"Não vale mais o nosso mistério do que o de outro qualquer. Só o mistério chega inteiro ao fim."
in "Textos de Intervenção"
José Sobral de Almada Negreiros nasceu em São Tomé e Príncipe em 1893 e faleceu em Lisboa em 1970. Um dos grandes artistas portugueses do séc.xx, que contrariamente a F. Pessoa ou Amadeo de S. Cardozo, centrados apenas numa área específica (Literatura e Pintura, respectivamente), estenderia a sua criatividade sobre áreas tão diversas como o Desenho, a Pintura, o Mural, o Vitral, o Romance, a Poesia, o Ensaio e o Teatro (como coreógrafo, figurinista e até bailarino).
Modernista auto-didacta e futurista, polemicamente contundente e interventivo, agitou as águas do atávico ambiente cultural da altura. Depois de uma passagem fugaz por Paris e de ter vivido em Madrid durante alguns anos, decide fixar-se definitivamente em Portugal em 1932. Casa em 1934 com a pintora Sarah Afonso, participa activamente em muitos jornais e revistas com desenhos, textos ou ilustrações, e passa a adoptar uma atitude mais construtiva em contraponto à sua agressividade inicial.
Assumidamente monárquico, viria a aproximar-se dos ideais do Estado Novo, embora tivesse tentado manter a sua arte independente em relação ao regime, mas a aproximação acaba por dar-se em 1941 quando o Secretariado da Propaganda Nacional organiza a exposição "Almada-Trinta Anos de Desenho", altura a partir da qual participará em iniciativas do SPN, algo que até então tinha evitado.
De destaque na sua obra , o Bailado "O Sonho da Rosa", o poema "Cena do Ódio", o Manifesto Anti- Dantas, os Murais da Gare Marítima de Alcântara, da Cidade Universitária, o Retrato de F.Pessoa, ou o Painel do Átrio da Fundação Calouste Gulbenkian.
Grande Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago de Espada em 1967, a sua última aparição pública seria no programa Zip-Zip, em 1969. Faleceria no ano seguinte, no mesmo quarto do Hospital São Luís dos Franceses, no qual muitos anos antes tinha falecido o seu amigo Fernando Pessoa.
Escolhi dele o seguinte texto.
O VALOR DA INGENUIDADE
O maior perigo que corre o ingénuo: o de querer ser esperto.
Tão ingénuo que cuida, coitado, de que alguma vez no mundo o conhecimento valeu mais do que a ingenuidade de cada um. A ingenuidade é o legítimo segredo de cada qual, é a sua verdadeira idade, é o seu próprio sentimento livre, é a alma do nosso corpo, é a própria luz de toda a nossa resistência moral.
Mas os ingénuos são os primeiros que ignoram a força criadora da ingenuidade, e na ânsia de crescer compram vantagens imediatas ao preço da sua própria ingenuidade.
Raríssimos foram e são os ingénuos que se comprometeram um dia para consigo próprios a não competir neste mundo senão consigo mesmos. A grande maioria dos ingénuos desanima logo de entrada e prefere tricher no jogo da honra, do mérito e do valor. São eles as próprias vítimas de si mesmos, os suicidas dos seus legítimos poetas, os grotescos espanatalhos da sua própria esperteza saloia.
Bem haja o povo que encontrou para o seu idioma esta denunciante expressão da pessoa que é vitima de si mesma; a esperteza saloia. A esperteza saloia representa bem a lição que sofre aquele que não confiou afinal em si mesmo, que desconfiou de si próprio, que se permitiu servir de malícia, a qual como toda a espécie de malícia não perdoa exactamente ao próprio que a foi buscar. Em português a malícia diz-se exactamente por estas palavras: esperteza saloia.
Parecendo tão insignificante, a malícia contudo fere a individualidade humana no mais profundo da integridade do próprio que a usa, porque o distrai da dignidade e da atenção que ele se deve a si mesmo, distrai-o do seu próprio caso pessoal, da sua simpatia ou repulsa, da sua bondade ou da sua maldade, legítimas ambas no seu segredo emocional.
Porque na ingenuidade tudo é de ordem emocional. Tudo. O que não acontece com as outras espécies de conhecimento onde tudo é de ordem intelectual. Na ordem intelectual é possível reatar um caminho que se rompeu. Na ordem emocional, uma vez roto o caminho, já nunca mais se encontrará sequer aquela ponta por onde se rompeu.
O conhecimento é exclusivamente de ordem emocional, embora também lhe sirvam todas as pontas da meada intelectual.
Almada Negreiros in "Ensaios"
O "Manifesto Anti-Dantas", um texto extremamente virulento, irónico e sarcástico, escrito por A. Negreiros em 1916, aos 23 anos de idade, e que abre o caminho ao Futurismo em Portugal. Um texto imenso no qual não apenas Júlio Dantas é atacado, mas muitas outras personalidades da época.
Com o saudoso actor Mário Viegas que, para quem não se recorde e como mera curiosidade, também escreveu o seu Manifesto Anti-Cavaco. Vídeo ilustrado com algumas obras de A. Negreiros.










