.
ResponderEliminarSim, a poesia de Saramago não está muito divulgada.E é pena.
Que lindo poema de Saramago, não sabia que também tinha escrito poemas.
ResponderEliminarAna Siva
Sim, escreveu. Não muitos, mas bons.
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