"Mais vale uma proposta ao pé das searas que uma questão na eira."
Provérbio português
ALENTEJO
A planície reflectia como miragem, um espelho incandescente de ondas de calor sob um céu dolente que abrasa a terra , e lentamente a fecunda. Que ofusca, quase cega de tanta luz, numa quietude monótona, mas bela. Paisagem, ora melancolicamente sórdida, ora de alegria e pujança tão efémeras quanto profundas, povoando a imensidão da lonjura, de dor e prazer, de vida aparentemente aborrecida, mas tão originalmente plena.
Charnecas de estevas, rosmaninho e silvas carregadas de amoras.Extensas planuras e planaltos de montado, de azinheiras e olival, ondulando suavemente em campo aberto, escondendo escarpas e montes de longe em longe.
Pela manhã, passo vagaroso e cadenciado, que esta vida requer prova de vagar e não de pressa, preso na liberdade de intrínseco compromisso, Zé da Onça atravessava os caminhos que o levavam de volta às searas; o seu orgulho. Loiras, altas, de espigas hirtas e fortes. Uma certeza de alimento para os olhos e para a alma, promessa de futuro pão para o corpo.Sentava-se por instantes entre os caules maleáveis e firmes, no coração da seara salpicada de papoilas, com o pretenso intuito de proteger-se do calor, perscrutando com interesse renovado, o antigo e sempre novo canto das cigarras. Ritual quase diário até à maturação do trigo.
Na casa, caiada de branco imaculado, a mulher cantava ao seu regresso. Lá fora, um carro de bois para a lavoura, lá dentro, uma cama para os dois. Os filhos eram doentes mentais, e Zé da Onça falava com eles como falava com os animais ou com as sementeiras, com acanhada ternura e
transbordante desvelo.
Nunca foi à escola, não tem um único livro. Calhou entristecer-se por isso, zangar-se com o destino, por ter tropeçado nesse fatal regente de vidas que a ele se colou, por mais que dele se tivesse tentado alhear.... Mas não se demorou em inquietações. Decide e age de forma quase intuitiva, e de acordo com o ritmo das estações, ciclos de trabalho árduo que se fecham com a animação das colheitas.Sabedoria transmitida por pais e avós. Não poderia senão aspirar a uma cultura da terra e das mãos, de arados e foices. De calor, de suor e de frio...sempre de cansaço.
A ribeira, agora seca, encher-se-ia de novo no próximo Inverno. A vida continuaria a entoar o seu murmúrio triunfante, e o futuro seria sempre só possível como dantes.
O dia começava cedo, acabava tarde, e havia tanto que contar aos filhos. Breves narrações de infância, de idas à feira anual na aldeia distante e de como lá chegava montado num burro, e coberto de poeira. Também histórias de fantasmas e heróis rurais, de vilões e lobisomens, de monstros e de feitiços de amor, recriadas de geração em geração, imaginação a tomar as rédeas da monotonia. E se o sono tardasse, entoar de forma brejeira alguma moda que ouvira cantar o avô.
Perto da pocilga rodeada de sobreiros, num chão acolchoado por bolotas e lama, algo de maravilhoso acontecia; ágeis escaravelhos moldavam de forma exímia belas bolas de excrementos, enquanto o luar descia mansamente sobre o monte, iluminando candidamente os cardos, evocando silhuetas, não revelando , contudo, os rouxinóis que encheram de melodia há poucos minutos os recantos mais sombrios, acobertando-se agora na copa das árvores.
Noites longas de mistério e de silêncio, entrecortado por sons familiares, adormecendo tranquilamente homens rústicos e solitários por natureza, que gostam de cantar de braço dado, e sabem, de forma ancestral, que nesta região agreste e seca, a água e o pão são o verdadeiro ouro.
" Meu Alentejo", na voz de Dulce Pontes

Adorei a forma excelente como falou dos escaravelhos! Lindo!
ResponderEliminarSofia
Costuma dizer-se que para escrever sobre certos assuntos temos de conhecê-los. Pois bem, essa é uma das minhas memórias de infância; os escaravelhos a fazer as bolas e eu a olhá-los maravilhada, não perto duma pocilga, nessa altura, mas junto ao estábulo.
EliminarSimplesmente um dos melhores textos que alguma vez li sobre o Alentejo.Um prazer ler prosa assim. Obrigada!
ResponderEliminarE a voz da Dulce, neste tema,uma voz de sonho.
