quarta-feira, 20 de março de 2013

Alentejo


"Mais vale uma proposta ao pé das searas que uma questão na eira."
Provérbio português


ALENTEJO

 A planície reflectia como miragem, um espelho incandescente de ondas de calor sob um céu dolente que abrasa a terra , e lentamente a fecunda. Que ofusca, quase cega de tanta luz, numa quietude monótona, mas bela. Paisagem, ora melancolicamente sórdida, ora de alegria e pujança tão efémeras quanto profundas, povoando a imensidão da lonjura, de dor e prazer, de vida aparentemente aborrecida, mas tão originalmente plena.
 Charnecas de estevas, rosmaninho e silvas carregadas de amoras.Extensas planuras e planaltos de montado, de azinheiras e olival, ondulando suavemente em campo aberto, escondendo escarpas e montes de longe em longe.
 Pela manhã, passo vagaroso e cadenciado, que esta vida requer prova de vagar e não de pressa, preso na liberdade de intrínseco compromisso, Zé da Onça atravessava os caminhos que o levavam de volta às searas; o seu orgulho. Loiras, altas, de espigas hirtas e fortes. Uma certeza de alimento para os olhos e para a alma, promessa de futuro pão para o corpo.Sentava-se por instantes entre os caules maleáveis e firmes, no coração da seara salpicada de papoilas, com o pretenso intuito de proteger-se do calor, perscrutando com interesse renovado, o antigo e sempre novo canto das cigarras. Ritual quase diário até à maturação do trigo.
 Na casa, caiada de branco imaculado, a mulher cantava ao seu regresso. Lá fora, um carro de bois para a lavoura, lá dentro, uma cama para os dois. Os filhos eram doentes mentais, e Zé da Onça falava com eles como falava com os animais ou com as sementeiras, com acanhada ternura e
transbordante desvelo.
 Nunca foi à escola, não tem um único livro. Calhou entristecer-se por isso, zangar-se com o destino, por ter tropeçado nesse fatal regente de vidas que a ele se colou, por mais que dele se tivesse tentado alhear.... Mas não se demorou em inquietações. Decide e age de forma quase intuitiva, e de acordo com o ritmo das estações, ciclos de trabalho árduo que se fecham com a animação das colheitas.Sabedoria transmitida por pais e avós. Não poderia senão aspirar a uma cultura da terra e das mãos, de arados e foices. De calor, de suor e de frio...sempre de cansaço.
 A ribeira, agora seca, encher-se-ia de novo no próximo Inverno. A vida continuaria a entoar o seu murmúrio triunfante, e o futuro seria sempre só possível como dantes.
 O dia começava cedo, acabava tarde, e havia tanto que contar aos filhos. Breves narrações de infância, de idas à feira anual na aldeia distante e de como lá chegava  montado num burro, e coberto de poeira. Também histórias de fantasmas e heróis rurais, de vilões e lobisomens, de monstros e de feitiços de amor, recriadas de geração em geração, imaginação a tomar as rédeas da monotonia. E se o sono tardasse, entoar  de forma brejeira alguma moda que ouvira cantar o avô.
 Perto da pocilga rodeada de sobreiros, num chão acolchoado por bolotas e lama, algo de maravilhoso acontecia; ágeis escaravelhos moldavam de forma exímia belas bolas de excrementos, enquanto o luar descia mansamente sobre o monte, iluminando candidamente os cardos, evocando silhuetas, não revelando , contudo, os rouxinóis que encheram de melodia há poucos minutos os recantos mais sombrios, acobertando-se agora na copa das árvores.
 Noites longas de mistério e de silêncio, entrecortado por sons familiares, adormecendo tranquilamente homens rústicos e solitários por natureza, que gostam de cantar de braço dado, e sabem, de forma ancestral, que nesta região agreste e seca, a água e o pão são o verdadeiro ouro.





" Meu Alentejo", na voz de Dulce Pontes







34 comentários:

  1. Adorei a forma excelente como falou dos escaravelhos! Lindo!
    Sofia

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    1. Costuma dizer-se que para escrever sobre certos assuntos temos de conhecê-los. Pois bem, essa é uma das minhas memórias de infância; os escaravelhos a fazer as bolas e eu a olhá-los maravilhada, não perto duma pocilga, nessa altura, mas junto ao estábulo.

