terça-feira, 31 de março de 2015

Lua


"Três coisas não podem ser escondidas por muito tempo: o sol, a lua, e a verdade."
Buda




Toda a verdade do mundo 
se revela na pequena estrela
que me ilumina nas mãos
a toada de uma morna lenta
se o meu pensamento veloz
dentro de mim inventa
a forma de te procurar.

A lua acomoda-se à janela
como vaga luz em castiçal
que nos meus olhos ateasse
o voraz lume do teu nome
e a tua muda voz em sopro 
quente a mim chegasse.





Lua, de Pedro Barroso, um enorme poeta de canções.


sábado, 21 de março de 2015

Nas Ervas


"Amar-te assim desvelado
entre barro fresco e ardor"... E. de Andrade



 Escolhi para este Dia Mundial da Poesia, um dos meus poetas de eleição; Eugénio de Andrade, o poeta do corpo e da claridade. Aqui está um poema de um erotismo fresco, a condizer com a chegada da Primavera.
                                                        

NAS ERVAS

                                                         Escalar-te lábio a lábio,
                                                         percorrer-te; eis a cintura
                                                         o lume breve entre as nádegas
                                                         e o ventre, o peito, o dorso
                                                         descer aos flancos, enterrar

                                                         os olhos na pedra fresca
                                                         dos teus olhos,
                                                         entregar-me poro a poro
                                                         ao furor da tua boca,
                                                         esquecer a mão errante
                                                         na festa ou na fresta

                                                         aberta à doce penetração
                                                         das águas duras,
                                                          respirar como quem tropeça
                                                          no escuro, gritar
                                                          às portas da alegria,
                                                          da solidão.

                                                          porque é terrível
                                                          subir assim às hastes da loucura,
                                                          do fogo descer à neve.

                                                          abandonar-me agora
                                                          nas ervas ao orvalho -
                                                          a glande leve.


                                                                          Eugénio de Andrade, in Chuva sobre o Rosto



E como a poesia vive de palavras, Lahsa de Sela, "Con Toda Palabra".

terça-feira, 10 de março de 2015

Castelos no Ar



" O homem é um castelo feito no ar. O que ele tem de não existente, é o que lhe dá existência. O engano em que ele vive, é o que lhe dá vida. Toda a realidade do seu corpo se firma na mentira da sua alma."  
Teixeira de Pascoaes 
         




 Somos vítimas de uma séria sobriedade. De uma normalidade rasante que, de mãos dadas com a banalidade, nos faz povoar a vida de preconceitos todos os dias.
 Encharcamo-nos de uma pretensa intelectualidade que não passa de mera soma de conhecimentos e graus, degraus para um estatuto, mas fechamo-nos ao mundo que aí está à nossa frente, pleno de mistérios e sedutor no chamamento.
 Não existem tisanas ou secretos poderes, tágides ou bardos, corações em tumulto, ou estrofes escritas no silêncio da noite, que nos concedam a coragem de ser quem somos. O ideal foge, raramente regressa, e quando se viajou pelos astros, a redonda e pequena terra azul, parece um pântano; um lugarejo de sensações malditas que cavalo altivo transportou não se sabe como... Afogamo-nos na inocência de interditos, em liberdades impossíveis, em limites inevitáveis. Castram-nos e castramo-nos em enredos e receios que nos devoram a vontade. 
 Passamos a vida em contenção e abstinência, pecando por excesso ou por defeito. Será melhor o menos ou o mais? Devemos ser famintos, ou rebentar de abundância?... Somos tão reticentes ...Tentamos conter a seiva, o sémen, o riso e as palavras, numa sociedade que desconfia da franca alegria e faz apanágio do sacrifício. Que exaspera se os rios secam, que desespera se transbordam, que defende o apriosionamento em vez da libertação. Que rejeita que a natureza erre, se confunda, ou se exceda sem substanciais propósitos.
 Tornemo-nos então, maníacos da decepção; mera consequência da nossa irresponsabilidade, ao construir castelos no ar, não tratando de estabelecer os respectivos alicerces. Prefiramos a mentirosa aparência das coisas ao seu real valor, porque somos o nosso próprio contra-senso, e o corpo pode ser uma cama desconfortável para a alma. Esvaziemo-nos de claras intenções, e afoguemos a inocente genialidade em monótona vulgaridade. Sobretudo que não ousemos pensar. Muito menos sentir. Não gostemos verdadeiramente de nada, e se amarmos, que o façamos com parcimónia. Preferível que tudo nos seja mais ao menos indiferente. Não olhemos à nossa volta, muito menos para dentro de nós, a não ser para que, a partir da nossa própria imagem no espelho, nos desintegremos e fiquemos diante de nós como não imaginávamos ; uma imensidão de átomos que se julgaram importante matéria. Esqueçamos a singularidade da qual somos feitos.
 Existiu um rio onde mirei o meu olhar. Dois passos adiante, o rio não estava lá. Nem a minha imagem, nem eu.
 O dia está triste?...Nem pensar!...É apenas o meu olhar a demorar-se em breve diáspora sobre um horizonte de estepes adormecidas.