Manuela Pires
Prazer é para mim ler o seu comentário, sentir que percebeu o que eu disse acerca duma região tão bonita e tão desoladamente esquecida.
EliminarSim, Dulce foi presenteada com uma voz maravilhosa.
Obrigada, Manuela.
Tenho muita pena de ainda não conhecer esse Alentejo cheio de luz, vida e calma.
ResponderEliminarQuerida S*, nem imaginas o que estás a perder... :-) Quando tiveres oportunidade , ala que se faz tarde!... x
EliminarSenti-me por completo no Alentejo.
ResponderEliminarObrigado pela partilha.
Rui, esse é o maior elogio que se pode fazer; conseguir "mover" alguém com o que escrevemos.
EliminarObrigada eu. Vivo no Algarve , mas nasci no Alentejo, e o Alentejo nunca mais desaparecerá de mim.
Não comeces a enviar os teus escritos para as editoras, que não é preciso. Talento que só visto.
ResponderEliminarLol! Que exagero!.... És um amor.
EliminarTexto de inegável beleza. Parabéns.
ResponderEliminarmaria jorge
Obrigada querida Maria. Aposto que gostaste do provérbio.....:-)
EliminarUm texto fabuloso sobre o alentejo, que merecia ser publicado.
ResponderEliminarEm poucos minutos fiz uma viagem ao alentejo profundo, nunca me senti tão alentejano.
Sempre boas escolhas musicais.
Luison
Memórias de Castro Verde, Luison?!...Um algarvio com saudades do Alentejo, é o que é....;-)
EliminarSimplesmente belo!
ResponderEliminarParabéns!
Escravelho
Aaaahhhh! ...."Escravelho"!!!.... Obrigada pelo comentário.
EliminarQue belo texto sobre o Alentejo! Que pena que as searas já não existam como existiam.
ResponderEliminarJoão Nicolau
É bem verdade...tanta terra abandonada.
ResponderEliminarDe quem é? Teu? Intenso... Faz-nos estar lá. :-)
ResponderEliminarSim, é meu, claro. Ah...eu sou uma pessoa muito intensa, no melhor e no pior...:-)
EliminarAssim é que é. Como dizia a outra, se é para dar, que seja a 100%. ;-)
EliminarExactamente! Senão for assim o que é que andamos cá a fazer?...:-) x
EliminarO Alentejo mudou e muitas alterações estarão para vir ainda na paisagem Alentejana. Espero que a iliteracia não se instale como era antigamente.
ResponderEliminarSim , é verdade, o Alentejo mudou, mas não sei se as alterações foram alguma vez ,essencialmente pensadas para quem lá sempre viveu longe de tudo, ou se foram pensadas para quem vem de fora...
EliminarDescobri o seu blogue ao procurar por Alentejo. Que texto extraordinário, com cada palavra medida ao milímetro e plena de sentido. Adorei e vou voltar para ler tudo o resto.
ResponderEliminarJoão Cristóvão
Obrigada João. Fico contente que tenha gostado.
EliminarLaura deixo-te um beijinho e votos de uma Páscoa feliz!
ResponderEliminarObrigada Belle, um beijo para ti também, e recupera depressa do que te aconteceu.Os dias vão de certo ficar mais bonitos.x
EliminarVenho deixar-lhe o meu abraço pascoal!
ResponderEliminar:)
Ah! Obrigada Rui! Realmente nada melhor que um abraço pascoal nesta altura do ano...:-) Espero que tenha tido um dia feliz em família.
ResponderEliminarOlá Laura, descobri o teu blogue através da tua irmã, gosto do que escreves sobre a nossa região o Alentejo, continua. Recordo-me do tempo da nossa juventude.
ResponderEliminarJoão Gante
Ah João, que surpresa enorme!... Como o tempo passa, até quase nem me lembrava deste texto que escrevi há tanto tempo...! Ver-te aqui agora foi muito giro, e uma prova de que o mundo é pequeno.
EliminarGostei muito de ter-te aqui, podes crer.
Obrigada, João, por esta visita tão natalícia...:-)
xx
Obrigado Laura pelas tuas palavras e pela tua estima, vou estar atento aos teus escritos.
EliminarJoão Gante
Eu é que tenho que agradecer esta surpresa. Quanto aos escritos, melhor é nem tomares muita atenção, porque a inspiração anda arredia...:-)
Eliminarxx