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  2. Simplesmente um dos melhores textos que alguma vez li sobre o Alentejo.Um prazer ler prosa assim. Obrigada!
    E a voz da Dulce, neste tema,uma voz de sonho.

    Manuela Pires

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    1. Prazer é para mim ler o seu comentário, sentir que percebeu o que eu disse acerca duma região tão bonita e tão desoladamente esquecida.
      Sim, Dulce foi presenteada com uma voz maravilhosa.
      Obrigada, Manuela.

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  3. Tenho muita pena de ainda não conhecer esse Alentejo cheio de luz, vida e calma.

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    1. Querida S*, nem imaginas o que estás a perder... :-) Quando tiveres oportunidade , ala que se faz tarde!... x

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  4. Senti-me por completo no Alentejo.
    Obrigado pela partilha.


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    1. Rui, esse é o maior elogio que se pode fazer; conseguir "mover" alguém com o que escrevemos.
      Obrigada eu. Vivo no Algarve , mas nasci no Alentejo, e o Alentejo nunca mais desaparecerá de mim.

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  5. Não comeces a enviar os teus escritos para as editoras, que não é preciso. Talento que só visto.

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  6. Texto de inegável beleza. Parabéns.


    maria jorge

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    1. Obrigada querida Maria. Aposto que gostaste do provérbio.....:-)

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  7. Um texto fabuloso sobre o alentejo, que merecia ser publicado.
    Em poucos minutos fiz uma viagem ao alentejo profundo, nunca me senti tão alentejano.
    Sempre boas escolhas musicais.

    Luison

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    1. Memórias de Castro Verde, Luison?!...Um algarvio com saudades do Alentejo, é o que é....;-)

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  8. Simplesmente belo!
    Parabéns!



    Escravelho

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    1. Aaaahhhh! ...."Escravelho"!!!.... Obrigada pelo comentário.

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  9. Que belo texto sobre o Alentejo! Que pena que as searas já não existam como existiam.

    João Nicolau

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  10. É bem verdade...tanta terra abandonada.

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  11. De quem é? Teu? Intenso... Faz-nos estar lá. :-)

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    1. Sim, é meu, claro. Ah...eu sou uma pessoa muito intensa, no melhor e no pior...:-)

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    2. Assim é que é. Como dizia a outra, se é para dar, que seja a 100%. ;-)

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    3. Exactamente! Senão for assim o que é que andamos cá a fazer?...:-) x

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  12. O Alentejo mudou e muitas alterações estarão para vir ainda na paisagem Alentejana. Espero que a iliteracia não se instale como era antigamente.

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    1. Sim , é verdade, o Alentejo mudou, mas não sei se as alterações foram alguma vez ,essencialmente pensadas para quem lá sempre viveu longe de tudo, ou se foram pensadas para quem vem de fora...

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  13. Descobri o seu blogue ao procurar por Alentejo. Que texto extraordinário, com cada palavra medida ao milímetro e plena de sentido. Adorei e vou voltar para ler tudo o resto.

    João Cristóvão

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  14. Laura deixo-te um beijinho e votos de uma Páscoa feliz!

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    1. Obrigada Belle, um beijo para ti também, e recupera depressa do que te aconteceu.Os dias vão de certo ficar mais bonitos.x

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  15. Venho deixar-lhe o meu abraço pascoal!
    :)

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  16. Ah! Obrigada Rui! Realmente nada melhor que um abraço pascoal nesta altura do ano...:-) Espero que tenha tido um dia feliz em família.

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  17. Olá Laura, descobri o teu blogue através da tua irmã, gosto do que escreves sobre a nossa região o Alentejo, continua. Recordo-me do tempo da nossa juventude.
    João Gante

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    1. Ah João, que surpresa enorme!... Como o tempo passa, até quase nem me lembrava deste texto que escrevi há tanto tempo...! Ver-te aqui agora foi muito giro, e uma prova de que o mundo é pequeno.
      Gostei muito de ter-te aqui, podes crer.
      Obrigada, João, por esta visita tão natalícia...:-)
      xx

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    2. Obrigado Laura pelas tuas palavras e pela tua estima, vou estar atento aos teus escritos.
      João Gante

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    3. Eu é que tenho que agradecer esta surpresa. Quanto aos escritos, melhor é nem tomares muita atenção, porque a inspiração anda arredia...:-)
      xx

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