De Don McLean, Castles in the Air.
  

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Aristides de Sousa Mendes


O historiador Yehuda Bauer, no seu livro "A History of the Holocaust", escreve:
"O Cônsul português em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes, concede vistos de trânsito a milhares de judeus refugiados, em transgressão das regras do seu governo. Talvez a maior acção de salvamento feita por uma só pessoa, durante o Holocausto".



 Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches nasceu em Cabanas de Viriato, distrito de Viseu, em 1885, e faleceu em Lisboa em 1954. Nascido no seio de uma família aristocrática e católica, o pai foi juiz em Coimbra, e a mãe pertencia à Casa de Midões, de tradições "liberais".  Aristides tinha um irmão gémeo, César, que viria também a ser diplomata, e um irmão mais novo. Acabou o curso de Direito na Universidade de Coimbra em 1907, entraria para a carreira consular, tendo passado por Zanzibar, Brasil, Estados Unidos, Espanha, Luxemburgo, Bélgica, e finalmente Bordéus, França.
 Casado com Maria Angelina desde 1909, a família cresceria a par da sua carreira diplomática, tendo o casal tido 14 filhos. Quatro nascidos em Zanzibar, dois no Brasil, dois nos Estados Unidos, um em Espanha, dois na Bélgica, e três em Portugal. Homem de família, nunca dela se separou, e para além da instrução escolar, os seus filhos tiveram também formação em Pintura, Desenho e Música. "Lá em casa , tocava-se Chopin, Mozart, Bach, Beethoven, etc..", segundo um dos filhos.
 De trato afável, facilmente fazia amigos. Em Zanzibar, o sultão foi padrinho de dois dos seus filhos, e o rei Leopoldo da Bélgica terá dito uma vez em público : "Ah voilà mon ami, le Consul Général du Portugal!", tendo convivido durante os seus nove anos na Bélgica, com Maeterlinck, Prémio Nobel da Literatura, e com Albert Einstein que por lá passou em 1935, quando decidiu deixar a Alemanha a caminho dos Estados Unidos.

 Destituído da carreira diplomática em 1919, devido às suas convicções monárquicas, é no entanto readmitido dois anos mais tarde, para dirigir o Consulado de São Francisco nos Estados Unidos, tendo a partir da instauração do Estado Novo iniciado a sua carreira na Europa; em Vigo, e depois em Antuérpia.
 Colocado em Bordéus em 1938, com o início da Segunda Guerra Mundial e a invasão da França pela Alemanha nazi em 1940, decide, devido ao afluxo de milhares de refugiados em fuga, conceder durante uma semana, vistos de entrada em Portugal, contrariando ordens expressas de Salazar. Costuma apontar-se para 30 000 o número de refugiados salvos, mas ao certo ninguém parece saber o número exacto.  Independentemente do número exacto, esta desobediência acabaria por custar-lhe um processo disciplinar, o afastamento da carreira diplomática, e o exercício de qualquer outra actividade profissional, tendo inclusivamente sido impedido de trabalhar como advogado, e não tendo direito a aposentação. Aristides elabora a sua defesa com base em valores éticos e humanitários, mas Salazar nunca aceitaria recebê-lo, e acabaria mesmo por "apoderar-se" do acto de Sousa Mendes, através de um Editorial do Diário de Notícias, no qual o ditador é louvado por ter salvado milhares de refugiados a partir de França.
Ostracizado pelo regime, pelos seus pares, e até por alguns familiares e amigos. Os filhos, perseguidos, são forçados a emigrar, tendo dois deles integrado as tropas americanas em 1943, e participado  na invasão da Normandia em 1944. A morte da esposa em 1948 tê-lo-á deixado ainda mais só, tendo vindo a falecer seis anos depois.



 Desde sempre ao abandono, e considerada monumento nacional desde 2011, a Casa do Passal, palacete da família Sousa Mendes, começou a ser intervencionada o ano passado, porque em perigo de ruir, não tendo em vista contudo uma recuperação total do edifício, mas apenas uma nova cobertura e o reforço dos pilares. A intenção da Fundação Aristides de Sousa Mendes é criar ali futuramente um museu. Quando, não se sabe...




  "Désobéir", filme realizado por Joël Santoni em 2008, e o "O Cônsul de Bordéus",  realizado por Francisco Manso e João Corrêa, em 2012 serão as únicas homenagens cinematográficas. Escolhi o tributo Benedictus do Requiem composto por Luís Cipriano, em memória de Aristides de Sousa Mendes.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

A Céu Aberto


                                   
               "The Inner Ocean" Christian Schloe



                                                         Todo o vale a leste
                                                          foi ocultado por colinas
                                                          p'lo leve manto que me deste,
                                                          feito de vento e pedras finas.
                                                          Enquanto o espanto me pasmava
                                                          em perfume de alegria
                                                          a aragem despenteava
                                                          no meu rosto a franja do dia.
                                                          Do outeiro a norte
                                                          encomendei primeiro 
                                                          um pouco de sorte...
                                                          Do prado a sul
                                                          o aroma verde do pinheiro.
                                                          Do lago dos meus olhos
                                                          um espelho de luz no monte
                                                          a céu aberto.
                                                          Subitamente
                                                          do vasto horizonte
                                                          todo o sal da beleza
                                                          se fez perto
                                                          num mar de sol
                                                          e azul turqueza.




Sou uma apaixonada pela música do Fausto B. Dias, por isso escolhi hoje, Todo este Céu, cantado pela Né Ladeiras. 
" E qualquer coisa acontece no mais alto dos céus/ qualquer coisa no fundo do meu coração/ mas não sei das trevas nem da luz/ Pois sem ti não há céu nem chão/..."

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Antes o Vôo da Ave







                                 Antes o vôo da ave , que passa e não deixa rasto,
                                 Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
                                 A ave passa e esquece, e assim deve ser.
                                 O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
                                 Mostra que já esteve, o que não serve para nada.

                                 A recordação é uma traição à Natureza,
                                 Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
                                 O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
         
                                 Passa, ave, passa, e ensina-me a passar.

                                                                         
        
                                           Alberto Caeiro, Poema XLIII, in "O Guardador de Rebanhos"
                                                                    Escrito em 1914. Publicado pela 1ª vez pela revista
                                                                                                                   Athena em 1925.





 Tema composto por Bart Howard, "Fly Me To The Moon", foi  inicialmente interpretado por Kaye Ballard (In Other Words), tendo conhecido versões de Julie London, Frank Sinatra ou Diana Krall. Escolhi a versão de Sarah Vaughan.




terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Feira da Ladra



Fotos de Nancy Wilde




                              De nome não tão nobre e belo
                              como El Rastro ou Portobello,
                              é local de compra e venda
                              não muito longe do castelo.
                              Expõe imagens de restos da alma
                              tantas vezes esquecida em fugazes intenções.
                              Ora desfeita em popular mercado,
                              ora em sofisticados, pachorrentos leilões,
                              cortada às fatias, bocado a bocado,
                              exposta em hasta pública
                              quando tudo perdeu o significado.

                              Regateia-se o preço do desnecessário,
                              e tudo desaparece depressa
                              da banca e do imaginário;
                              o quadro pintado pelo tio,
                              o serviço de chá Vista Alegre da avó
                              esquecido durante anos
                              na indiferença do sotão, coberto de pó.
                              Na Feira da Ladra, os ladrões
                              estão agora dentro de nós
                              solitários numa trincheira de cifrões.

                              Livros, roupa, realejos e calçado,
                              moedas, selos e violas,
                              ferramentas, estatuetas,
                              breves discussões e caixas de esmolas.
                              Tudo o que a imaginação desejar.
                              É só olhar, fazer o lance
                              e comprar.

                              Encontro com o exclusivo e o inesperado;
                              estanhos, pratas, uma tiara...
                              À terça e ao sábado
                              no Campo de Santa Clara
                              há panos e restos de vida
                              espalhados pelo chão.
                              Móveis, ferro-velho, falcatruas,
                              telas, um sôfrego desejo em cada mão
                              e um intenso movimento pelas ruas.





Inicialmente cantada por Carlos do Carmo, A Nova Feira da Ladra, um poema de Ary dos Santos, aqui numa versão refrescante de Sara Tavares